- Psicóloga.
- É? E você sabe o que uma psicóloga faz?
- Ela ajuda as pessoas que estão tristes a ficarem melhor.
Assisti, espantada, a essa entrevista em um desses documentários da tevê a cabo. Houve outras, mas chamou-me a atenção o fato daquela criança de cinco anos querer ser... PSICÓLOGA. Eu nunca tinha visto uma criança querer ser psicóloga, muito menos com cinco anos. Nenhuma criança no meu tempo queria isso e muito menos tentava explicar o que era. Tirando as campeãs bailarina e cantora, a gente brincava de ser vendedora, dentista, secretária, mas de psicológa, jamais. Aliás, eu nem sabia o que era.
Na verdade, assim que fui alfabetizada, respondi a um questionário em que constava a pergunta fatídica "o que você vai ser quando crescer". Eu respondi, mal terminada a "Caminho Suave" que queria ser "escritora". Dois anos depois eu acrescentei que queria ser escritora e "trabalhar no Vídeo Show".
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| Tássia Camargo (lembram?) a primeira apresentadora do Vídeo Show |
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| O primeiro logo da Globo |
Depois o programa passou a ser ao sábados e cada vez mais trazia reportagens sobre os programas da Globo e seus bastidores. O principal quadro das coisas antigas era o "Túnel do Tempo". O que você estava assistindo no dia 29 de Junho de 1979? Impossível não lembrar da Cissa Guimarães e sua voz sussurrada "direto do túnel do tempo".
Aliás, outra das coisas que eu gostava muito era um quadro do "Qual é a música" do eterno Silvio Santos que se chamava "Vitrola Musical". A vitrola tocava umas músicas cheias de chiado para que o Silvio perguntasse: "Fulano de tal, de quem é essa voz??"
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| Silvio Santos, o pândego |
Geralmente era um povo do além (Aracy de Almeida, Orlando Silva, Emilinha Borba, Linda Batista, etc). Foi assim que eu aprendi a reconhecer os cantores do rádio, grandes vozes que fizeram sucesso nos anos 40. Silvio costumava ser sádico: "Esta música foi gravada antes de 1943 ou depois de 1943?" Eu vibrava quando acertava. A princípio, no chute. Depois fui aprendendo.
O tempo passou, o Vídeo Show passou a ser diário e caiu em qualidade e neurônios. Seu Silvio continua firme e forte no seu domingão o quanto pode. E eu, voltando ao diálogo que inicia este post, tornei-me psicóloga ao crescer, o projeto da menininha de cinco anos que não quer ver as pessoas tristes. Minha escolha pela psicanálise me faz lembrar de uma frase que a psicanalista Diana Corso escreveu dia desses:
"Psicanálise não deixa de ser uma oficina de escrita: diários prolixos, contos arrebatados, meticulosas novelas de fôlego. Edito, apenas."
Não me tornei escritora, nem trabalho no arquivo do Vídeo Show. Sendo uma boa editora das pequenas ficções humanas, dou-me por satisfeita. E feliz pelas crianças, hoje, terem curiosidade em saber o que, afinal, faz um psicólogo.









