domingo, 21 de julho de 2013

No divã do facebook




Não é de hoje que o facebook se transformou em um imenso divã. Queixa-se, chora-se, defende-se o time do coração, lamenta-se pelo amor perdido, reclama-se do chefe, instauram-se suspenses. Adicionam-se. Bloqueiam-se. Naquele espaço virtual, somos todos um pouco pacientes, um pouco terapeutas de botequim. Analisam-se não só os conteúdos, mas os silêncios. Se postou, é porque postou. Se não postou, o que houve? A pergunta é: até que ponto se expor? Se a comunicação face a face já é falha, imagine só no espaço virtual, NO face. Que atire a primeira pedra quem nunca citou Clarice Lispector ou quem nunca cometeu um dos pecados abaixo:

- As Indiretas - você é eternamente responsável por aquilo que posta, mas não por aquilo que entendem. Indiretas são complicadas porque você pode atirar naquilo que viu e acertar no que não viu. Não é mais fácil mandar uma mensagem inbox? Não. Indireta legítima deixa pública a sua insatisfação com alguém e pode ganhar solidariedade e aplauso de outras pessoas. Geralmente a indireta fala de invejosos, que são sempre os outros. De gente competitiva, que são sempre os outros. De uma pessoa que sumiu, "mas que ainda vai dar valor, mas aí você não vai querer mais". De uma pessoa que você quer dar um toco público. Seja como for, as indiretas ainda fazem a festa no facebook.

- As Diretas - são as mais complicadas, mas menos comuns. Dão o nome, às vezes marcam o nome e sobrenome. A verdadeira lavação de roupa suja na praça pública do face. E aí um monte de gente pode se meter. Ou silenciar, o que pode ser ainda mais constrangedor.

- As frases de suspense - Costumam ser uma prerrogativa feminina, mas já vi homens e mulheres fazerem uso das famosas reticências. Pode ser um simples: "Triste..." Ou ainda: "E quando você imaginava que nada mais pudesse acontecer..." As reticências podem estar ausentes, mas o suspense, sempre, ele fica no ar. O suspense pode ter um efeito imenso, especialmente se a pessoa não costuma fazer uso dele. Pode dar a entender algo bom, ou algo ruim. A intenção pode ser variada, mas geralmente causa curiosidade. Perguntas como "mas o que aconteceu, amiga?" são muito comuns após a famigerada frase enigmática.

- As afirmativas - Frases que dizem que você vai reagir, que você é forte, que é positiva (o), que nada lhe abate. Que você briga, que pode, faz e acontece. E que amanhã é outro dia. São as frases do tipo "Vaiesedermedovaicommedomesmo".

- As confessionais - Geralmente, trazem uma história de vida. Não é uma simples frase, mas uma narrativa. Pode ser uma lamentação. Pode ser uma homenagem. Podem ser comoventes de ler. Podem ser um saco. 

Talvez não seja fácil delimitar o quanto uma exposição da vida privada em uma rede social seja "saudável" ou não. Cada um administra sua conta no facebook como quiser, seja no que escolhe contar, seja no que escolhe ler. Que pode ser um imenso espaço catártico? É claro que pode. Nunca se viu tantos adultos carentes de atenção em um só espaço. O grande problema, talvez, sejam os ruídos de comunicação, que são inúmeros, o que pode trazer uma imensa confusão. E às vezes, como diria o velho Freud, um charuto é só um charuto. Uma música de fossa é só uma música de fossa. Uma frase do Guimarães Rosa é só uma frase de Guimarães Rosa. Uma curtida em uma foto é só uma curtida em uma foto. Nenhum sentido oculto por trás. Nenhum.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Beijo


Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

(Mia Couto, no livro "Tradutor de chuvas")

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão...

Ela tinha noventa anos e ainda conservava o que havia sido uma de suas marcas registradas: o senso de humor. Minha avó Alzira não costumava levar as coisas a sério; nem ela mesma, nem a velhice, nem a morte. Os olhos azuis miúdos mantinham a leveza dos vinte anos e, por isso mesmo, era comum olharmos para ela como uma menina. Eram estes olhos que gostavam de contemplar o que era belo, fosse um vestido, uma casa ou mesmo um rapaz. Namorar, para ela, era das coisas mais importantes da existência. Na última vez que a vi, é claro que ela me perguntou dos namorados. E contou que havia comprado uma bolsa nova (e bonita). E mostrou o álbum de fotos dos irmãos e dos netos (todos "lindos"). E fez tudo isso outra vez, e outra e outra. No entanto, chamou-me pelo nome: ela sabia que eu era a "Lê". Minha avó ainda estava ali.

Há algumas semanas, no entanto, ela começou a ir embora. Raramente abria os olhos e estava angustiada, ela que passou a vida sem conhecer a angústia. Não reconhecia as pessoas, chorava, não conseguia dormir. Eu hesitei em ir vê-la. Queria lembrar dela me mostrando a bolsa nova. Em pura negação, eu pedi a minha mãe: "Quando ela voltar a reconhecer as pessoas, você me avisa?". E minha mãe, como quem fala com uma criança: "Filha, sua avó mal consegue abrir os olhos...."
 
Dona Alzira morreu, de fato, na semana passada. Já tinha partido antes, mas sempre havia uma esperança de melhora, de que ela voltasse a ser o que era, que voltasse a gargalhar, mesmo que os dados de realidade apontassem justamente o contrário. A morte de minha avó fez com que eu pensasse em outras mortes, pequenas delas que vivemos em vida e de como é difícil lidarmos com elas. Amizades que fizeram sentido em uma época, mas que agonizam, empregos que sobrevivem respirando "com ajuda de aparelhos", relações amorosas que se alimentam da nostalgia de um tempo "bom" que passou. Até quando manter a vela "acesa"? Quando é hora de apagá-la? Enquanto houver esperança de "cura", o luto não se faz.
 
Quando somos crianças, os personagens de desenhos animados explodem com dinamites, mudam de forma e cor, caem de precipícios, mas reaparecem sãos, salvos e inteiros, como se nada tivesse acontecido. Cedo aprendemos (e devemos aprender) que na vida adulta não é assim, embora haja esta dificuldade toda de resignação. Algumas coisas são irreversíveis. Vasos quebrados às vezes não colam, pessoas queridas vão embora e não voltam. Tão simples e tão comum, mas tão difícil. Resta a saudade, esta coisa doída que afinal pode ser uma coisa boa.  E eu já tenho saudade (muita) da alegria infantil da minha avó.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Apostas

"A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio" (Carlos Drummond de Andrade)


Foi em Novembro do ano passado. Estava a caminho do trabalho como de hábito, quando meu carro parou. Falta de gasolina, constatei, um motivo besta e vergonhoso. Era uma rodovia e faltavam alguns quilômetros para que eu chegasse ao posto de combustível mais próximo. Sol a pino, salto sete. Quem mandou ser distraída? Ninguém parava para ajudar. Eis que um rapaz de bicicleta me aborda. Rapaz, na verdade que deveria ter uns trinta anos, com corpo e cara de cinquenta. Imediatamente me encolhi, como é meu costume. Percebi que havia lido a oferta de ajuda como um perigo e não como uma salvação para a situação ridícula em que me encontrava. "Ajuda, moça?" - ele insistiu. Eu ensaiei um sim. Ele disse que poderia buscar gasolina no posto mais próximo se eu quisesse. Precisava somente de um dinheiro para a gasolina, nada além. Peguei vinte reais na carteira enquanto vivia um pequeno dilema. O conflito valia vinte reais, mas talvez bem mais que isso. Aquele desconhecido iria pedalando debaixo de um calor senegalês para buscar gasolina, ou iria embora com o dinheiro? Fiz, internamente, a aposta. Sim, ele iria me ajudar. Aí, enfim, dei os vinte reais e resolvi aguardar. Critérios subjetivos me guiavam. Os olhos dele. Eram olhos bons, pensei. Mas quem vê olhos, vê coração?

Recentemente, quando a novela "Caminho das Índias" estava no ar, Glória Perez quis abordar o tema "psicopatia" através do personagem Irene, de Letícia Sabatella. Ao mesmo tempo, pipocavam reportagens na internet e em revistas dizendo "que o psicopata pode estar ao seu lado" e "como identificar se (seu namorado, colega de trabalho, etc) é um psicopata". Foi uma verdadeira "epidemia de psicopatas". Como se a paranóia já não existisse em algum grau. Maus e invejosos são sempre os outros, basta observar em muitas das frases postadas no facebook.

Uma amiga querida costuma dizer que a maioria das pessoas é digna de confiança até que se prove o contrário. Sair por aí esbravejando que o mundo é cruel e que as pessoas, em sua maioria, são más é algo um tanto quanto surreal para ela. Desilusões amorosas e intriguinhas de amigos fazem parte da vida. Equívocos entre pessoas que se gostam, falhas de comunicação, fofocas? Acontecem. Assim como quando muitas pessoas mentem quando estão seduzindo e tentando conquistar alguém. Mentiras no ritual de conquista fazem parte da mise en scène e não necessariamente tornam alguém um monstro. Mesmo porque mentiras sinceras às vezes interessam. FATO.

Mas e aí, onde está a maldade? É claro que há pessoas ruins que gozam com o sofrimento alheio. Há inveja daquela pérfida (que não a "invejinha" do cabelo da amiga), há traição de confiança em sua forma mais hedionda, há pessoas que QUEIMAM outras, literalmente. E aí, se você não sabe muito bem quem é o outro, você aposta em quê? Que ele vai te queimar?

Penso que se não apostamos que algo será bom (ou que alguém tem boas intenções), não fazemos nada, não há movimento, mas paralisia. Não saímos de casa em uma cidade grande, não iniciamos um relacionamento, não mudamos de emprego, não estudamos para o vestibular. Há apostas de alto risco, assim como apostas de baixo risco. Podemos apostar tudo, podemos apostar um pouquinho. Há pessoas que apostam a vida. Há pessoas que não conseguem mais apostar. Em Novembro do ano passado, em meio a outras tantas apostas, eu apostei vinte reais. Aquele "rapaz velho" me trouxe a gasolina e eu cheguei a tempo no trabalho. Ele estava desempregado há meses, mas não quis nada em agradecimento. Se ele tinha, de fato, olhos bons ou se era o meu desejo de que ele tivesse o tal "bom coração", eu não sei.


 PS: Tá parecendo post de auto-ajuda, mas vou postar mesmo assim. Paulo Coelho feelings ;-)


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Adoro um amor...inventado?

"O amor é uma crença emocional e, como toda crença, pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida. O amor foi inventado como o fogo, a roda, o casamento, a medicina, o fabrico do pão, a arte erótica chinesa, o computador, o cuidado com o próximo, as heresias, a democracia, o nazismo, os deuses, as diversas imagens do universo. Nenhum de seus constituintes afetivos, cognitivos, ou conativos é fixo por natureza." (Jurandir Freire Costa)


As maiores estórias de amor são sobre desencontros, eu li uma vez. De "Romeu e Julieta", passando por "Casablanca" e "As pontes de Madison", ninguém resiste ao drama de um casal que se separa no auge da paixão (por morte, por impossibilidade, pela guerra, por neurose, whatever). O romance impossibilitado torna-se, na promessa do que não foi, encantado. Em lembranças, torna-se a própria representação da felicidade perdida.  Ah, se eu estivesse com ele (ela), aí sim eu seria feliz. Será? "Antes da meia noite", último filme da trilogia dirigida por Richard Linklater e estrelada por Julie Delpy e Ethan Hawke, faz troça do amor romântico, brincando com a promessa do casal perfeito.

O casalzinho "fofo" de "Antes do Amanhecer"
O primeiro filme "Antes do Amanhecer" (de 1994) conta o encontro (e desencontro) do jovem casal em um trem na Europa. Ambos têm vinte e poucos anos e resolvem passar o dia todo em Viena, descobrindo a cidade e trocando idéias sobre a vida. Apaixonam-se, mas se separam, combinando de se reencontrarem seis meses depois. Ela, Celine, não aparece. Ele, Jesse, escreve um livro sobre o mágico encontro dos dois em Viena. No segundo filme, "Antes do pôr do sol" (de 2004), Jesse lança o livro e Celine vai, enfim, encontrá-lo. Em Paris, eles  passeiam pela cidade e contam um para o outro o que fizeram ao longo dos anos em que ficaram separados. No fim do filme, o suspense: eles, enfim, ficariam juntos? A resposta vem com o último filme, lançado agora: sim, eles se casaram e tiveram duas filhas gêmeas. E Jesse não resiste a olhar uma bunda de mulher, assim como Celine engordou e tem queda de cabelos. O filme é, sem dúvida, um tapa na cara do amor romântico e, por isso mesmo, talvez o melhor da série.

O amor romântico, que é uma criação do século XVIII, ainda permanece em nossos dias como um fim a ser alcançado e como sinônimo de felicidade. Acredita-se que quem não ama romanticamente, não ama "de verdade" e que, se o amor acaba, é porque "não era amor". O casamento ainda aparece como a coroação do "amor verdadeiro" e, por isso mesmo, implica muitas espectativas. Quanto maiores as espectativas, maiores são as frustrações e, por isso mesmo, muitos casamentos se transformam em um mar de ressentimentos cumulativos. Celine e Jesse viveram um encontro mágico eternizado em livro (Jesse, inclusive tem vários fãs por conta disso). No entanto, o  que eles vivem no casamento, quase vinte anos depois, está bem longe de "magia" e encantamento.

O espectador é convocado, a quase todo o tempo, a ser um terapeuta de casal. É fácil observar onde estão as feridas da relação e as falhas de comunicação. Um diz A, o outro entende B. Os dois concordam no mesmo ponto e discutem justamente por isso. Há toda uma série de mágoas pelo que foi renunciado ao longo dos anos para que eles ficassem juntos. Quem, afinal, renunciou "mais" e investiu "mais" no relacionamento?


Um casal em crise em "Antes da meia noite"

Julie Delpy e Ethan Hawke, o casal de protagonistas, são amigos de longa data. Os dois atores, inclusive, são co-autores do roteiro. Isso, sem dúvida, dá maior verossimilhança aos diálogos e a química entre os dois é impressionante. O fato de envelhecerem na frente das câmeras é algo que chega a ser comovente. Julie Delpy aparece quase sem maquiagem e aparenta a idade que tem, com todas as rugas e quilos a mais. Ethan Hawke, que era um menino, aparenta muito mais idade. Ainda assim, as cenas de sexo (fundamentais neste filme) são muito mais explícitas do que nos dois primeiros da trilogia.

"Antes do pôr do sol" é um filme que vale a pena. Apesar dos desencontros entre o casal, há diálogos deliciosos que são somente possíveis entre pessoas que tem intimidade e familiaridade. Os dois discutem e se ferem, mas riem e também se divertem. A cena em que Celine finge ser burra para conquistar Jesse é hilária. É isso, talvez, que diferencie este enredo  do de outros filmes que falam da deterioração de um casamento ( como "Blue Valentine" e "Foi apenas um sonho"). O ideal de amor romântico é tirano, mas é possível sobreviver a ele. E melhor: é possível criar outras formas de amar.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Viva la Revolucion!

Eu nasci nos anos 70. Naqueles tempos, o Brasil ainda estava sob domínio de um regime ditatorial e militar. Não foram os tempos mais duros da ditadura, mas os programas de televisão (inclusive novelas e shows) somente eram exibidos depois de passarem por censura. Lembro-me bem do documento da censura federal que antecedia o início dos programas, ainda que eu não entendesse o porquê daquilo. Na escola, tudo o que eu deveria aprender (e decorar) era a ordem dos presidentes do Brasil até aquele momento. O que eu sabia era que os presidentes tinham nomes estranhos para uma criança (como Garrastazu Médici e Geisel). O último (com nome mais fácil) era o Figueiredo, cuja semana eu sempre acompanhava pela TVS (atual SBT), nos intervalos do programa Domingo no Parque. "A Semana do Presidente" era um boletim semanal narrado pelo Lombardi.

"Atenção senhores pais: terminou o horário permitido para menores de doze anos"
Os anos 80 foram especialmente difíceis. Tancredo Neves era a esperança de novos tempos, apesar de ter sido eleito em uma votação (ainda) indireta. Aí veio o governo Sarney e seus milhões de pacotes econômicos e moedas. O ítem mais importante em qualquer casa de classe média era o freezer, pois tínhamos de fazer estoque de comida, especialmente de carne. Por conta da hiperinflação, um mesmo produto poderia ter dois, três preços no mesmo dia. Assim sendo, fazíamos aquelas compras imensas no supermercado para durar no mínimo dois meses. Era a forma de economizarmos. Refrigerante, cereais, iogurte e bolacha recheada eram puro luxo. Caríssimos, só eram consumidos em dias especiais. Nem toda casa tinha linha telefônica; extensão no quarto só em casa de gente rica. Muitas vezes um filme ficava na máquina fotográfica por mais de um ano, esperando para ser revelado. E quando era, a surpresa: muitas fotos mal tiradas e as fotos-mico que hoje não existem mais.

Aí veio Fernando Collor de Mello, o jovem desconhecido de Alagoas "vendido" como o "caçador de marajás". Após anos de sofrimento, finalmente vieram as tão sonhadas eleições diretas e Collor ganha de Lula, no segundo turno, em 1989. Em meio aos escândalos de corrupção, além da crise econômica do governo Collor, a rede Globo (ironia) exibiu, em 1992, uma minissérie chamada "Anos Rebeldes" (atualmente em reprise no canal VIVA). A minissérie contava o romance entre uma jovem "alienada" Maria Lúcia (Malu Mader) e um rapaz engajado com a luta armada nos anos 60 e 70, João Alfredo (Cássio Gabus Mendes). No entanto, quem roubou a cena foi Claudia Abreu, com sua Heloísa, a patricinha que se transforma em guerrilheira. Encantada com Heloísa, fui estudar mais sobre a ditadura militar, não só no Brasil. Muitos outros adolescentes fizeram o mesmo. O movimento dos "Caras-Pintadas", um movimento predominantemente jovem e com um objetivo pontual (tirar um presidente) foi fortemente influenciado por uma minissérie global (da mesma Globo que encobrira militares e que tinha ajudado a eleger Collor, anos antes). Saímos às ruas ao som de Roda Viva, o clássico de Chico Buarque de 1967.  Não tenho nenhum registro fotográfico da época pois não tínhamos a dimensão de que era um fato histórico. Naqueles tempos, ao contrário de hoje, era preciso acontecer algo importante para tirarmos fotografias. Após a votação do impeachment de Fernando Collor, em Setembro daquele ano, todos comemoramos e acabou aí. Presenciei muita gente engajada no movimento dos Caras Pintadas, mas alguns íam às manifestações pela festa. Os hinos do "Fora Collor" eram muito engraçados. As manifestações foram pacíficas e sem confronto com policiais.
A economia estabilizou-se após 1994. No entanto, os escândalos de corrupção nos governos FHC e Lula foram se tornando cada vez piores e mais explícitos. Fui eleitora de Lula e do PT por muitos anos, mas Luiz Inácio da Silva e sua quadrilha fazem Collor, hoje, parecer um ladrão de galinhas.

Não sou mais uma criança que só sabe pedaços de uma história mal contada, nem tão pouco uma adolescente idealista. Eis que no dia 17 de Junho de 2013, mais de vinte anos depois do "Fora Collor", eu presencio o povo sair às ruas em um movimento grandioso, por todo o Brasil.  Parece-me algo muito, mas muito maior do que o "Diretas Já" e as manifestações dos "Caras-Pintadas". Hoje temos a internet a nosso favor. Acompanhei pelo twitter as discussões se o movimento deveria ou não ter pauta, bem como se deveriam ser em avenidas importantes as manifestações. Alguns diziam que pauta era coisa de reunião de condomínio, outros queriam deixar as coisas mais organizadas. O que importa é que o aconteceu. Foi bonito de ver. Seja por tarifa zero ou não, o recado foi dado. Estamos todos insatisfeitos com o que tem sido feito do Brasil até então. Não há um sistema de saúde decente, não há transporte bom, não há educação, não há segurança. Que nos impliquemos, enfim, de corpo, alma e voz. Qual é, afinal, a parte que nos cabe?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O que se perde quando se perde alguém?

"O que se perde quando se perde alguém? Não perdi nesta ou naquela característica o ser amado. Não é porque minha mulher tinha aquele tom de cabelo ou a suavidade nas mãos que eu a amava. Por mais que faça a lista de seus atributos, sempre haverá um que resta descrever. Por outro lado, cada elemento desta lista de atributos pode ser encontrado às dúzias no mundo. O que houve? Em uma primeira resposta, diremos que a morte levou consigo a possibilidade disso tudo estar reunido. Esta possibilidade acrescenta-se subtrativamente à série de traços, pois não é em si um atributo, mas pura suposição. Podemos então acrescentar à série de traços, este indizível a-mais. É exatamente este a-mais que se perdeu. Em outras termos: o que se perdeu é sempre impossível de se esgotar com uma nomeação" (Marcus André Vieira)