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sexta-feira, 25 de julho de 2014

O que a psicanálise ensina sobre o amor

Na falta de inspiração maior para o blog, reproduzo aqui um trecho de uma entrevista interessante do psicanalista Jacques Allain Miller. No trecho em questão, ele discorre sobre a característica feminina do amor:


Psychologies: “Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso…
Jacques-Alain Miller: Acertou! “Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.
 Psychologies: Amar seria mais difícil para os homens?
Jacques-Alain Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a “degradação da vida amorosa” no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.
 Psychologies: E nas mulheres?
Jacques-Alain Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem…
 Psychologies: Por que “cada vez mais”?
Jacques-Alain Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.

Entrevista com Jacques-Alain Miller, publicada na Psychologies Magazine de outubro 2008 (n° 278).

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O amor da vida


 "Você está sozinha porque não encontrou O HOMEM DA SUA VIDA", costumamos ouvir. Ah, o amor romântico, sempre a nos pregar peças. Como se existisse um único, como se existisse o "predestinado". A tampa da panela. A tal da alma gêmea, metade da laranja, sonho lindo de se ver. Embora exista, sim, é claro, aquela pessoa que resultou naquele ENCONTRO especial, sempre achei mais realista pensar em "homens da vida". Amores. O amor platônico adolescente. O primeiro de todos. O companheiraço. O fofo. O canalha que foi, na verdade, uma escola de malandragem e de vida. E o homem que, do mesmo jeito que surgiu, sumiu, mas que teve uma função importante: a de te fazer esquecer do canalha. Andei pensando muito nesta idéia do "amor único, o verdadeiro" ao ler um livro especialmente marcante neste final de 2013: "A casa das belas adormecidas", de Yasunari Kawabata. Nele, um homem de 67 anos relembra as mulheres que passaram por sua vida ao entrar em contato com moças jovens, adormecidas em sono profundo.




A casa das belas adormecidas é, na verdade, uma espécie de bordel que atende homens em idade avançada. Os homens deitam-se com as moças nuas, mas não é permitido que se tenha relações sexuais com elas.Todas estão profundamente adormecidas e os clientes são orientados a deixar os aposentos antes que elas despertem. Aos clientes, são oferecidas sempre moças diferentes a cada vez. Nunca é a mesma.

Eguchi, o protagonista do romance, vai, aos poucos, habituando-se às regras daquele estranho local. Não há diálogo possível com as moças. No entanto, elas dormem, sussurram, mexem-se na cama, mordem os lábios, falam coisas incompreensíveis sob efeito de algum forte sonífero. Algumas parecem mais jovens, quase meninas, com poucas curvas. Outras são mais opulentas, curvilíneas, com seios grandes. Nas associações de Eguchi, ele vai atribuindo sentidos aos sussurros das moças, ao cheiro exalado por elas, à textura da pele, à vida pregressa das mesmas. Nestas associações, ele também vai se lembrando de mulheres importantes de sua vida. Sua mulher, uma prostituta, as filhas, uma forte paixão. Assim sendo, os encontros extremamente sensoriais com as moças desconhecidas permitem a atualização de vivências passadas importantes.

O livro é de um erotismo comovente.Trata de temas como a velhice, a eminência da morte e a sexualidade com imensa delicadeza. O autor, provavelmente, não pensou em psicanálise quando o escreveu, mas o enredo do livro flerta com ela o tempo todo.A velha questão: a cada encontro, o que há, de fato, da pessoa que está lá, e o que há de nós mesmos ali? Eguchi não sabia nada de nenhuma das moças e, no entanto, as preenchia de todos os sentidos possíveis. E, tal como o velho Eguchi, também nós fazemos isso o tempo todo. Em algumas, damos o nome de amor.