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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Repetição

"It's repetition,
I'm coming back to you.
Repetition,
The only thing I can do. "


 ("Repetition", Information Society)


Bill Murray no já clássico "O feitiço do tempo" (1993)

Há um filme emblemático (bastante citado por psicanalistas e também já citado por aqui) que se chama "O feitiço do tempo" (Groundhog Day). Nele, Phill Connors (Bill Murray), um jornalista renomado, um "astro", é obrigado a cobrir "o dia da marmota" (o título do filme, em inglês) em uma cidade pequena do interior, cheia de "caipiras". Contava a lenda que se a marmota (um roedor) saísse de sua toca e olhasse para a própria sombra, o inverno continuaria por muito tempo. Phill acaba fazendo o seu trabalho com imenso pouco caso, esperando ansiosamente para sair dali. Eis que uma nevasca impede sua saída da cidade naquele dia e ele é obrigado a dormir lá. Quando acorda, a surpresa. Ele não está somente preso na cidade que abomina, mas no "pior dia de sua vida". O filme narra as tentativas de Phill para quebrar o feitiço e seus vários posicionamentos diante da repetição. Pergunta Phill: "Mas eu não poderia estar repetindo um dos melhores dias da minha vida? Por que, justamente, o pior deles?"

A (tragi)comédia de Phill Connors, afinal, faz pensar em nossa própria vida.Quantas vezes, especialmente em nossas relações afetivas, nos vemos incorrendo em "reprises"? O filme é antigo, eu não gostei, e cá estou eu sendo o protagonista do velho enredo novamente. Novamente sendo abandonado (a), novamente investindo em relações à distância, novamente "impelido" a destratar quem me ama. Os objetos de amor (ou desamor) são completamente distintos, mas os enredos, ah, os enredos, são bastante similares.

No filme, Phill Connors tenta de todas as formas sair de seu dia ruim: promete casamento, insulta pessoas, tenta até se matar. Depois, tudo continua como se nada tivesse acontecido, nenhuma consequência e o dia ruim começa outra vez. A saída da repetição se dá quando ele se angustia e implica-se nela. "O que, afinal tenho a ver com isso tudo?". Phill consegue quebrar o feitiço, quando, finalmente, consegue se reinventar. Ele quebra sua sina fazendo uso da criatividade e da arte e, por meio desta expressão criativa, pode, enfim, viver o amor.

Em nossa vida, a procura por uma psicanálise se dá justamente quando aquela estorinha que fez, de alguma forma, sentido durante toda a vida, não cola mais. Dá-se, entre outras coisas, quando a repetição torna-se incômoda. Não é destino, não é maldição, não é sina. O que seria, afinal, este algo que me impele a repetir "o mesmo dia"? E, muitas vezes, o mesmo "dia ruim"?


Tal como um livro ou um filme que é assistido várias vezes, também a vida pode ganhar novos sentidos a cada "reprise". Parece a mesma coisa, mas é outra, porque eu estou diferente.Parece a mesma coisa, mas é outra, porque não estou vendo pela primeira vez. Se tudo se parece com uma sucessão de reprises de mal gosto, há algo a se questionar. A vida, afinal, não precisa ser como aquela música grudenta dos anos 80 (e que inicia o post): repetição não é a única coisa que podemos fazer.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

E um feliz Ano Novo...

Há alguns anos, um amigo ortopedista comentou, apreensivo, que iria dar plantões no Natal e Ano Novo. "É a pior época" - ele disse. "Muitos acidentes violentos, muitas mortes, muitos traumas". Psiquiatras também se preocupam aos finais de ano. Invariavelmente, os consultórios lotam em Novembro e Dezembro; é preciso abrir horários extras e encaminhar pacientes. Aí, é de outro trauma que se fala. Dores adormecidas costumam ser atualizadas em Dezembro. Amores que se foram, pessoas queridas que não estão mais presentes, dinheiro curto em uma época que são estimuladas as compras desenfreadas, além da convivência, muitas vezes nada harmônica, com dramas familiares não elaborados. Aí em  Janeiro, após o "mágico" dia primeiro, contabiliza-se mortos e feridos e dá-se início a uma nova empreitada.



" (...)que por decreto de esperança,
 a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver (...)


É hora de citar Drummond e acreditar que um caderno novo, com folhas em branco, se abre. E aí lotam as academias e os consultórios dentários. Resoluções de ano novo sempre incluem parar de fumar, entrar em forma e ir ao dentista, entre outras tantas coisas. Que mantêm-se até a página dois.
 
Esperam-se e planejam-se mudanças radicais sempre que um ano começa. "Desta vez, será diferente", pensamos. Não costumamos nos perguntar: "por que foi tão repetitivo até então?" Por que, afinal, pago a academia e não vou? Por que reclamo do meu trabalho e continuo nele? Por que me mantenho em uma relação que me faz tão infeliz? O que, afinal, desejamos? Sabemos mesmo? Queremos renunciar a um modo de ser ou continuar agindo exatamente da mesma maneira?
 
O velho tio Freud já falara da força, por vezes, mortífera, da repetição. Entender e re-significar o enredo repetitivo do filme de nossas vidas ajudaria a escrever uma nova história. Isso só não basta, é claro, mas é um caminho.
 
Bem, uma vez que há o ritual do recomeço, que possamos encarar 2013 como uma oportunidade. Se não é possível fazer a tal "guinada", que estejamos mais em paz com nossos próprios desejos, muitas vezes tão misteriosos. Feliz ano novo. Que o façamos NOVO à nossa maneira.