sábado, 25 de fevereiro de 2012

As canções

"Vou colecionar mais um soneto,
 Outro retrato em branco e preto
 A maltratar meu coração (...)"

Meu primeiro emprego como psicóloga foi em um CAPS, uma época bastante feliz e marcante. A coordenadora do serviço, em um dos meus primeiros dias, comunicou-me que eu poderia escolher uma atividade para coordenar junto aos usuários, além dos grupos que eu já participava e dos meus atendimentos individuais. Não seria um grupo psicoterapêutico, mas um espaço que eu teria junto com os pacientes para ouví-los um pouco, conhecê-los mais. Eu poderia escolher uma atividade como mediadora deste contato, sem, é claro, desempenhar a função da terapeuta ocupacional. Chegava a época do Natal e já havia oficinas de guirlandas e cartões. Não identificava em mim nenhuma habilidade especial, mas tive uma idéia. Propus que a cada encontro um dos pacientes escolhesse uma música que remetesse a um momento significativo da vida. Eu providenciaria a música e a letra; cantaríamos juntos e ouviríamos um pouco as estórias relacionadas àquela música. Na minha pouca experiência como psicóloga, acreditei que seria um grupo leve e descontraído, como deveria ser. Não era (e nem poderia) ser  um grupo psicoterapêutico. 

O grupo começou bem. O primeiro encontro foi muito alegre e a trilha sonora foi "Saudades da minha terra", uma canção sertaneja que traz a nostalgia de quem já morou no campo e agora morava na cidade. Era justamente a história da paciente, já com mais de cinquenta anos, que nos contou estórias da sua vida com o pai e irmãos. Rimos juntos, pacientes com história de vida semelhante trocaram idéias. Terminado o encontro, perguntei quem gostaria de escolher a música para o próximo. Outra paciente se manifestou e o cantor escolhido foi, nada mais, nada menos, que ele:


Aí, meus caros, a coisa ferrou. Robertão mexe com o imaginário brasileiro. Não é à toa que, em  todos os anos, pessoas de diversas idades choram ao vê-lo cantar. Letras simples, melodia fácil, muitas músicas que marcaram a vida de MUITA gente. Você pode até não gostar, mas o poder do homem é grande. A música escolhida foi "Como é grande o meu amor por você" e a atividade, até então, alegre, virou um espaço de catarse, a maioria das mulheres chorou, alguns pacientes saíram da sala, tudo muito, muito triste. Não havia (por um cuidado nosso) pacientes psicóticos no grupo, mas todos eles estavam bastante vulneráveis, obviamente. Menosprezei o efeito que a memória afetiva despertada pela música tivesse naquelas pessoas. O grupo não acabou, mas aquela experiência me marcou profundamente e contribuiu para que eu fosse mais cuidadosa no meu exercício profissional.

Não houve como não lembrar desses tempos ao assistir o belíssimo documentário de Eduardo Coutinho: "As canções".


Coutinho que tem, entre seus trabalhos, o delicioso "Edifício Master", fez um anúncio no Rio de Janeiro pedindo que voluntários comparecessem para cantar músicas que haviam, de alguma forma, marcado suas vidas. Houve bastante procura, entre pessoas muito jovens e idosas. Os melhores depoimentos, entremeados pelas canções, estão no documentário. Há estórias alegres e otimistas, mas algumas pessoas tiveram de interromper sua narrativa entre lágrimas. Muitos delas são tristes. Impressiona o número de canções do onipresente Roberto Carlos. E impressiona mais ainda o número de mulheres abandonadas. E, ao contrário do que possa parecer, essas mulheres não parecem melodramáticas ou até, digamos, chatas, com o drama vivido. É possível, mesmo nos casos aparentemente bizarros, identificar-se com elas e seus amores perdidos, às vezes há mais de quarenta anos.

Penso que o documentarista tem algo do psicanalista. A intervenção deve ser mínima e pontual. O cenário para os depoimentos não tinha como ser mais neutro: uma poltrona preta com uma cortina (preta) atrás. Nenhum instrumento acompanhava as canções. A vontade que tive foi de saber mais sobre cada uma daquelas pessoas, quis fazer perguntas. Certamente, se fosse a psicanalista ali, as faria. E, talvez, se Coutinho tivesse gravado este documentário há doze anos, eu pensaria mais de uma vez antes de fazer a fatídica (e por que não, bela?) "oficina de música". Nunca, jamais menospreze o poder de uma canção.

* este post foi publicado, originalmente, em Fevereiro de 2012. Publico novamente em homenagem a Eduardo Coutinho, um dos maiores cineastas que o Brasil já teve.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

"Um dia", o filme.

“Dr. Jivago”, um dos maiores romances de todos os tempos, ganhou uma versão épica no cinema pela direção de David Lean. Já ouvi de muita gente que a versão cinematográfica consegue ser ainda melhor que o livro, que é uma obra prima. Hoje, não há como pensar no doce médico Yuri Jivago, sem lembrar de Omar Sharif. No entanto, não são raros os casos de leitores decepcionados com adaptações de livros para a tela grande, ou mesmo para a televisão. É muito comum a frase-chavão: “Ah, mas o livro é bem melhor”.

Omar "Dr. Jivago" Sharif
Pensando nisso, foi com uma expectativa pequena que fui assistir a “Um dia”, o filme adaptado do romance de David Nicholls, um dos meus livros preferidos do ano passado e que comentei aqui.

“Um dia” não é um “Dr. Jivago”. Nem o livro, nem o filme. “Dr. Jivago” é grandioso, conta as agruras da vida particular de um homem em meio a um momento histórico que mudaria toda a história do século XX. Jivago é o herói por excelência: o médico sensível, poeta, cheio de esperanças e ideais, mesmo quando tudo parece perdido. Já “Um dia” conta uma história banal, como tantas outras. Poderia ser a minha, a sua, a de qualquer pessoa. Dois amigos, uma garota e um rapaz, compartilham a vida durante vinte anos. Não há um sistema cruel ou um vilão ardiloso que os separa e que os impede de viver uma relação amorosa, mas os desencontros próprios da vida. Eles não conseguem viver juntos por medo, por narcisismo, por insegurança, por nada. Li em algum lugar e concordei. Enquanto na noite de formatura de ambos, um deles (a garota) queria mudar o mundo, o rapaz queria apenas usufruir do que o mundo poderia lhe oferecer.



A história pode ser banal, mas a forma de contar não é. É isso que faz o romance ser bom. Você se apega aos neuróticos protagonistas Emma e Dexter. Poderia ser você, poderia ser um (a) amigo (a) seu. Um livro tijolão de quase 500 páginas e lá está você apegado (a). Aí fica difícil a adaptação para o cinema, MESMO.

Uma boa notícia para quem leu o livro: você reconhece os personagens na tela. Estão lá Emma e Dexter. Anne Hathaway, fofa por excelência e o belo Jim Sturgess têm uma química danada. Você sente, no entanto, que tudo vai muito rápido. No livro, é uma relação construída com nuances ao longo de trocentas páginas e que, no filme, acabam resumidas em duas horas. Alguns detalhes importantes perdem-se e, com isso, os personagens também perdem em riqueza e complexidade. Para quem não leu o livro, o filme acaba sendo outro, entre tantos, daquela categoria tão criticada aqui no blog: um filme de chorar. Isso talvez explique o público abaixo do esperado e as críticas ruins.

Em resumo: lendo ou não o livro, vale a ida ao cinema. Não espere uma obra prima, não é um Dr. Jivago. Dentro do possível, e dentro do que cabe a um enredo aparentemente banal,  Lone Scherfig soube contar a história. “O apanhador do campo de centeio” é outro livro com uma história banal contada de uma forma fantástica. O autor J. D. Salinger nunca autorizou uma adaptação para o cinema, no que fez, acho, muito bem. Conseguem imaginar este livro emblemático transformado em um filme, traduzido em imagens? Eu não consigo. O cinema faz milagres, mas acho dificílimo a transposição de um texto psicologicamente denso para a telona. Mas isso, é claro, é só uma opinião.

Obs: Contardo Calligaris escreveu um dos seus textos mais sensíveis ao discorrer sobre o livro "Um dia". Se não conferiu, vale a leitura.

domingo, 22 de janeiro de 2012

A mulher que não conseguia esquecer...

Coqueluche é  uma gíria antiga, lá dos anos 40, que queria dizer "o assunto do momento". Só que naqueles tempos, provavelmente, as "coqueluches" duravam mais tempo do que hoje. Por exemplo, a coqueluche da semana que passou foi a tal "Luiza que estava no Canadá" e o suposto abuso sexual do BBB. Na semana que vem, com certeza, a coqueluche será outra. As redes sociais, entre outras coisas, tem esta função: nos informar sobre o assunto do momento. A outra é nos conectar com o passado. Aquela  paixonite que você julgava acabada, músicas que há tempos não ouvia, dores adormecidas. Sinceramente, às vezes acho que o "someone you may know" do facebook parece estar de sacanagem comigo.

Entre as lembranças leves, recentemente o "you may know" me trouxe de volta um muso inspirador do final da minha adolescência. Era muso e só. Bom para olhar e achar fofo. Meu e de uma amiga. Era um moleque bicho grilo cheio de cachos nos cabelos. Aliás, era isso que o fazia muso: os cachos de anjinho. O facebook o trouxe de volta. Sem cachos. Um tiozão careca. Se não fosse os olhos e o "you may know", jamais o reconheceria. Em papo com a mesma amiga daqueles tempos, lamentei o ocorrido.

- Fiquei triste agora.
- Por quê?
- Nosso muso inspirador não existe mais. Você não vai acreditar quem eu encontrei no facebook.
- Quem?
- FU-LA-NI-NHO! Acredita que ele não tem mais os cachos? Aquele menino não existe mais, ficou lá em 92.
- Quem é fulaninho? Não sei quem é. Não lembro.
- ....

Mocinho aleatório que poderia ser o fulaninho
Descrevi, dei detalhes. Ela não lembrou. Contei conversas nossas daqueles tempos. Ela não lembrava de jeito nenhum. Minhas lembranças vívidas e o tal fulaninho dos cachos não fazia o menor sentido para ela. Além do muso, tive a sensação de ter  perdido  a amiga daqueles tempos.

Amigos são testemunhos da nossa história, eu li uma vez. Se ninguém se lembra de algo junto com você, há uma estranha sensação de loucura, como se fosse um universo paralelo: afinal, aquilo aconteceu, ou não? Só eu vivi? O youtube e os sites retrô me salvaram um pouco neste sentido. Desenhos animados meio bizarros que ninguém parecia se recordar estão lá só para me provar que não, eu não estou louca.

-Chamando Carro de Perfume, chamando Carro de Perfume...
Pensei em tudo isso ao ler o livro "A mulher que não consegue esquecer", um relato auto biográfico de Jill Price, que sofre de síndrome hipertiméstica, um caso raro de "super memória". A americana Jill lembra os detalhes de todos os dias que viveu desde os oito anos de idade, do programa que passava na televisão, à cor do sofá e o que jantou. Isso aliado a todos os acontecimentos históricos do dia. Ao ler uma data, imediatamente lhe ocorrem sons, cheiros e as lembranças vívidas. Neste caso, aquela expressão clichê "passou um filme na minha cabeça" faz todo o sentido. Situações como aquela que descrevi acima são corriqueiras. A maior parte dos detalhes que são extremamente reais para Jill não existiram para muitos dos seus amigos e familiares.

A conclusão que se tira do livro é que perder a memória é uma verdadeira tragédia, mas lembrar-se de tudo também é. O conto  "Funes, o memorioso" de Jorge Luis Borges, aborda o tema de forma mais cômica, mas a conclusão é a mesma. Viver lembrando do passado pode te impedir de viver o presente e, por que não, de "sonhar" com o futuro. No entanto, "o brilho eterno de uma mente sem lembranças" também é uma ilusão. Algo precisa ser lembrado (e repetido, e elaborado, como diria o tio Freud).

Quanto ao post, que o facebook e derivados sejam mais generosos conosco e nos ajudem a esquecer (e não a lembrar) coisas que não fazem mais o menor sentido hoje. É um verdadeiro pândego este "someone you may know".

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sobre cafajestes e princesas...

Um fio condutor similar une dois filmes aparentemente muito distintos que assisti agora em Dezembro. À procura de leveza em meio aquele estresse comum nos finais de ano, escolhi o brasileiro "Malu de bicicleta" e o americano "Um lugar qualquer" (Somewhere), ambos de 2010. Leveza não foi bem o que encontrei.

Os dois filmes poderiam ser enquadrados naquele tipo de enredo "boy meets girl" tão comum em muitas obras de ficção: menino encontra garota, tem sua vida transformada por ela e blá, blá, blá. E é isso, mas contado de uma forma diferente, o que faz o brilho das duas tramas. "500 dias com ela", filme já citado "ad infinitum" por aqui, no blog, é um exemplo bacana de como a direção faz mágicas com uma  história que já foi contada inúmeras vezes.

Os protagonistas dos dois filmes são homens entre 30 e 40 anos. São aqueles do tipo irresistível, que eu, você, todo mundo já esbarrou um dia por aí. "Irresistível" pela posição social, pelo sex appeal e talvez até pela suposta inacessibilidade. Marcelo Serrado interpreta Luiz, o empresário da noite paulistana que tem a mulher que quer, na hora em que quer, em "Malu de Bicicleta". Stephen Dorff
é o ator bonitão de filmes de ação Johnny Marco que, antes de ter qualquer desejo, já está sendo prontamente atendido. Um recurso usado nos dois filmes é você ter a perspectiva do protagonista que, por onde passa, as mulheres se curvam, oferecem telefone, se jogam, fazem o diabo. Todas elas mulheres lindas, algumas diferentes, exóticas, gostosas e o escambau. Eles se divertem por uma noite e as descartam. Algumas ficam obcecadas. Nos dois filmes há a figura da louca perseguidora e amargurada que, uma vez seduzida, é abandonada pelo homem irresistível.

Aí surge ela, A garota especial. Em "Malu de bicicleta", ela é Malu (Fernanda de Freitas), a garota descolada e analisada que atropela (literalmente) o protagonista Luiz.


Em "Um lugar qualquer", a garota especial é a filha de Johnny Marco, a fofíssima Elle Faning, que faz a Cleo.


Cleo tem onze anos e Malu deve ter seus vinte e poucos. A idade pouco importa. O que fica explícito nos dois filmes é que ambas parecem ser muito mais maduras do que Johnny e Luiz. É no contraste com elas que os dois personagens masculinos apresentados inicialmente como "fodões irresistíveis" começam a parecer patéticos, inseguros e extremamente imaturos. Há algo de "pureza" também nas duas mulheres. Malu, apesar de ser sexy e namoradeira, é equilibrada, doce e cheia de boas intenções. Cleo é uma pré adolescente apresentada sem qualquer malícia, que se dispõe a cuidar do pai.

O desfecho dos dois filmes não deixa de ser romântico (no caso de Malu) e moralista, por assim dizer, em ambos.  A vida de esbórnia, drogas e libertinagem não faz o menor sentido. O que faz sentido é encontrar uma princesa que mudará sua perspectiva de vida (uma namorada, em "Malu", a filha, em "Um lugar qualquer"). Não é à toa, portanto, que ainda existam homens que busquem princesas por aí. E mulheres que sonhem ser o ponto de mudança na vida de conhecidos cafajestes. Marcelo Rubens Paiva e Sofia Coppola merecem minhas humildes reverências.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sessenta anos de telenovela

Neste mês a telenovela brasileira fez 60 anos. Pode-se dizer que ela é uma senhora respeitável e mantêm-se firme e forte no imaginário popular. Há pelo menos trinta anos as acompanho e, assim como milhares de brasileiros, costumava fazer uma associação entre o momento de vida que atravessava e a novela exibida na ocasião. Houve um tempo em que as trilhas sonoras de personagens marcantes também embalavam cenas do nosso cotidiano. Ficção e vida real se entrelaçavam, de fato. Talvez as novelas de hoje não sejam tão marcantes, uma vez que você a esquece assim que sua sucessora entra no ar. Há alguns anos atrás, você ouvia a música e sabia de quem era o tema. Além disso, era comum haver um luto maior quando o último capítulo de uma (boa) novela era exibido.

Resolvi fazer uma pequena listinha (já que estamos na época das listas) de nove novelas que marcaram minha vida de alguma forma. Talvez não sejam as melhores, em se tratando de teledramaturgia, mas foram as minhas. Vamos a elas:

Pai Herói (1979) - Janete Clair



Já escrevi sobre a novela aqui. André Cajarana (Tony Ramos) é o mocinho que busca a verdadeira história de seu pai, já morto.É a primeira novela de que tenho lembranças nítidas, e eu sequer sabia ler. A abertura era bem marcante e trazia um quebra-cabeças com a figura de um pai dando as mãos para um filho pequeno. A trilha sonora da novela, que trazia desde hits disco a uma balada francesa ("Allouette") me emociona até hoje. Sonhava com o dia em que pudesse ir para a discoteca, lugar em que iam minhas primas, já moças. O primeiro elogio de um menino que recebi foi durante "Pai Herói". Disse ele: "Você é mais bonita que a Carina". Carina era a mocinha interpretada por Elizabeth Savalla. Não existia, na época, elogio melhor.

Guerra do sexos (1983) - Silvio de Abreu

 O  primeiro grande sucesso de Silvio de Abreu, que já havia escrito "Jogo da vida" e "Pecado Rasgado", todas das sete. Silvio de Abreu ainda é um grande apaixonado pela cidade de São Paulo, cenário da maior parte de suas obras.  A primeira vez que fui a São Paulo foi durante a exibição de "Guerra dos sexos", ambientada lá, especialmente no shopping Eldorado, que também tinha o "Parque da Mônica". O caos paulistano, os parques e shoppings, novidades para uma menina do interior, me foram apresentados pelo olhar de Silvio de Abreu. A novela, de temática feminista, era engraçada e tinha um apelo grande com as crianças. E Maitê Proença parecia ser a mulher mais linda do mundo.

Maitê e seu cabelo pigmaleão

Vereda Tropical (1984) - Carlos Lombardi e Silvio de Abreu

A única novela do Lombardi que eu gostei do início ao fim (ainda que não tenha sido totalmente escrita por ele). Tinha a cantina italiana da dona Bina (Georgia Gomide), tinha o Mario Gomes que jogava futebol (o Luca), tinha o Jonas Torres antes de ser o Bacana, tinha o Marcos Frota de Super Téo. Também era uma novela fácil das crianças gostarem. Jonas Torres era o menino disputado por uma mãe solteira e batalhadora (Silvana, de Lucélia Santos) e o avô rico dos "cabelo fofo de algodão" (seu Oliva, de Walmor Chagas). O drama da mãe pobre que queria criar seu filho comovia, embora, no geral, a novela fosse muito leve e engraçada. Mario Gomes chegou a gravar um disco e cantar no Chacrinha por conta de seu sucesso como Luca.

Ti ti ti (1985/86) - Cassiano Gabus Mendes

Cassiano Gabus Mendes, um dos meus novelistas favoritos. "Ti ti ti" marcou minha pré-adolescência. Já estava também mais vaidosa e começava a me interessar por moda, um dos temas principais da novela. Eu realmente acreditei que o Boka Loka faria o garoto que eu gostava me tirar para dançar no bailinho de garagem. Pura ilusão.Victor Valentim me enganou.  A trilha sonora que contava com a cortante "Lover Why" embalou meu primeiro amor não correspondido. Este, a gente nunca esquece.

Roque Santeiro (1985/86) - Dias Gomes e Aguinaldo Silva

Era a novela das oito, enquanto "Ti ti ti" era exibida às sete. Cheguei a usar uma faixa igual a da Porcina. Foi também a época em que fui ao show do Menudo e assisti a alguns shows do primeiro Rock in Rio na tevê. A temática política, abordada na novela, não era muito clara para mim. No entanto, conseguia entender a hipocrisia que reinava naquela cidade pequena. Asa Branca poderia ser muito bem a cidade em que eu morava na época. De fato era um microcosmo em que a gente podia enxergar figuras muito familiares do nosso convívio. Comecei a me interessar por política aí. Noveleira não necessariamente é um ser alienado, mesmo aos 11 anos de idade.

Vale Tudo (1988/89) - Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Leonor Basséres


A franjinha "fashion" de Lídia Brondi

Vale Tudo foi exibida durante a minha oitava série. Tenho o ano todo registrado em uma agenda que eu NÃO joguei fora (me internem). Tomei meu primeiro porre com licor de chocolate (duas taças, três?) e me chamaram de Heleninha Roitman. Cortei a franja como Solange Duprat (Lídia Brondi), mas não conseguia colocar aqueles palitos no cabelo. Cássio Gabus Mendes, que fez o Afonso, era o meu mocinho preferido de novelas, apesar de não ser lindo. Aliás, eu nunca gostei muito dos lindos. Até hoje é assim. Odiava Maria de Fátima com todas as minhas forças, mas tinha simpatia pela dona Odete. Mandei carta para a promoção do caldo Maggi da galinha azul, mas não adivinhei que a assassina era a Leila (Cássia Kiss). Aliás, não lembro quem eu achava que era. Ainda bem, porque cultura inútil tem limites.

Mulheres de Areia (1993) -  Ivani Ribeiro

Segundo ano de faculdade. Queria chegar logo da aula para não perder a novela. Os efeitos especiais que faziam Glória Pires (Ruth e Raquel) contracenar com ela mesma eram novidade na época.
Foi um tempo em que virei "bicho grilo". As saias longas e shorts coloridos com keds brancos faziam o maior sucesso pela USP afora. Os olhos pintados de cajau como os da Malu (Viviane Pasmanter) também. Guilherme Fontes (pasmem!) era o galã da vez. Eu preferia o Leonardo Vieira, que despontava como estrela na novela das oito dos idos de 93 ("Renascer"). A fita K7 com "Easy" (do Faith no more) eu escutei até gastar. Acabou cozinhando dentro do toca-fitas do carro sob o sol escaldante de Ribeirão Preto.

Éramos Seis (1994) - (adaptação de Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho da obra de Maria José Dupré)

Tentativa de resgate do núcleo de teledramaturgia do SBT que deu certo. A novela ganhou o APCA de melhor novela do ano. Era para estrear um dia depois da morte de Ayrton Senna, estréia que foi adiada. Toda a programação da tevê só falava de Senna, inclusive em busca de audiência.
Eu, como fã do livro, assisti a novela do início ao fim. Cheguei a escrever uma carta para o Tarcísio Filho, que interpretou o Alfredo, para elogiar sua atuação. A cena em que o personagem se despede de sua mãe Lola (Irene Ravache) antes de partir para a guerra me fez chorar litros.

Laços de família (2000) - Manoel Carlos

É minha Helena preferida de Manoel Carlos, já falei aqui no blog. Muitos achavam que Vera Fisher não daria conta, mas ela fez bem o papel, ainda que com os seus sussuros de hábito ("Eduuuuuuuuuu..."). O tema de Helena cantada por Daniela Mercury ("Como vai você", de Antônio Marcos) marcou especialmente a minha vida. Também foram marcantes as sátiras feitas pelo Casseta e Planeta, com Bussunda trajando os vestidos com estampa de onça da "dona Helena". Helio de la Peña fazia a Zilda, a empregada de mil e uma utilidades.

O ano 2000 foi um ano em que trabalhei muito, vivi muito e amei também. Pensei até em me mudar para o Rio de Janeiro, a terra de Manoel Carlos, mas fiquei por aqui mesmo.

Bem, são essas. Escolhi nove novelas, a maioria globais e entre os anos 70 e 80, os anos de auge das novelas brasileiras (e também quando eu tinha mais tempo de assistir televisão). E você, qual novela marcou sua vida? Quer dar sua opinião aqui no blog?

domingo, 11 de dezembro de 2011

Eu quero trabalhar no Vídeo Show...

- O que você quer ser quando crescer?
- Psicóloga.
- É? E você sabe o que uma psicóloga faz?
- Ela ajuda as pessoas que estão tristes a ficarem melhor.

Assisti, espantada, a essa entrevista em um desses documentários da tevê a cabo. Houve outras, mas chamou-me a atenção o fato daquela criança de cinco anos querer ser... PSICÓLOGA. Eu nunca tinha visto uma criança querer ser psicóloga, muito menos com cinco anos. Nenhuma criança no meu tempo queria isso e muito menos tentava explicar o que era. Tirando as campeãs bailarina e cantora, a gente brincava de ser vendedora, dentista, secretária, mas de psicológa, jamais. Aliás, eu nem sabia o que era.
Na verdade, assim que fui alfabetizada, respondi a um questionário em que constava a pergunta fatídica "o que você vai ser quando crescer". Eu respondi, mal terminada a "Caminho Suave" que queria ser "escritora". Dois anos depois eu acrescentei que queria ser escritora e "trabalhar no Vídeo Show".

Tássia Camargo (lembram?) a primeira apresentadora do Vídeo Show
O Vídeo Show passava aos domingos e era uma espécie de Fantástico à tarde, um show de variedades com imagens interessantes, inclusive as antigas, do arquivo da Globo. Aliás, esta era a parte que eu mais gostava: o arquivo.


O primeiro logo da Globo
Todas aquelas cenas de novelas antigas de quando eu nem era nascida, aqueles comerciais da Kolinos, da Varig e dos cobertores Paraíba de 1900 e guaraná com rolha... Ah, como eu gostava daquilo. Tanto gostava que cheguei a decorar algumas cenas de "Selva de Pedra" e "Irmãos Coragem", sem nunca ter assistido na íntegra. Minha memória afetiva era a do Vídeo Show.

Depois o programa passou a ser ao sábados e cada vez mais trazia reportagens sobre os programas da Globo e seus bastidores. O principal  quadro das coisas antigas era o "Túnel do Tempo". O que você estava assistindo no dia 29 de Junho de 1979? Impossível não lembrar da Cissa Guimarães e sua voz sussurrada "direto do túnel do tempo".

Aliás, outra das coisas que eu gostava muito era um quadro do "Qual é a música" do eterno Silvio Santos que se chamava "Vitrola Musical". A vitrola tocava umas músicas cheias de chiado para que o Silvio perguntasse: "Fulano de tal, de quem é essa voz??"


Silvio Santos, o pândego

Geralmente era um povo do além (Aracy de Almeida, Orlando Silva, Emilinha Borba, Linda Batista, etc). Foi assim que eu aprendi a reconhecer os cantores do rádio, grandes vozes que fizeram sucesso nos anos 40. Silvio costumava ser sádico: "Esta música foi gravada antes de 1943 ou depois de 1943?" Eu vibrava quando acertava. A princípio, no chute. Depois fui aprendendo.

O tempo passou, o Vídeo Show passou a ser diário e caiu em qualidade e neurônios. Seu Silvio continua firme e forte no seu domingão o quanto pode. E eu, voltando ao diálogo que inicia este post, tornei-me psicóloga ao crescer, o projeto da menininha de cinco anos que não quer ver as pessoas tristes. Minha escolha pela psicanálise me faz lembrar de uma frase que a psicanalista Diana Corso escreveu dia desses:

"Psicanálise não deixa de ser uma oficina de escrita: diários prolixos, contos arrebatados, meticulosas novelas de fôlego. Edito, apenas."
 
 
Não me tornei escritora, nem trabalho no arquivo do Vídeo Show. Sendo uma boa editora das pequenas ficções humanas, dou-me por satisfeita. E feliz pelas crianças, hoje, terem curiosidade em saber o que, afinal, faz um psicólogo.