sexta-feira, 20 de março de 2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

Faltam palavras para descrever...

"E nem falamos sobre o livro...", questionou Maitê Proença a um encantado Roberto D´Avila, ao fim de uma entrevista recente. "O livro é interessante, mas você é mais", respondeu ele, prontamente. Não li "Todos os vícios", a última obra de ficção de Maitê, mas acredito nas palavras do jornalista. Maitê é um daqueles personagens que não cabem em um filme de duas horas, ou em qualquer livro de 200, 300, 400 páginas. Assim como Tim Maia, personagem da principal polêmica televisiva deste ano que acabou de começar. O filme mediano sobre o cantor, lançado em 2014 nos cinemas, foi transformado em uma espécie de "docudrama" pela Globo e exibido agora, nos primeiros dias de 2015. Se Maitê não cabe em uma obra de ficção, muito menos o hiperbólico Tim Maia. Houve questionamentos por parte da família, dos fãs e do cineasta Mauro Lima, que teve toda a sua obra recortada pela Globo. Roberto Carlos, contratado da emissora, foi claramente protegido. "Vilão" e algoz de Tim na versão exibida nos cinemas, transformou-se naquele cara bacana que lançou o cantor, pela versão televisiva. Polêmicas à parte, Maitê e Tim Maia me fizeram pensar sobre a vida real e ficção. A bem da verdade, é meio óbvio que narrativas nunca darão conta da riqueza de uma vida. E sempre, sempre serão versões. Muitas vezes, bem pífias.

Olhando para um passado próximo, 2014 foi um daqueles anos surpreendentes impossíveis de prever. Teve Copa do Mundo, mas teve também o inesquecível 7 x 1 . Perdemos o "palhaço" Robin Williams de forma melancólica. O pacato Eduardo Coutinho, que  muitas vezes mostrou o quão extraordinária pode ser a vida de gente comum, morreu em circunstâncias cinematográficas. José Wilker e Eduardo Campos foram embora sem qualquer aviso prévio. E teve uma corrida presidencial brasileira, a mais emocionante (e irritante) dos últimos tempos. Como narrar um ano destes? Quem queria ser mãe e teve, enfim, o primeiro filho, pode contar de uma maneira. Quem perdeu alguém querido, de outra. E Dilma, Aécio, Marina e Felipão, de outras ainda. Felipão, especialmente, que viu um jogo que ninguém viu. As estórias e a História (também, por que não?) depende de quem conta.




E o Tempo, ah, esse danado... Ele dá outra cor para as estórias todas. Pode tornar uma lembrança melhor, pior ou insignificante conforme ele passa. Transforma sapos em príncipes, e príncipes em sapos. Torna grandes tragédias comédias esquecíveis; perdoa incompreendidos, santifica os mortos. O tempo modifica as versões que temos sobre os fatos (históricos ou não) e também sobre nós mesmos. Afinal, nem era tão feia e rejeitada assim, não fui tão fracassado, não estava tão gordo, gostava mesmo dela, tinha talento... Era feliz e não sabia!

E foi assim que Tim Maia e Maitê Proença me inspiraram a desejar um feliz ano novo. Que 2015 traga novas (e deliciosas) versões sobre a vida. Que possamos perdoar mais (nós e os outros) e que possamos construir nossas pequenas ficções cotidianas da melhor forma possível. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Qualquer semelhança...

Em 1988, Gilberto Braga criou uma personagem icônica que, entre os noveleiros, até hoje dá o que falar. Interpretada por Beatriz Segall, a vilã Odete Roitman marcou uma época.Era o final dos anos 80 e vivíamos tempos de abertura política após um longo período ditatorial. Os índices de desemprego preocupavam e a inflação, plano econômico após plano econômico, era galopante. A desigualdade social, que até hoje marca a população brasileira, era abissal. Odete Roitman era a encarnação do rico arrogante, que desprezava os hábitos brasileiros e tinha horror a pobres e nordestinos ("não quero ouvir sotaque de outros estados perto de mim" - disse ela em uma de suas primeiras falas, que tornou-se clássica). Lembrei da lendária Odete ao ler, repetidas vezes, comentários preconceituosos e elitistas no facebook, por ocasião das eleições. Engraçadas ao serem proferidas por uma personagem carismática de novela, frases muito parecidas, quase trinta anos depois, ditas por amigos seus, chegam a assustar. Beatriz Segall chegou a declarar, na época de Vale Tudo, que não queria uma personagem caricata, ela queria que Odete Roitman fosse uma personagem crível, que você pudesse encontrar  entre pessoas do seu convívio. Tanto tempo depois, vejo o quanto ela tinha razão. Não há nada de ficção na dona Odete que ela interpretou, com perfeição.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Como uma sessão de terapia...


Será que eu virei uma acumuladora daquelas dos programas do Discovery Channel? O que  é esse mundaréu de jornais velhos? E estes textos do segundo ano de faculdade, esses livros de Estatística, os questionários de entrevistas da dissertação de mestrado, a agenda-diário de 1988? Devo jogar tudo? Sim, TUDO. Menos os questionários. Ah, mas já se foram dez anos, o que vou fazer com esses questionários? A agenda não jogo. Tá lá registrado o primeiro amor. Bela coisa, para que vou precisar de uma agenda da Pakalolo? Vai para o lixo, sem dó, nem piedade. Perigoso até atrair baratas essa velharia toda. Lixo, lixo.

E esse livro do Jung? Quando é que eu fui junguiana? Mas o livro é bonito, por isso eu guardei. Jogo? Não, vou vender. Melhor, vou doar. Isso, vou doar. Junto com o livro do Victor Frankl que eu nunca li. Logoterapia? O que é isso mesmo? Não custa abrir e dar uma lidinha. Letra pequena, estou precisando usar óculos, não vou ler nada agora. Vai para a caixa de doações. Lair Ribeiro, sério que eu comprei isso? E o livro da Bridget Jones antes de virar filme? Ah, mas aquele dos "homens são de Marte" tenho certeza de que ganhei, não é possível. Vai para o lixo junto com aquele das "mil mulheres que você vai ser antes dos 35". E este com a famigerada dedicatória, guardo? Livro tão bom, para que tinha que  lembrar desta letra agora? Ignore a dedicatória. É cafona e tem erros de português. Aliás, guarde pela dedicatória. Ninguém mais escreve isso. Peça de museu.

Três caixas cheias de cartas. CARTAS. E bilhetes dos tempos de faculdade. E do colégio. E da QUARTA SÉRIE. Amiga, sério, você tem problemas.Vai ter coragem de jogar tudo? Sim, jogue, desocupe espaço.

Uma Barbie de paetês, outra de casaco de pele e cabelo estragado. Uma Susi noiva. Um urso da Disney. Um rei Leão. Fotos, fotos, fotos. E esta fotita que eu tinha pavor? Até que era bonitinha. Pura sobrancelha e bochechas. O tempo relativiza tudo. Bonitinha. Nossa, uma foto de ex-namorado. Outra foto de ex. E outra! Jogo? Não.

Será que esse sofá vai ficar bom na casa nova? E essa poltrona da vó, combina com a sala? E esse tapete surrado, que eu amo, vai? Não sei, acho que sim. Difícil, muito difícil.

Mudanças de casa, vejam só, implicam em enfrentar dilemas. Grandes. Pequenos. Afinal, o que levo comigo? O que deixo ir? Mania boba de achar que aquele casaco velho ainda tem uso ou que ainda tem perfume naquele frasco. Não tem, venceu. Acabou. Aquela blusa antiguinha bordada com muito orgulho até que ficou bonita, mas tem coisa que não recicla, não adianta enfeitar. E ainda ocupam espaço demais. O bom MESMO é que existem outras coisas que harmonizam perfeitamente com o novo ambiente. E essas podem ficar. Aliás, devem.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Ainda bem, ainda bem...

(...) O meu coração
Já estava aposentado
Sem nenhuma ilusão
Tinha sido maltratado
Tudo se transformou
Agora VOCÊ chegou
VOCÊ que me faz feliz
VOCÊ que me faz cantar
Assim (...)


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Eternamente responsável... Ou não.

Ao longo da minha vida, ganhei de presente duas edições diferentes de "O pequeno príncipe", de Antoine de Saint Exupèry. Nunca li o livro inteiro. Sempre houve um certo preconceito, confesso. Do alto da minha arrogância pseudo-intelectual, achava um livro menor, "literatura de miss", fofo demais. Aliás, tudo que é fofo em demasia me afasta em primeira instância: a cor rosa, ursinhos, o livro da Pollyanna (alguém lembra?), comédias românticas, Amélie Poulain. Depois, posso até gostar, mas a primeira reação nunca é boa. Ainda tenho horror às comédias românticas e aos livros da Pollyanna, mas tolero o rosa, e já chorei cântaros com a doce Amélie. Ursinhos eu dispenso. Já passei da idade.


Pequeno Príncipe dando a real

Voltando ao Pequeno Príncipe, o capítulo da raposa e da famigerada (e popular) frase "Tu te tornas ETERNAMENTE responsável por aquilo que cativas" sempre me causou calafrios. Achava a raposa uma carente perigosa, quase uma psicopata. Fazia lembrar Kathy Bates naquele filme horroroso "Obsessão Cega", além de outras personagens malucas de filmes similares. 

Medo eterno de Kathy Bates

Exagero, claro. Mas ETERNAMENTE sempre pareceu tempo demais. Tantas vezes cativa-se sem perceber. Relacionamentos acabam, amizades se esgotam, amores terminam. Uma das partes, fatalmente, pode sofrer mais. Até que ponto a parte que saiu bem da estória toda é responsável por essa dor do outro? Pouco responsável? Muito responsável? Depende tanto, de tantas coisas, de tantos fatores. 

Ressalvas à parte, há um trecho bonito (entre outros) na fala da Raposa para o principezinho. É o que transcrevo a seguir:

"E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo... "

Hoje, se nos deixarmos cativar, é só substituir o "cabelo de ouro" do Pequeno Principe:

"Eu não bebo vinho. O vinho para mim é inútil. Cabernet Sauvignon e Malbec não me lembram coisa alguma. (...) Mas tu bebes vinho como ninguém. (...) Vinhos chilenos e argentinos farão lembrar-me de ti. E eu amarei o cheiro do vinho..."

"Eu odeio música sertaneja. Eu nem sei quem são Jorge e Matheus (...) Mas tu sabes todas as músicas deles decor (...) Ouvirei "Amo noite e dia" e lembrarei de ti. E eu amarei sertanejo universitário..."

"Eu só assisto filme americano dublado. Sabe-se lá quem foi Truffaut e Fellini (...) Mas tu adoras cinema europeu (...). Assistirei "La dolce vita" e lembrarei de ti. E eu amarei filmes sem entender o final..."

Mas diz ainda a raposa para o Pequeno Príncipe:

"Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que a fez tão importante(...)"

Eu diria, então, se pudesse interferir na conversa: "Se algo bom ficou, caro principe, nunca é tempo perdido. Ainda que tua rosa vá embora, nunca será tempo perdido. Há que se tomar cuidado com os sentimentos das pessoas, mas você não é eternamente responsável pela rosa, nem por ninguém". E, fazendo agora um parentêses pessoal: Willy e Cláudia, meus sensíveis amigos, "O pequeno príncipe"  que era, para mim, um livro inútil, que não me lembrava nada, nunca mais será como tantos outros livros fofos. Pois me lembrarei de vocês. Sempre. :-)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O que a psicanálise ensina sobre o amor

Na falta de inspiração maior para o blog, reproduzo aqui um trecho de uma entrevista interessante do psicanalista Jacques Allain Miller. No trecho em questão, ele discorre sobre a característica feminina do amor:


Psychologies: “Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso…
Jacques-Alain Miller: Acertou! “Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.
 Psychologies: Amar seria mais difícil para os homens?
Jacques-Alain Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a “degradação da vida amorosa” no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.
 Psychologies: E nas mulheres?
Jacques-Alain Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem…
 Psychologies: Por que “cada vez mais”?
Jacques-Alain Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.

Entrevista com Jacques-Alain Miller, publicada na Psychologies Magazine de outubro 2008 (n° 278).