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quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Qual é a regra do jogo?
"Brasileiro quer inventar moda de fazer novela como se faz os seriados americanos. Não adianta. Não rola". Escutei isso de um amigo, ao conversarmos sobre a nova das nove, "A regra do jogo", novela que ainda não emplacou (pelo menos em audiência e no twitter). "Novela brasileira tem que ter mocinho-mocinho, vilã-vilão, senão o povo se confunde, não tem para quem torcer", concluiu ele. Na ocasião, fiquei em dúvida se concordava ou não com a tese.
João Emanuel Carneiro, o autor de "A Regra do Jogo", ficou mais conhecido depois do fenômeno de três anos atrás "Avenida Brasil". Novela, aliás, que diziam ter sido inspirada especialmente em "Revenge", série americana que perdeu fôlego logo, embora tenha ficado no ar até Maio deste ano. "Revenge" é uma série mais operística, com ares de novelão mexicano, com uma construção de personagens bem distante da complexidade de outras séries como Breaking Bad, Mad Men ou Sopranos. O que aproximava a Nina de Débora Falabella da Emily de Amanda Clarke era o mote: Vingança. Mas foi só.
"Avenida Brasil" trouxe duas protagonistas femininas fortes: Nina e Carminha. Embora, à priori, Nina fosse a mocinha e Carminha, a vilã, ambas tinham nuances de caráter. No entanto, Nina foi apresentada ao público como uma garotinha, na primeira fase da novela, abandonada à própria sorte pela madrasta má. E em um lixão. O público, embora tenha amado Carminha, sabia para quem torcer.
Em 2008, em "A Favorita", o telespectador ainda não sabia quem era a mocinha uns bons capítulos após a novela ter começado. Quem era a vilã? Flora ou Donatela? A revelação, que viria apenas na metade da trama, teve de vir antes, pois a novela perdia audiência. A vilã, para surpresa de muitos era a angelical e pobre Flora (Patrícia Pillar) e não a rica perua Donatela (Cláudia Raia). Flora, de fato, tinha sido presa por ser uma assassina perigosa e não por injustiça. O público, então, tornou-se cúmplice de Donatela, embora o elenco todo fosse enganado por Flora. A novela foi um sucesso. Flora era uma vilã ainda pior que Carminha, pois não gostava da filha, Lara. Carminha, ao menos, amava Jorginho, o filho adotivo (embora espezinhasse Ágata, a filha gordinha).
Em "A Favorita", um ator chamou a atenção em um papel pequeno. Era Alexandre Nero, como o verdureiro Vanderlei. Com um olhar doce, ele era apaixonado por uma mulher casada que era agredida pelo marido, Catarina (Lília Cabral). Alguns anos e um Comendador depois, Nero faz agora o protagonista de "A Regra do Jogo": Romero Rômulo. Da série de personagens principais fortes e ambíguos de João Emanuel Carneiro, surge, agora um homem. As anteriores eram personagens femininas.
Nero tem o "physique du role" para Romero Rômulo. Embora não haja resquícios do Comendador em Romero, está lá o tal charme cafajeste que, claro, deve ser do ator. Nero é um homem comum, tem cabelos grisalhos, olhos muito grandes e facilmente fica acima do peso, mas é irresistível. Faz bem tanto as cenas cômicas como as dramáticas (aquelas dele com Cássia Kis dá vontade de bater palma sozinha na sala). No entanto, a ambiguidade dele é tanta que fica difícil de torcer por ele, ainda é confuso. Está ainda longe de ser um Walter White ou qualquer desses inúmeros anti-heróis fascinantes das séries americanas. O texto é bom, o ator é bom, mas falta. Nesse sentido, o Comendador de Império foi um personagem para lá de bem construído, um anti-herói dos bons, que o público adotou e amou. Não gosto do texto de Aguinaldo Silva, mas tenho de dar a mão à palmatória.
Enfim, tenho de discordar do meu amigo. O público noveleiro até compra os anti-heróis (houve tantos outros), mas tudo depende de como a história é contada para a galera embarcar junto com ele. Qual é a motivação do cara? Arrisco que o grande público não gosta de ser enganado e demasiadamente surpreendido. Quanto a mim, digo que o ritmo de trama policial da novela me cansa. Muito diálogo, muito estímulo, câmera escondida, o escambau. Tiro, porrada e bomba. Acho que estou trabalhando demais e queria um refresco à noite. Ou estou ficando velha mesmo. Uma "tia do sofá".
OBS1 : João Emanuel Carneiro já escreveu um personagem masculino forte, uma espécie de Macunaíma em "Cobras e Lagartos": o Foguinho, de Lázaro Ramos. No entanto, Foguinho foi um personagem cômico, em uma novela das sete, antes de JEC migrar para o horário nobre.
OBS2: Um anti-herói de novela das oito que gostei muito foi o Renato Villar, de Tarcísio Meira em "Roda de Fogo" (1986). O empresário frio e calculista vai se transformando ao longo da trama por conta de problemas de saúde, um aneurisma cerebral. Lauro César Muniz é um autor conhecido por construir excelentes personagens masculinos que vão se transformando ao longo da trama: Antônio Dias (de "Escalada"), o próprio Renato Villar e o inesquecível Sassá Mutema (de "O Salvador da Pátria"). Romero Rômulo, como Renato Villar, também tem uma doença crônica (a esclerose múltipla) que muito provavelmente terá papel fundamental nos rumos do personagem.
OBS3: Ah, em 2012, escrevi sobre Avenida Brasil aqui.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
A versão "cucaracha" de Avenida Brasil
Nesta semana, "Avenida Brasil" (2012) estreou no México. A versão dublada em espanhol deixa tudo ainda mais dramático. A novela já é sucesso na Argentina. Saudades imensas de Carmem Lúcia (quer nome de vilã mais mexicano que este?).
terça-feira, 30 de julho de 2013
Em nome do pai
Existem alguns clichês que sempre foram usados na teledramaturgia e, se bem usados, ainda têm efeito. O mais clássico talvez seja o do triângulo amoroso, presente, invariavelmente, em quase todas as telenovelas. No entanto, um dos clichês mais batidos, e que ainda comove é a questão da maternidade/paternidade desconhecida. Sempre há algum personagem que não sabe quem é seu verdadeiro pai (mãe) e só descobre no final da novela. Geralmente, é alguém de quem muito se gosta, ou que os caminhos sempre estiveram ligados de alguma forma, mas ninguém percebeu. Desde as tragédias gregas, as relações entre mães e filhos/ pais e filhos comovem. Basta lembrar da sempre citada Édipo Rei que, além de trazer o mais trágico triângulo amoroso (pai-filho-mãe), ainda traz o drama de um rapaz que desconhecia suas verdadeiras origens. Édipo crescera sem saber que seus verdadeiros pais eram Laio e Jocasta, e daí todo o desenrolar da tragédia. No ar há poucos meses, a trama de Walcyr Carrasco, "Amor à vida", traz, entre suas tramas centrais, o drama da menina Paulinha que descobre que sua verdadeira mãe é a namorada do pai, Paloma (Paola Oliveira), que tivera sua filha roubada ainda bebê. O que o texto de Walcyr traz de mais inovador talvez seja a questão do pai. Bruno (Malvino Salvador) não é o pai biológico de Paulinha, mas busca a legitimação de sua paternidade.
Há muitos anos, as novelas, que têm um público majoritariamente feminino, abordam a questão da maternidade. Regina Duarte, por exemplo, viveu duas mães especialmente marcantes. Uma delas foi Raquel Acioly, em "Vale Tudo"(88/89), que titubeava em aceitar que a filha, Maria de Fátima (Glória Pires) era uma tremenda mau-caráter. A outra foi Helena, em "Por Amor"(1997) que trocava o seu próprio bebê vivo, pelo bebê morto da filha, Maria Eduarda (Gabriela Duarte) para que esta não sofresse. Entre as tramas de Manoel Carlos, há ainda a Helena de Vera Fischer, que engravida novamente de um antigo namorado para que a filha, Camila (Carolina Dieckman), com leucemia, tivesse um possível doador. Isso sem falar das novelas mais antigas, como "Irmãos Coragem" (70/71), em que Sinhana (Zilka Salaberry) zelava pela família com mãos de ferro, ou de "Dona Xepa" (1977), em que uma feirante cuidava sozinha dos filhos. Um dos romances brasileiros mais famosos cuja protagonista é uma sofrida mãe ("Éramos Seis", de Maria José Dupré) ganhou três adaptações para a televisão, a última em 1994, pelo SBT, com Irene Ravache.
Em relação à figura paterna, uma das novelas mais bonitas já exibidas na Rede Globo foi uma trama de Janete Clair, "Pai Herói" (1979) cuja abertura e trilha sonora marcaram época. Quem não se lembra da música "Pai" de Fábio Júnior, tema de abertura? Tony Ramos era André Cajarana, o filho que batalha para salvar a imagem do pai morto, Malta Cajarana (Lima Duarte), que era tido como criminoso. É o tal "Pai Herói" do título.
Embora não seja propriamente inédita, a briga de um pai pelo direito de criar a filha adotada ilegalmente, tema abordado em "Amor à vida" poderia trazer uma discussão e tanto. No entanto, a novela traz alguns problemas que impedem que o tema se desenvolva mais. Malvino Salvador é esforçado, mas não segura o papel de protagonista. Bruno, o corretor de imóveis certinho, acabou se tornando um personagem chato. O texto de Walcyr Carrasco não ajuda. É repetitivo e fraco; tem-se a impressão, apesar da trama se passar em dias atuais, que estamos assistindo a uma novela mexicana. Como dizem no twitter, Glória Magadan deve estar batendo palminhas no túmulo. A critério de comparação, Tufão, o personagem de Murilo Benício em "Avenida Brasil" (2012) era um pai adotivo muito mais crível. Suas cenas com Jorginho (Cauã Reymond) conseguiam fazer chorar.
Em suma: novela pode ser coisa séria e, assim como as tragédias gregas, abordar temas que afligem a humanidade há séculos. Elas podem falar do mesmo tema repetidas vezes e ainda conseguirem emocionar. No entanto, texto é fundamental. Que venham mais novelas que abordem a questão da paternidade nos dias atuais, um tema tão delicado. E com alguma profundidade, por favor.
Há muitos anos, as novelas, que têm um público majoritariamente feminino, abordam a questão da maternidade. Regina Duarte, por exemplo, viveu duas mães especialmente marcantes. Uma delas foi Raquel Acioly, em "Vale Tudo"(88/89), que titubeava em aceitar que a filha, Maria de Fátima (Glória Pires) era uma tremenda mau-caráter. A outra foi Helena, em "Por Amor"(1997) que trocava o seu próprio bebê vivo, pelo bebê morto da filha, Maria Eduarda (Gabriela Duarte) para que esta não sofresse. Entre as tramas de Manoel Carlos, há ainda a Helena de Vera Fischer, que engravida novamente de um antigo namorado para que a filha, Camila (Carolina Dieckman), com leucemia, tivesse um possível doador. Isso sem falar das novelas mais antigas, como "Irmãos Coragem" (70/71), em que Sinhana (Zilka Salaberry) zelava pela família com mãos de ferro, ou de "Dona Xepa" (1977), em que uma feirante cuidava sozinha dos filhos. Um dos romances brasileiros mais famosos cuja protagonista é uma sofrida mãe ("Éramos Seis", de Maria José Dupré) ganhou três adaptações para a televisão, a última em 1994, pelo SBT, com Irene Ravache.
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| Um LP da trilha internacional de "Pai Herói" |
Em relação à figura paterna, uma das novelas mais bonitas já exibidas na Rede Globo foi uma trama de Janete Clair, "Pai Herói" (1979) cuja abertura e trilha sonora marcaram época. Quem não se lembra da música "Pai" de Fábio Júnior, tema de abertura? Tony Ramos era André Cajarana, o filho que batalha para salvar a imagem do pai morto, Malta Cajarana (Lima Duarte), que era tido como criminoso. É o tal "Pai Herói" do título.
Embora não seja propriamente inédita, a briga de um pai pelo direito de criar a filha adotada ilegalmente, tema abordado em "Amor à vida" poderia trazer uma discussão e tanto. No entanto, a novela traz alguns problemas que impedem que o tema se desenvolva mais. Malvino Salvador é esforçado, mas não segura o papel de protagonista. Bruno, o corretor de imóveis certinho, acabou se tornando um personagem chato. O texto de Walcyr Carrasco não ajuda. É repetitivo e fraco; tem-se a impressão, apesar da trama se passar em dias atuais, que estamos assistindo a uma novela mexicana. Como dizem no twitter, Glória Magadan deve estar batendo palminhas no túmulo. A critério de comparação, Tufão, o personagem de Murilo Benício em "Avenida Brasil" (2012) era um pai adotivo muito mais crível. Suas cenas com Jorginho (Cauã Reymond) conseguiam fazer chorar.
Em suma: novela pode ser coisa séria e, assim como as tragédias gregas, abordar temas que afligem a humanidade há séculos. Elas podem falar do mesmo tema repetidas vezes e ainda conseguirem emocionar. No entanto, texto é fundamental. Que venham mais novelas que abordem a questão da paternidade nos dias atuais, um tema tão delicado. E com alguma profundidade, por favor.
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quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Sobre novela, futebol e paixão...
“Um homem pode mudar de tudo. De cara, de família, de namorada, de religião, de Deus. Mas há uma coisa que não se pode mudar, Benjamín. Não se pode mudar de paixão.”
Esta frase emblemática marca um importante momento do filme argentino "O segredo dos seus olhos", de 2009. E é a partir dela que dois detetives encontram a pista que precisavam para encontrar um suposto assassino, apaixonado pelo time do Racing. Passaram-se anos, o tal homem havia mudado, por certo, mas a paixão pelo futebol continuaria ali, intacta, raciocinaram eles. E é nesse momento que é exibida, de forma magistral, uma das melhores cenas de estádio que eu já vi no cinema. É paixão pura, o que, aliás, é o tema central do filme (seja por um time, por uma mulher, por uma causa, por uma vingança).
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| Sequência da cena de perseguição no estádio argentino de Huracán |
"São demais os perigos dessa vida para quem tem paixão (...)" (Vinícius de Moraes)
Pensei no tema ao observar a corrida de muitas pessoas para voltarem para casa na última sexta feira para assistirem ao final da novela "Avenida Brasil", da Rede Globo. Muita gente ensandecida para saber logo o final de Carminha, Nina e da família Tufão. Falou-se até de riscos de queda de energia, tamanha seria a audiência. Não chegou a tanto. Comparou-se o final da novela com outro fenômeno de audiência neste ano que também esvaziou as ruas: a final da Libertadores, com Corinthians e Boca Juniors. Sou noveleira desde criancinha, mas não gosto tanto de futebol. No entanto, achei interessante e curioso tanto o movimento para ver a novela, como para ver o jogo.Ainda que não se goste do resultado, é um motivo pra festa, para adrenalina, para torcida, riso e choro. Não passa pelo pensamento racional. No outro dia, voltamos ao nosso cotidiano banal, seja para falar mal do Corinthians, seja para falar da Carminha assassina. É uma paixão dessas passageiras, a não ser que você seja torcedor da Fiel ou um stalker da Adriana Esteves.
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| Carminha, uma mulher de paixões |
E, enquanto assistia à novela, comentei no facebook e twitter. No twitter, recebi ameaças (!) de unfollow. Em ambas as redes sociais, li comentários de que assistir à novela era reflexo da falta de cultura do brasileiro. Li também que quem assistia à novela não deveria saber quem é o ministro da Justiça ou da Educação do Governo Dilma (!). Pensei cá com meus botões: gente culta não assiste novela? Gente politizada não gosta de futebol? Por que tem de ser uma coisa ou outra? E por que, simplesmente, não podemos nos ocupar de bobagens de vez em quando?
Aí eu recorro ao Houaiss para falar de outro termo: alienação.
n adjetivo e substantivo masculino
2 que ou aquele que sofre de alienação mental; louco, maluco, doido
3 Uso: informal.
que ou aquele que sofre de alienação, que vive sem conhecer ou compreender os fatores sociais, políticos e culturais que o condicionam e os impulsos íntimos que o levam a agir da maneira que age
3.1 que ou aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam; alheado
2 que ou aquele que sofre de alienação mental; louco, maluco, doido
3 Uso: informal.
que ou aquele que sofre de alienação, que vive sem conhecer ou compreender os fatores sociais, políticos e culturais que o condicionam e os impulsos íntimos que o levam a agir da maneira que age
3.1 que ou aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam; alheado
Se há paixão por algo, existe sim, um quê de destempero e "loucura". A paixão aliena e estamos todos sujeitos a ela. Pode ser inclusive, a paixão por um partido político, por um teórico da psicanálise, por uma religião ou por um participante do BBB. Como se diz no senso comum, há louco para tudo e a paixão é democrática e cega. No entanto, eu não sou necessariamente uma alienada porque corri pra casa ver o último capítulo da novela.
"O segredo dos seus olhos" conta uma estória defendendo a idéia de que algumas paixões não mudam nunca. Algumas delas, aliás, podem até destruir uma vida. Não sei se concordo com isso. O que sei é que um pouco de paixão neste mundo em que os afetos precisam ser tão quantificados, racionalizados e medicados deve trazer algum bem. Nem que seja por uma noite. Pela Carminha, pelo Corinthians ou por alguém.
"O segredo dos seus olhos" conta uma estória defendendo a idéia de que algumas paixões não mudam nunca. Algumas delas, aliás, podem até destruir uma vida. Não sei se concordo com isso. O que sei é que um pouco de paixão neste mundo em que os afetos precisam ser tão quantificados, racionalizados e medicados deve trazer algum bem. Nem que seja por uma noite. Pela Carminha, pelo Corinthians ou por alguém.
sábado, 28 de julho de 2012
V, de Vingança
"Quando atacar alguém por vingança, prepare duas covas" (Confúcio)
Na ficção, a garota Rita era maltratada pela madrasta Carmem Lúcia sem que o pai se apercebesse disto. Carmem Lúcia, além disso, enganava o pai de Rita, traindo-o com um amante mau caráter. Quando Genésio, o pai, vende a casa própria que era tudo que a família tinha, Carmem alia-se ao amante para dar um golpe no marido, roubando-lhe todo o dinheiro. A pequena Rita descobre e consegue avisar o pai, que se desvincilha do golpe. No entanto, a caminho da delegacia, Genésio é atropelado por um famoso jogador de futebol e morre. Encarnando uma pobre viúva, Carmem Lúcia, além de ficar com todo o dinheiro do marido, abandona a menina, aos gritos, em um lixão. Posteriormente, ainda dá um golpe no jogador de futebol que, por pena, casa-se com ela. A vingança de Rita, a garota orfã, é o enredo desta trama, da novela "Avenida Brasil", atualmente no ar, pela Globo.
Mel Maia, como "a pequena órfã"
A história de uma garota orfã nas mãos de uma madrasta má e, muitas vezes, invejosa, não é nova. Os clássicos contos de fada "Cinderela" e "Branca de Neve" estão aí para comprovar. A trama da vingança também não. De " O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas (que inspirou a novela "Sangue do meu sangue", de Vicente Sesso) ao romance "Tieta", de Jorge Amado, muitos são os dramas com heróis vingativos. A trilogia "Millenium", sucesso estrondoso na literatura sueca e no cinema nos últimos anos, traz uma heroína moderna e vingadora: a andrógina e fascinante Lisbeth Salander.
A saga de Rita/Nina faz também lembrar outra protagonista que quis vingar sua família na teledramaturgia. Malu Mader encarnou Cláudia, a "Fera Radical" (1988) que arquitetou planos de vingança contra a família Flores.
a sexy fera radical Malu Mader
Os planos de Claudia ficam perturbados quando ela se apaixona por Fernando Flores (José Mayer), pertencente à família que ela pretendia vingar. Isso é também comum nas tramas: o grande amor se sobrepõe ao ódio. Foi assim com Ana Francisca (Mariana Ximenes), a moça doce e humilhada que volta para se vingar rica e poderosa de seus algozes em "Chocolate com Pimenta" (2003). No entanto, havia o amor de Danilo (Murilo Benício) no meio do caminho.
Quando nem um grande amor detém a vingadora, então ela não é uma mocinha, é vilã. Em "Celebridade" (2003), a vilã Laura quer tirar tudo de Maria Clara Diniz por vingança. Laura acredita que um sucesso musical composto para Maria Clara teria sido, na verdade, feito para sua mãe. Assim sendo, Maria Clara teria ficado com os louros de uma glória que não era sua e, consequentemente, com os dividendos da canção. A vilã vingadora, claro, é punida no final.
Rita/Nina, a protagonista de Avenida Brasil, não é Cláudia, nem Ana Francisca, nem Laura. Ela se assemelha mais à sueca Lisbeth, seja pelo visual andrógino, seja pela inteligência, seja pela moto. Mais ainda: se assemelha pela neurose. Amor nenhum pára Rita ou Lisbeth. Seus objetivos são outros. Elas não são más, são neuróticas.
A pobre Lisbeth não tem nada a perder. Nina tem. Se, no início, ela perdeu o pai e foi parar no lixão, depois ganhou muitas coisas. Fez amigos no lixão (Jorginho, seu namorado, entre eles) e foi adotada, mais tarde, por uma família rica da Argentina. Ganhou um pai amoroso, irmãs afetuosas e uma educação que talvez seu pai biológico não pudesse dar. O limão, portanto, virou uma limonada. No entanto, ela não consegue desfrutar de nada disso pois só pensa em Carmem Lúcia.
O interessante de Avenida Brasil é mostrar a morte, aos poucos, de Rita/Nina. Ela quer tirar tudo de Carminha, mas ao mesmo tempo, tira tudo de si mesma. Este é o ineditismo da novela, uma vez que todos os outros temas já foram visitados. O enredo faz valer a frase de Confúcio que inicia este post. O vingador leva o outro para a cova, mas leva a si mesmo também.
Eu, tantas vezes cri-cri com frases consoladoras populares, cito uma delas para encerrar este texto. Nina, minha filha, larga a Carminha pois a melhor vingança, afinal, é ser feliz.
domingo, 22 de abril de 2012
Razões que a razão desconhece
Assisto novela no twitter. Sim, sou uma nerd noveleira. Algumas novelas (e outros programas) são melhores assistidos em bando. Como não moro com um bando de gente, recorro ao twitter. Em tempo real você comenta a cena, lê comentários, atenta-se a um detalhe despercebido, ri com uma observação engraçada, enfim. Pessoas que você nunca viu na vida, mas que são tuiteiros compulsivos, passam a ser seus companheiros de sofá.
Há muito tempo não assistia a uma novela, mas "Avenida Brasil", "a nova das nove", é bem escrita, é engraçada e tem um bom equilíbrio entre uma linha condutora dramática e alguns núcleos cômicos. Entre vários comentários durante os últimos capítulos da semana, duas tuitadas muito semelhantes me chamaram atenção:
"Só em ficção para um Cauã Reymond trocar uma Nathália Dill por uma sem sal como a Débora Falabella."
"Avenida Brasil está extrapolando na ficção. Tessália com Leleco, Adauto com Muricy".
As duas tuitadas (coincidentemente ou não) foram escritas por homens. As duas pressupõem o seguinte: só causa desejo no outro o jovem e belo. Se o belíssimo Cauã tem a opção de duas jovens, logo, escolheria a mais bonita. Se a miss Chapinha Tessália (Débora Nascimento) está com o sessentão Leleco (Marcos Caruso) e não é interesseira, o autor da novela estaria exagerando na licença poética, digamos. O mesmo se diria de Muricy (Eliane Giardini) e Adauto (Juliano Cazarré), um rapaz que poderia ser filho dela. Em cena de ontem em que se insinuou que Tessália e Leleco faziam sexo, tuitadas apareceram na minha timeline expressando nojo.
Bom, que os jovens e belos têm mais facilidade em despertar desejo, isso é inquestionável. A Biologia pode explicar, a Psicologia e a Psicanálise também. Taí uma das razões (senão A RAZÃO) por esta busca frenética pela juventude e beleza. No entanto, a coisa é muito mais complexa. Canso de ver mulheres lindas serem trocadas por outras aparentemente sem graça. Gordinhas que traçam meio mundo (oi, Preta Gil) e nerds estranhíssimos com mulheres estonteantes. E dá-lhe revistas femininas (e agora masculinas!) ensinando como dizer a coisa certa, na hora certa, o que vestir, como mexer no cabelo, etc, etc, para causar desejo no outro. Pode até ajudar, mas que isso é muito pessoal, é. Não há regra geral.
Um conhecido meu acha que uma das mulheres mais sexies do Brasil é a Regina Casé. Minha gente, eu penso tudo da Regina Casé, menos que ela é sexy. Tá certo que ele assistiu aquele montão de filme da Regina Casé no Canal Brasil, mas sexy? Uma das mais sexies do Brasil???
A conclusão de tudo isso é que o desejo não é óbvio como as revistas e os livros de auto ajuda querem pregar. Não há receita única. Que o mundo anda cada vez mais narcisista, eu não tenho dúvida, mas o amor (e o desejo) não acontece só entre iguais. Grande João Emanuel Carneiro que está tentando subverter o estereótipos em uma novela. E quem foi que disse que a ficção não faz pensar?
Há muito tempo não assistia a uma novela, mas "Avenida Brasil", "a nova das nove", é bem escrita, é engraçada e tem um bom equilíbrio entre uma linha condutora dramática e alguns núcleos cômicos. Entre vários comentários durante os últimos capítulos da semana, duas tuitadas muito semelhantes me chamaram atenção:
"Só em ficção para um Cauã Reymond trocar uma Nathália Dill por uma sem sal como a Débora Falabella."
"Avenida Brasil está extrapolando na ficção. Tessália com Leleco, Adauto com Muricy".
As duas tuitadas (coincidentemente ou não) foram escritas por homens. As duas pressupõem o seguinte: só causa desejo no outro o jovem e belo. Se o belíssimo Cauã tem a opção de duas jovens, logo, escolheria a mais bonita. Se a miss Chapinha Tessália (Débora Nascimento) está com o sessentão Leleco (Marcos Caruso) e não é interesseira, o autor da novela estaria exagerando na licença poética, digamos. O mesmo se diria de Muricy (Eliane Giardini) e Adauto (Juliano Cazarré), um rapaz que poderia ser filho dela. Em cena de ontem em que se insinuou que Tessália e Leleco faziam sexo, tuitadas apareceram na minha timeline expressando nojo.
Bom, que os jovens e belos têm mais facilidade em despertar desejo, isso é inquestionável. A Biologia pode explicar, a Psicologia e a Psicanálise também. Taí uma das razões (senão A RAZÃO) por esta busca frenética pela juventude e beleza. No entanto, a coisa é muito mais complexa. Canso de ver mulheres lindas serem trocadas por outras aparentemente sem graça. Gordinhas que traçam meio mundo (oi, Preta Gil) e nerds estranhíssimos com mulheres estonteantes. E dá-lhe revistas femininas (e agora masculinas!) ensinando como dizer a coisa certa, na hora certa, o que vestir, como mexer no cabelo, etc, etc, para causar desejo no outro. Pode até ajudar, mas que isso é muito pessoal, é. Não há regra geral.
Um conhecido meu acha que uma das mulheres mais sexies do Brasil é a Regina Casé. Minha gente, eu penso tudo da Regina Casé, menos que ela é sexy. Tá certo que ele assistiu aquele montão de filme da Regina Casé no Canal Brasil, mas sexy? Uma das mais sexies do Brasil???
A conclusão de tudo isso é que o desejo não é óbvio como as revistas e os livros de auto ajuda querem pregar. Não há receita única. Que o mundo anda cada vez mais narcisista, eu não tenho dúvida, mas o amor (e o desejo) não acontece só entre iguais. Grande João Emanuel Carneiro que está tentando subverter o estereótipos em uma novela. E quem foi que disse que a ficção não faz pensar?
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