terça-feira, 4 de janeiro de 2011
E feliz 2011...
Neste início de 2011, lembrei-me de uma comédia que assisti lá nos anos 90 e que acabou virando um (novo) clássico: "O feitiço do tempo". Aparentemente despretensioso, o filme faz a festa dos psicanalistas, embora esteja longe de ser um Bergman.
De forma bem resumida, Phil (Bill Murray), o protagonista repórter, fica preso no dia que mais odeia: o dia em que é obrigado a cobrir uma festa local em uma cidade pequena. Imagine você acordar todo dia do mesmo jeito, na mesma hora e saber tudo o que vai acontecer, com quem vai falar e como. Os roteiristas da "Grande Família" fizeram uma adaptação da história com Nenê ficando presa em um mesmo dia. E dá-lhe Chico Buarque embalando Marieta Severo com "Cotidiano". O episódio é quase tão bom quanto o filme, contando ainda com Rogério Cardoso como "seu" Floriano.
Bem, mas o que isso tem a ver com 2011, com o blog, conosco? Sem precisar recorrer a ficção, será que vamos fazer de 2011 uma cópia de 2010, 2009 ou, sei lá, 2000 e...2? Com o tempo, parece que os anos vão ficando meio iguais e se não tiverem um marco para os identificarem, não os diferenciamos (vide o ano da formatura, do casamento, do primeiro filho que nasce). Bom, e se não houver marcos? E se as viagens de verão forem sempre para o Guarujá? E se o apartamento tiver a mesma decoração desde 98? E se as lamentações forem sempre as mesmas (homem é tudo igual, como estou gorda, como estou cansaaaada, como ganho mal)? Nêga, os anos viram uma massa só. E em Dezembro diremos que mais um "passou voando".
O personagem Phil, após várias tentativas, se livra do "feitiço do tempo". Que nos livremos dos nossos "feitiços" e que possamos criar em cima de nossas repetições compulsivas. 2011 pode ser diferente, tentemos nos inspirar. "Dos cacos, farei um vitral", já escreveu a grande Adélia Prado...
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Minhas dez novelas do coração (2001-2010)
Gosta de listinhas? Final de ano é uma época de fazer listas: do que foi feito no último ano, do que pretendemos alcançar no ano que vem. Bóra falar de tevê? Embora ande meio decepcionada com meus teledramaturgos preferidos, resolvi fazer minha listinha de dez mais. Com vocês, as dez melhores novelas da década, na opinião da humilde blogueira.
10) "O Clone"(Glória Perez, 2001) - Para muitos, a melhor novela da década, do que discordo veementemente. O mundo acabara de ver as torres gêmeas serem bombardeadas por dois aviões e os árabes taxados como inimigos públicos número um , devido ao terrorista Osama Bin Laden. E lá vem Glória Perez nos apresentar Jade, a marroquina muçulmana com sotaque de garota de Ipanema, que se apaixona por um ricaço brasileiro, o Lucasssssss. E dá-lhe ponte aérea Brasil-Marrocos como se fosse Rio-São Paulo. A novela virou febre (de pulserinhas da Jade a expressões ditas por Nazira). Giovana Antonelli fez moda com seu cabelão, a dança do ventre e os olhos pintados de cajau. Houve também a grata surpresa de Débora Falabella e sua Mel. Fantasiosa em demasia para o meu gosto, mas a parte dramática teve bons momentos.Tio Ali ( Stênio Garcia) e suas pérolas virou meu ídolo.
09) "Da cor do pecado" (João Emanuel Carneiro, 2004) - Um bom novelão das sete, talvez a melhor da década. João Emanuel brinca com os elementos clássicos do folhetim, sempre com um bom núcleo de comédia. Foi a primeira novela global com uma protagonista negra: Thaís Araújo. Reynaldo Gianechinni viveu os gêmeos Paco e Apolo e havia a família Sardinha, uma família que quase virou série independente, tamanho o sucesso.
08) "Senhora do Destino" (Aguinaldo Silva, 2004) - Fora "Tieta", uma adaptação da obra de Jorge Amado, foi a única novela de Aguinaldo Silva de que realmente gostei. A Maria do Carmo de Suzana Vieira era uma chata, mas tínhamos a Nazaré Tedesco de Renata Sorrah. Suas cenas com Elizângela, a antiga companheira de "vida fácil" Djenane, foram antológicas. Leandra Leal deu show como sua enteada, ao lado do doce Leonardo Vieira. Última novela de Raul Cortez, já bastante doente. José Wilker arrancou risadas com seu bicheiro "do bem" Giovanni Improta ("o tempo ruge e a Sapucaí é grande").
07) "Mulheres Apaixonadas" (Manoel Carlos, 2003) - A última novela decente de Manoel Carlos. Um milhão de personagens intercalavam suas histórias com a de Helena, a diretora do colégio particular Era. Única Helena de Cristiane Torloni, que era uma chata. Destaque para as meninas fofas que se amavam (Aline Moraes e Paula Picarelli), a doce Salete (Bruna Marquezine), a "Helouquisa" (Giulia Gam) e o MADA, a politicamente incorreta Dóris (Regiane Alves) e a maravilhosa estréia de Dan Stulbach e sua raquete do mal.
06) "Caminho das Índias" (Glória Perez, 2009) - Ganhou o Emy de melhor novela do mundo. Nada desprezível, não? Como sempre, Glorinha fez aquela misturêra básica: esquizofrenia, psicopatia, costumes indianos, etc, etc. Conseguiu fazer uma trama bem amarrada, apesar das licenças poéticas exageradas. Primeira vez que eu gostei de uma mocinha da Glória Perez: Juliana Paes fez muita gente chorar com sua Maya. E o Raj de Rodrigo Lombardi roubou a cena e a mocinha do esquecido Bahuan de Márcio Garcia.
05) "A lua me disse" (Miguel Falabella, 2005) - Miguel Falabella em boa forma, embora a novela não tenha sido aquele sucesso todo. Última novela das seis que assisti. Falabella é nosso Pedro Almodóvar com suas mulheres escandalosas e cheias de cores. Havia o homem travestido, a cantora de bar, a índia e as negras arrogantes. Nada politicamente correto. Arlete Salles era Ademilde, a mulher lutadora que havia sido abandonada pelo noivo e buscava um amor pela internet. Wagner Moura era o melhor mocinho de todos, com seu doce Gustavo. E Adriana Esteves era a mocinha destemida. Uma delícia de novela, ri demais.
04) "Paraíso Tropical" (Gilberto Braga, 2007) - A novela começou devagar, mas engrenou bem depois, caindo no gosto do público. Foi o ano de Wagner Moura. Além do herói Capitão Nascimento, ele arrebatou a mulherada com seu vilão deliciosamente canalha Olavo Novaes. Uma dupla inesquecível com a Bebel, de Camila Pitanga ("na minha cara está escrito: CAL-ÇA-DA!") roubou a cena da novela, que ainda contou com Alessandra Negrini, com suas gêmeas Paula e Thaís.
3) "Belíssima" (Silvio de Abreu, 2005) - O tema era a beleza e a tragédia. Tanto é que a novela, não por acaso, começa na Grécia. O mote condutor era a rivalidade entre a rica e malvada Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e sua neta Vitória (Cláudia Abreu). O laço familiar que as unia só é descoberto nos últimos capitulos. Destaque também para o ambivalente André Santanna de Marcelo Antonny e para a família grega espalhafatosa que contava com Irene Ravache, Lima Duarte e Cláudia Raia. Primeiro papel cômico de Gianechinni, o Paschoal.
2) "Celebridade" (Gilberto Braga, 2003-2004) - A trama era inspirada no clássico filme "A Malvada". Dissimulada aspirante a atriz (Anne Baxter) toma o lugar de sua ídola no teatro (Bette Davis). Sai Anne Baxter, entra Claudia Abreu. Sai Bette Davis, entra Malu Mader. O fio condutor da novela é o sentimento tão universal da inveja. Claudia Abreu também roubou a cena de Malu, lindíssima como a produtora Maria Clara Diniz. Márcio Garcia segurou bem o papel de comparsa de Laura, o Michê. E como era irresistível o personagem Renato Mendes, de Fábio Assunção...
1) "A favorita" (João Emanuel Carneiro, 2008) - Que beijinho doce tinha Flora. Tanto que Patrícia Pillar enganou meio mundo como sendo mocinha da novela. Na verdade, a mocinha era a espalhafatosa Donatella de Cláudia Raia, que comeu o pão que o diabo amassou. João Emanuel inovou em muita coisa na elaboração do roteiro da "Favorita", primando pela coerência dos personagens. Mariana Ximenes, Cauã Reymond, Glória Menezes, Elizângela e impagável Ary Fontoura estavam ótimos. Isso sem contar a dupla de protagonistas. Flora foi a pior vilã de todas, pois odiava a própria filha, um tabu, mesmo entre vilãs de novela.
Concordam com a lista? Comentem aí! Há novelas boas de outras emissoras, mas como não as assisti, não posso opinar. Convenhamos que os últimos anos não foram os melhores da teledramaturgia.
10) "O Clone"(Glória Perez, 2001) - Para muitos, a melhor novela da década, do que discordo veementemente. O mundo acabara de ver as torres gêmeas serem bombardeadas por dois aviões e os árabes taxados como inimigos públicos número um , devido ao terrorista Osama Bin Laden. E lá vem Glória Perez nos apresentar Jade, a marroquina muçulmana com sotaque de garota de Ipanema, que se apaixona por um ricaço brasileiro, o Lucasssssss. E dá-lhe ponte aérea Brasil-Marrocos como se fosse Rio-São Paulo. A novela virou febre (de pulserinhas da Jade a expressões ditas por Nazira). Giovana Antonelli fez moda com seu cabelão, a dança do ventre e os olhos pintados de cajau. Houve também a grata surpresa de Débora Falabella e sua Mel. Fantasiosa em demasia para o meu gosto, mas a parte dramática teve bons momentos.Tio Ali ( Stênio Garcia) e suas pérolas virou meu ídolo.
09) "Da cor do pecado" (João Emanuel Carneiro, 2004) - Um bom novelão das sete, talvez a melhor da década. João Emanuel brinca com os elementos clássicos do folhetim, sempre com um bom núcleo de comédia. Foi a primeira novela global com uma protagonista negra: Thaís Araújo. Reynaldo Gianechinni viveu os gêmeos Paco e Apolo e havia a família Sardinha, uma família que quase virou série independente, tamanho o sucesso.
08) "Senhora do Destino" (Aguinaldo Silva, 2004) - Fora "Tieta", uma adaptação da obra de Jorge Amado, foi a única novela de Aguinaldo Silva de que realmente gostei. A Maria do Carmo de Suzana Vieira era uma chata, mas tínhamos a Nazaré Tedesco de Renata Sorrah. Suas cenas com Elizângela, a antiga companheira de "vida fácil" Djenane, foram antológicas. Leandra Leal deu show como sua enteada, ao lado do doce Leonardo Vieira. Última novela de Raul Cortez, já bastante doente. José Wilker arrancou risadas com seu bicheiro "do bem" Giovanni Improta ("o tempo ruge e a Sapucaí é grande").
07) "Mulheres Apaixonadas" (Manoel Carlos, 2003) - A última novela decente de Manoel Carlos. Um milhão de personagens intercalavam suas histórias com a de Helena, a diretora do colégio particular Era. Única Helena de Cristiane Torloni, que era uma chata. Destaque para as meninas fofas que se amavam (Aline Moraes e Paula Picarelli), a doce Salete (Bruna Marquezine), a "Helouquisa" (Giulia Gam) e o MADA, a politicamente incorreta Dóris (Regiane Alves) e a maravilhosa estréia de Dan Stulbach e sua raquete do mal.
06) "Caminho das Índias" (Glória Perez, 2009) - Ganhou o Emy de melhor novela do mundo. Nada desprezível, não? Como sempre, Glorinha fez aquela misturêra básica: esquizofrenia, psicopatia, costumes indianos, etc, etc. Conseguiu fazer uma trama bem amarrada, apesar das licenças poéticas exageradas. Primeira vez que eu gostei de uma mocinha da Glória Perez: Juliana Paes fez muita gente chorar com sua Maya. E o Raj de Rodrigo Lombardi roubou a cena e a mocinha do esquecido Bahuan de Márcio Garcia.
05) "A lua me disse" (Miguel Falabella, 2005) - Miguel Falabella em boa forma, embora a novela não tenha sido aquele sucesso todo. Última novela das seis que assisti. Falabella é nosso Pedro Almodóvar com suas mulheres escandalosas e cheias de cores. Havia o homem travestido, a cantora de bar, a índia e as negras arrogantes. Nada politicamente correto. Arlete Salles era Ademilde, a mulher lutadora que havia sido abandonada pelo noivo e buscava um amor pela internet. Wagner Moura era o melhor mocinho de todos, com seu doce Gustavo. E Adriana Esteves era a mocinha destemida. Uma delícia de novela, ri demais.
04) "Paraíso Tropical" (Gilberto Braga, 2007) - A novela começou devagar, mas engrenou bem depois, caindo no gosto do público. Foi o ano de Wagner Moura. Além do herói Capitão Nascimento, ele arrebatou a mulherada com seu vilão deliciosamente canalha Olavo Novaes. Uma dupla inesquecível com a Bebel, de Camila Pitanga ("na minha cara está escrito: CAL-ÇA-DA!") roubou a cena da novela, que ainda contou com Alessandra Negrini, com suas gêmeas Paula e Thaís.
3) "Belíssima" (Silvio de Abreu, 2005) - O tema era a beleza e a tragédia. Tanto é que a novela, não por acaso, começa na Grécia. O mote condutor era a rivalidade entre a rica e malvada Bia Falcão (Fernanda Montenegro) e sua neta Vitória (Cláudia Abreu). O laço familiar que as unia só é descoberto nos últimos capitulos. Destaque também para o ambivalente André Santanna de Marcelo Antonny e para a família grega espalhafatosa que contava com Irene Ravache, Lima Duarte e Cláudia Raia. Primeiro papel cômico de Gianechinni, o Paschoal.
2) "Celebridade" (Gilberto Braga, 2003-2004) - A trama era inspirada no clássico filme "A Malvada". Dissimulada aspirante a atriz (Anne Baxter) toma o lugar de sua ídola no teatro (Bette Davis). Sai Anne Baxter, entra Claudia Abreu. Sai Bette Davis, entra Malu Mader. O fio condutor da novela é o sentimento tão universal da inveja. Claudia Abreu também roubou a cena de Malu, lindíssima como a produtora Maria Clara Diniz. Márcio Garcia segurou bem o papel de comparsa de Laura, o Michê. E como era irresistível o personagem Renato Mendes, de Fábio Assunção...
1) "A favorita" (João Emanuel Carneiro, 2008) - Que beijinho doce tinha Flora. Tanto que Patrícia Pillar enganou meio mundo como sendo mocinha da novela. Na verdade, a mocinha era a espalhafatosa Donatella de Cláudia Raia, que comeu o pão que o diabo amassou. João Emanuel inovou em muita coisa na elaboração do roteiro da "Favorita", primando pela coerência dos personagens. Mariana Ximenes, Cauã Reymond, Glória Menezes, Elizângela e impagável Ary Fontoura estavam ótimos. Isso sem contar a dupla de protagonistas. Flora foi a pior vilã de todas, pois odiava a própria filha, um tabu, mesmo entre vilãs de novela.
Concordam com a lista? Comentem aí! Há novelas boas de outras emissoras, mas como não as assisti, não posso opinar. Convenhamos que os últimos anos não foram os melhores da teledramaturgia.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Há um moreno na sua vida...
Que atire a primeira pedra a mulher que nunca foi a uma cartomante (ou ao menos sentiu-se tentada a ir). Desde os 15 já ouvimos falar de alguma "boa" que acerta tudo ("não tinha como ela saber, juro") e que geralmente mora numas quebradas, em alguns cantos da cidade que sequer imaginávamos existir. Além de ler cartas, algumas lêem a mão, são benzedeiras e ensinam simpatias. Mil e uma utilidades, portanto. Outras, dizem, falam sobre você mesmo que não esteja presente (é só levar uma peça de roupa, por exemplo). Algumas tem fila de espera ("só tem horário pra Agosto do ano que vem!") e Fulana de Tal vem do Cafundó do Judas para consultar com essas tais. Pois é, quem é que não quer saber do futuro?
No entanto, não precisa ir a uma delas para que ela, a vidente, saiba que você sofre de amor. Cartomante que é cartomante fala do triângulo amoroso. Ele vai largar de você para ficar com ela ou vai largar dela para ficar com você? Há sempre uma outra e ela tem inveja de você, cuidado. É que você tem "estrela", gera muita inveja mesmo.
No entanto, não precisa ir a uma delas para que ela, a vidente, saiba que você sofre de amor. Cartomante que é cartomante fala do triângulo amoroso. Ele vai largar de você para ficar com ela ou vai largar dela para ficar com você? Há sempre uma outra e ela tem inveja de você, cuidado. É que você tem "estrela", gera muita inveja mesmo. Uma carta vai chegar e vai haver uma festa. Há sempre um moreno ou um loiro, ou os dois. Um deles usa uniforme (tanto faz se de carteiro, médico ou militar). De qualquer forma, chegará um novo homem em sua vida, esqueça o do triângulo amoroso se ele te faz sofrer.
Brincando com essas inseguranças femininas e outras questões mais complexas, Woody Allen fez seu último filme ("Você vai conhecer o homem dos seus sonhos" - You Will Meet a Tall Dark Stranger). Extremamente irônico e cáustico, o diretor nos faz rir, às vezes de forma melancólica, de nós mesmos e deste mundo cão. Curiosamente, às vezes cartomantes são necessárias para que acreditemos, de fato, que nossa estrela vai brilhar. E que mesmo os mais realistas e céticos fazem-se enganar sem precisar delas.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
EDUCAÇÃO
"Você acha que ele está como você por conta de sua inteligência?" - pergunta alguém a Jenny (Carey Mulligan), a personagem central de "Educação"(2009). Taí uma pergunta que me instigou, entre tantas deste filme. Identifiquei-me, em certo aspecto com Jenny, a adolescente que queria ser adulta, ávida por cultura e novas experiências. Jenny é aluna de um colégio conservador na fria Inglaterra pré Beatles e Rolling Stones que se envolve com um homem com o dobro de sua idade.
A estética sessentinha (do início dos anos 60) é encantadora, assim como a trilha sonora. O roteiro foi escrito por Nick Hornby (Alta Fidelidade), um cara que já provou entender das inseguranças dos rapazes na faixa dos 30-40 e que se arriscou a escrever sobre uma menina adolescente. Na verdade, ele se baseou em um artigo auto-biográfico da jornalista Lynn Barber, e é bem difícil (pelo menos para mim) identificar o seu estilo no filme. No entanto, ele ajudou a escolher algumas músicas da trilha, outra de suas especialidades, vide a maravilha que é a coletânea de Alta Fidelidade, uma pequena obra prima.
Jenny é uma adolescente nerd que vive um dilema: o que escolher, a carreira na universidade de Oxford ou uma vida cheia de ousadias e novidades junto a um homem bem mais velho que ela? A estreante Carey Mulligan lembra (de longe) a doce Audrey Hepburn e já virou queridinha dos fashionistas com seus vestidinhos retrô.
O título que o filme teve na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi "Sedução". O título em inglês é "An education", mais próximo do título definitivo que ganhou no Brasil. Voltando a pergunta que dá início a este post, o longa questiona o quanto tem valor, de fato, a educação formal de uma mulher nos anos 60 e (por que não) hoje também .Jenny, ao que parece, acreditava que David, o charmoso trintão, gostava dela por ela ser culta, ouvir música francesa e ser especial. Seria isso, de fato? Ou o encanto estaria no fato dela ter apenas16 anos? Um filme com um enredo aparentemente simples mas que faz pensar. Sobre meninas, mulheres, relações, escolhas e renúncias.
A estética sessentinha (do início dos anos 60) é encantadora, assim como a trilha sonora. O roteiro foi escrito por Nick Hornby (Alta Fidelidade), um cara que já provou entender das inseguranças dos rapazes na faixa dos 30-40 e que se arriscou a escrever sobre uma menina adolescente. Na verdade, ele se baseou em um artigo auto-biográfico da jornalista Lynn Barber, e é bem difícil (pelo menos para mim) identificar o seu estilo no filme. No entanto, ele ajudou a escolher algumas músicas da trilha, outra de suas especialidades, vide a maravilha que é a coletânea de Alta Fidelidade, uma pequena obra prima.
Jenny é uma adolescente nerd que vive um dilema: o que escolher, a carreira na universidade de Oxford ou uma vida cheia de ousadias e novidades junto a um homem bem mais velho que ela? A estreante Carey Mulligan lembra (de longe) a doce Audrey Hepburn e já virou queridinha dos fashionistas com seus vestidinhos retrô.
O título que o filme teve na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi "Sedução". O título em inglês é "An education", mais próximo do título definitivo que ganhou no Brasil. Voltando a pergunta que dá início a este post, o longa questiona o quanto tem valor, de fato, a educação formal de uma mulher nos anos 60 e (por que não) hoje também .Jenny, ao que parece, acreditava que David, o charmoso trintão, gostava dela por ela ser culta, ouvir música francesa e ser especial. Seria isso, de fato? Ou o encanto estaria no fato dela ter apenas16 anos? Um filme com um enredo aparentemente simples mas que faz pensar. Sobre meninas, mulheres, relações, escolhas e renúncias.
domingo, 21 de novembro de 2010
Sobre o casamento de Danielle Winitts e outras histórias...
Lya Luft escreveu sobre o assunto na VEJA de hoje. Que assunto? O machismo, olha só. Algo que parece tão anos 50 e está aí, tão atual. Em conversa com um motorista de táxi, ela ouviu dele, um tanto quanto estupefata comentários de que existem mulheres para casar ("limpinhas", que cuidam dos filhos e colocam a comida na mesa na hora certa) e mulheres para se divertir (meninas bonitas, mais sexualizadas). Ouviu também que homem é homem, sabe como é. Precisam se divertir de vez em quando. Ou seja, a mulher "limpinha" em casa não basta.
Não precisa conversar com um taxista para ouvir coisas semelhantes. Já ouvi algo parecido de amigos bem bacanas. Na internet, muitas vezes uma terra de ninguém, sob a proteção do anonimato lê-se coisas bem menos abonadoras a respeito das mulheres. Todos os comentários querendo colocá-las no seu devido lugar (seja qual for ele).
Por exemplo: em um site destes, de fofoca, durante esta semana pipocou a notícia de que Danielle Winitts iria se casar com Jonatas Faro, bem mais jovem do que ela. Entre vários comentários revoltados, um deles pedia para que "essa senhora de idade se comportasse, pois mulheres velhas como ela deveriam se dar ao respeito e estar no bingo (!)". Outro, antecipava o fim próximo do namoro-casamento, pois afinal, ela tinha pago para o garoto estar com ela, pois era uma "baranga velha e rodada". Detalhe: Danielle Winitts tem 36 anos.
O fato de surgirem boatos a respeito da infidelidade da atriz com o primeiro marido (o modelo Cássio Reis) só agrava a ira e faz dela a Geni da vez. Vagabunda, joguem pedra nela. Como ousa gozar a vida, ainda mais com um cara mais jovem?
Sei lá, em tempos ditos tão mais democráticos, ainda me choca ler comentários deste tipo, do mesmo que fizeram de Geise Arruda no fatídico caso Uniban. Foi vaiada, ameaçada de estupro por um bando de estudantes? Ora essa, ela provocou, onde já se viu ir vestida daquele jeito na faculdade? Eliza Samudio foi assassinada cruelmente pelo goleiro Bruno e sua gangue. O próprio advogado do acusado se pronunciou: ora essa, quem ela era? Maria-chuteira, garota de programa, atriz pornô. Ué, merece ser assassinada por conta disso? Tem menos direito à vida do que uma freira, por exemplo?
Eu achava que o feminismo, 40 anos depois, era uma bandeira um tanto quanto antiquada e cafona nos dias de hoje. Estava errada. A mulher desejar e fazer do seu corpo e desejo o que bem entender ainda é uma afronta. Mulheres assim não são mulheres limpinhas com quem se casa e "se respeita". Danielle, Geise e Eliza não são mulheres que admiro, mas estão no seu direito de fazerem o que bem quiserem sem serem apedrejadas por isso. Pelo visto, muita gente discorda.
Não precisa conversar com um taxista para ouvir coisas semelhantes. Já ouvi algo parecido de amigos bem bacanas. Na internet, muitas vezes uma terra de ninguém, sob a proteção do anonimato lê-se coisas bem menos abonadoras a respeito das mulheres. Todos os comentários querendo colocá-las no seu devido lugar (seja qual for ele).
Por exemplo: em um site destes, de fofoca, durante esta semana pipocou a notícia de que Danielle Winitts iria se casar com Jonatas Faro, bem mais jovem do que ela. Entre vários comentários revoltados, um deles pedia para que "essa senhora de idade se comportasse, pois mulheres velhas como ela deveriam se dar ao respeito e estar no bingo (!)". Outro, antecipava o fim próximo do namoro-casamento, pois afinal, ela tinha pago para o garoto estar com ela, pois era uma "baranga velha e rodada". Detalhe: Danielle Winitts tem 36 anos.
O fato de surgirem boatos a respeito da infidelidade da atriz com o primeiro marido (o modelo Cássio Reis) só agrava a ira e faz dela a Geni da vez. Vagabunda, joguem pedra nela. Como ousa gozar a vida, ainda mais com um cara mais jovem?
Sei lá, em tempos ditos tão mais democráticos, ainda me choca ler comentários deste tipo, do mesmo que fizeram de Geise Arruda no fatídico caso Uniban. Foi vaiada, ameaçada de estupro por um bando de estudantes? Ora essa, ela provocou, onde já se viu ir vestida daquele jeito na faculdade? Eliza Samudio foi assassinada cruelmente pelo goleiro Bruno e sua gangue. O próprio advogado do acusado se pronunciou: ora essa, quem ela era? Maria-chuteira, garota de programa, atriz pornô. Ué, merece ser assassinada por conta disso? Tem menos direito à vida do que uma freira, por exemplo?
Eu achava que o feminismo, 40 anos depois, era uma bandeira um tanto quanto antiquada e cafona nos dias de hoje. Estava errada. A mulher desejar e fazer do seu corpo e desejo o que bem entender ainda é uma afronta. Mulheres assim não são mulheres limpinhas com quem se casa e "se respeita". Danielle, Geise e Eliza não são mulheres que admiro, mas estão no seu direito de fazerem o que bem quiserem sem serem apedrejadas por isso. Pelo visto, muita gente discorda.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Inconfesso Desejo
Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo
(Carlos Drummond de Andrade)
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo
(Carlos Drummond de Andrade)
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Vale Tudo, again.
Bóra eu falar novamente da dona Odete e cia. Meses atrás narrei um diálogo de "Vale Tudo" reproduzido por mim e um grande amigo em um restaurante (loucos). Como se não bastasse a tamanha loucura e saudosismo nossos, eis que a novela retorna em reprise (Canal Viva) e vira febre novamente, com os gritos de Raquel Acioly, as bebedeiras de Heleninha e a franja de Solange Duprat. E, é claro, as frases politicamente incorretas de Odete Roitman.
Gilberto Braga, para quem lê este humilde blog, é recorrente em minhas recordações saudosistas. Esqueça os fúteis do Leblon de Manoel Carlos, pois é Gilberto Braga que retrata melhor o que há de mais cáustico e podre entre os ricos cariocas. Seus mocinhos são enfadonhos, mas os vilões são os melhores. Haja visto a própria Odete, Felipe Barreto, Renato Mendes, Laura Prudente da Costa e Olavo Novaes. Seus vilões tinham humor.Voltando a Vale Tudo, novela de 1988/89, algumas coisas continuam bem atuais, mas muito envelheceu. Não sei se é por conta das imagens antigas, mas algumas cenas estão muito escuras. Tudo era mais pobre, até a casa dos ricos não tinha tanto luxo como hoje. A corrupção continua uma praga que corrói o país, mas o desemprego, o horror dos anos 80, não está mais tão assustador. A classe C e D pode comprar mais e ter acesso a bens de consumo inimagináveis naqueles tempos. Além disso, viagens internacionais que eram quase inacessíveis naquela época, estão bem mais próximas da classe média. Isso tudo, fruto de uma economia estável, algo que era bem distante da realidade em 88. Um luxo, para o rapaz rico (Tiago, filho de Marco Aurélio) era ter uma extensão telefônica no quarto, além de uma televisão. Eram tempos sem computador e celular. Ah, e um grande presente era dar um disco de vinil.
Alguns golpes da vilãzinha Maria de Fátima não seriam necessários.O golpe da simulação de incêndio na revista Tomorrow para roubar a agenda de Solange, por exemplo. Ela queria apenas o nome do cabeleireiro de uma atriz famosa. Hoje é fácil saber disso pelas revistas, pois os próprios "hair stylist" são celebridades. O mundo todo mudou e é globalizado.
Pessoalmente, minha posição também é outra em relação à novela. Para mim, na época, Raquel, a mãe de Fátima, era uma senhora. Hoje, vejo Regina Duarte quase como uma menina, muito jovem, pois estou mais próxima da idade dela na época (40) do que a idade de Glória Pires (25, uma garota). Em 1988, eu estava no início da adolescência, sonhando com a viagem de formatura. Tenho todo este ano registrado em diário e a impressão é de que foi ontem que eu tinha um abrigo colorido da Benetton, parecido com o de Flávia Monteiro. Assistindo, hoje, à novela, vejo que não foi. Já faz 22 anos. Uma verdadeira viagem no tempo.
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