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domingo, 6 de novembro de 2011

Cenas de um Relacionamento


Não se engane pelo pôster ou pelo título. "Namorados para sempre" (Blue Valentine - 2010) é um doloroso soco no estômago. O título em inglês (algo como "namorado triste") seria mais pertinente. Para mim, que há posts reclamo da previsibilidade das comédias românticas (ou dramáticas), este filme é um alento. Ou não.

Michelle Williams não deu sorte, assim como Nicole Kidman, ao ser indicada ao Oscar no mesmo ano que Natalie Portman com seu "Cisne Negro". É como se ninguém pudesse bater Natalie. Já comentei aqui sobre Nicole, mas Michelle Williams também tem uma atuação emocionante neste filme sobre a deterioração de um casamento. Fazendo um paralelo, ambas interpretam mulheres que sofrem ao se depararem com o naufrágio da união amorosa. Se em "Reencontrando a felicidade", o desencadeador do sofrimento do casal é a perda de um filho, em "Namorados para sempre" este fator não é tão claro. Nos dois filmes, as esposas mostram-se mulheres insatisfeitas, amarguradas e infelizes, ao lado de maridos um tanto quanto sensíveis e desorientados no sentido do que fazer para satisfazê-las. Ao mesmo tempo que facilmente elas podem ser vistas como garotas bacanas que se transformaram em bruxas malvadas, por outro, não é difícil entender porque elas chegaram a esse ponto.

"Namorados para sempre" é dirigido de forma quase documental, com longos closes no casal de protagonistas.  A beleza incomum de ambos fica em segundo plano, tamanha é a miséria humana que invade a tela. Ryan Gosling, que interpreta o doce Dean, é uma surpresa boa. Como eu não conhecia o ator, é como se ele fosse o próprio Dean. A química com Michelle Williams (nos bons e nos maus momentos) chega a ser impressionante.

"Blue Valentine" é um bom filme.Talvez não seja o ideal para assistir em um dia dos namorados, no entanto. É triste constatar que muitas vezes, a mesma característica que encanta quando a paixão acontece, é a mesma que pode causar repugnância, tempos depois. Remeteu-me a outro belo filme ("Foi apenas um sonho"), mas este é assunto para outro post. Será que eu volto para as comédias românticas?

domingo, 5 de junho de 2011

Luto e Melancolia na tela grande

Sigmund Freud escreveu dois textos belíssimos que reli dia desses. Mesmo aqueles que não simpatizam muito com a obra do "pai da psicanálise" irão apreciar sua escrita acessível e literária. "Luto e Melancolia" (1917) e "Sobre a transitoriedade" (1915) são textos curtos escritos em um momento de transição da teoria psicanalítica. A grosso modo, ambos versam sobre perdas e a forma como lidamos com elas.

Lembrei dos textos ao assistir um filme recente ("Reencontrando a felicidade"- 2010) que trata de um tema espinhoso: a perda de um filho pequeno em uma morte trágica. Nicole Kidman e Aaron Eckhart interpretam o casal que tem de juntar os pedaços juntos após a dor imensurável da perda de um filho. Nicole foi indicada ao Oscar deste ano como melhor atriz por este papel. No entanto, foi eclipsada por Natalie Portman que acabou levando o prêmio. O ano foi de Natalie e seu "Cisne Negro", sem dúvida. No entanto, Nicole Kidman também merecia. Sem um pingo de botox, todas as expressões foram possíveis em sua interpretação de uma mãe amargurada. Ela, que em outros tempos brilhou com a melancólica Virgínia Woolf no denso "As horas"(2002), faz agora uma mãe em luto. Não assistia a um filme tratar de forma tão realista a dor do luto desde o tristíssimo "O quarto do filho"(2001).

O que é perdido quando se perde um objeto de amor? Além do objeto de afeto, o que se vai? "Reencontrando a felicidade " tangencia essas questões, questões estas que foram aprofundadas nos textos do tio Freud. Há que se estar inspirado para assistir, sem dores muito recentes. No entanto, para quem  aprecia um bom drama e não tem medo de chorar no cinema, vale a pena. Nicole Kidman prova que está em excelente forma. E Sigmund Freud também.