domingo, 20 de novembro de 2011

A "Tarântula" de Pedro Almodóvar


"Nossa, de onde alguém tira um roteiro desses? Só poderia ser o Almodóvar..."

Esta foi a primeira frase que disse ao sair do cinema depois de assistir "A pele que habito". No entanto, o roteiro não era de Almodóvar. "A pele que habito" é a adaptação do romance "Tarântula", do francês Thierry Jonquet. Trata-se de um filme com cores fortes, mas menos alegre e infinitamente mais tenso dentro da filmografia de Almodóvar. No entanto, estão lá a paixão, o drama, as belas canções, Marisa Paredes e Antonio Banderas, marcas registradas dos bons filmes do diretor espanhol.

Pelas mãos do diretor que o lançou, Banderas interpreta um soturno cirurgião plástico, um misto de médico e monstro vingador. Ele mantêm aprisionada uma mulher misteriosa e belíssima (Elena Anaya) dentro de uma mansão em Toledo. Alternam-se por ela repulsa, desejo e ternura. Quem, afinal, seria essa mulher?

Um mérito de Almodóvar é tornar os personagens principais incrivelmente humanos, por mais perversos que eles possam parecer. A miséria humana é mostrada de forma explícita e, embora muitas vezes nos sintamos muito distantes daquela realidade, não é difícil nos identificarmos com ela. O livro de Jonquet  mostra os personagens de forma muito mais repugnante. É o ódio em primeiro plano, e não o desejo.

No entanto, justiça seja feita ao livro: ele mantêm, tanto quanto o filme, um bom suspense. Eu já sabia o final e, ainda assim, o lia sobressaltada. "Tarântula", o nome do livro, é a forma como a prisioneira fala de seu algoz. "A pele que habito", o nome do filme, fala muito mais sobre o seu enredo do que possa parecer. O título conta a história. Almodóvar, definitivamente, é gênio.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O amor depois dos sessenta

Isabella Rosselini, a bela filha da atriz Ingrid Bergman e do cineasta Roberto Rosselini, foi "o rosto" da Lâncome por uma década (1982-1992).

Modelo, logo ela se tornou estrela de cinema, atingindo o estrelato dirigida por aquele que seria seu marido, o genial (e louco!) David Lynch em "Veludo Azul"(1986). Isso porque ela já havia sido casada com Martin Scorsese.
Lindíssima, mas de uma beleza nada óbvia, Isabella Rosselini permaneceu na Lâncome até uma idade mais madura. Ela sempre se declarou contra procedimentos estéticos invasivos como cirurgias plásticas, permitindo-se envelhecer naturalmente.

O resultado disso pode ser observado em um filme delicioso que está em cartaz: "Late Bloomers", que ganhou o horroso subtítulo em português "O amor não tem fim". No longa, Isabella interpreta (pasmem!) uma mulher à beira dos sessenta anos e enfrentando as dificuldades inerentes à idade. Quem faz companhia a ela é o outrora super sexy William Hurt que já chegou, olhem só, aos 61 anos. É incrível pensar que são ambos hoje sexagenários.

Os dois atores interpretam um casal que está junto há trinta anos e que se depara com o envelhecimento. Enquanto o arquiteto Adam segue em negativa procurando trabalhar com uma equipe de pessoas mais jovens, Mary se apavora e tem uma hiper reação aos primeiros sinais de esquecimento. A difícil lida com a entrada nos sessenta provoca um afastamento do casal.

No entanto, fiquem tranquilos: o filme é uma comédia, embora trate de questões bem sérias e atuais. Hoje, quem chega aos 60, não está mais no fim da vida. Chamar de terceira idade ou melhor idade, só depois dos 65. No entanto, as duas expressões são péssimas e dispensáveis. Pensar que os sessentões de hoje estavam no auge nos anos 80 dificulta associar essas pessoas à velhice. Pior ainda se forem os outrora símbolos sexuais Isabella Rosselini e William Hurt (aliás, quem aí lembra de "Corpos Ardentes"?).

A comédia inova por tratar-se de um filme de amor de sessentões. Pensar que existe vida amorosa e sexual após os sessenta é um alento. E, sim, Isabella Rosselini continua sexy mesmo com rugas e alguns quilos a mais. E William Hurt continua me despertando os piores (melhores) sentimentos.

domingo, 6 de novembro de 2011

Cenas de um Relacionamento


Não se engane pelo pôster ou pelo título. "Namorados para sempre" (Blue Valentine - 2010) é um doloroso soco no estômago. O título em inglês (algo como "namorado triste") seria mais pertinente. Para mim, que há posts reclamo da previsibilidade das comédias românticas (ou dramáticas), este filme é um alento. Ou não.

Michelle Williams não deu sorte, assim como Nicole Kidman, ao ser indicada ao Oscar no mesmo ano que Natalie Portman com seu "Cisne Negro". É como se ninguém pudesse bater Natalie. Já comentei aqui sobre Nicole, mas Michelle Williams também tem uma atuação emocionante neste filme sobre a deterioração de um casamento. Fazendo um paralelo, ambas interpretam mulheres que sofrem ao se depararem com o naufrágio da união amorosa. Se em "Reencontrando a felicidade", o desencadeador do sofrimento do casal é a perda de um filho, em "Namorados para sempre" este fator não é tão claro. Nos dois filmes, as esposas mostram-se mulheres insatisfeitas, amarguradas e infelizes, ao lado de maridos um tanto quanto sensíveis e desorientados no sentido do que fazer para satisfazê-las. Ao mesmo tempo que facilmente elas podem ser vistas como garotas bacanas que se transformaram em bruxas malvadas, por outro, não é difícil entender porque elas chegaram a esse ponto.

"Namorados para sempre" é dirigido de forma quase documental, com longos closes no casal de protagonistas.  A beleza incomum de ambos fica em segundo plano, tamanha é a miséria humana que invade a tela. Ryan Gosling, que interpreta o doce Dean, é uma surpresa boa. Como eu não conhecia o ator, é como se ele fosse o próprio Dean. A química com Michelle Williams (nos bons e nos maus momentos) chega a ser impressionante.

"Blue Valentine" é um bom filme.Talvez não seja o ideal para assistir em um dia dos namorados, no entanto. É triste constatar que muitas vezes, a mesma característica que encanta quando a paixão acontece, é a mesma que pode causar repugnância, tempos depois. Remeteu-me a outro belo filme ("Foi apenas um sonho"), mas este é assunto para outro post. Será que eu volto para as comédias românticas?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Elia Kazan, o cineasta do desejo

A 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo apresenta, entre outros filmes clássicos, uma seleção de um dos meus diretores preferidos: o controverso Elia Kazan.

Kazan era um cineasta turco, que dirigiu várias obras inesquecíveis em Hollywood como "Uma rua chamada pecado "(1951) e "Sindicato de Ladrões" (1954), além do belíssimo "Vidas Amargas" (1955) que marcou a estréia de James Dean no cinema.Como ex-comunista, denunciou colegas de seu ex-partido no Comitê de Investigações sobre Atividades Anti-Americanas, o que teria marcado sua vida para sempre (ele ficou conhecido como delator e traidor pelos colegas). Ao receber um Oscar em homenagem a sua carreira em 1999, metade do auditório o aplaudiu e metade ficou em silêncio, em franco sinal de protesto.Os brasileiros devem se lembrar desta cena, pois foi no mesmo Oscar que nossa querida Fernanda Montenegro concorreu para melhor atriz.

A obra de Kazan é marcada pela sensualidade, tanto que ficou conhecido por ser o cineasta "do desejo" (e da impossibilidade deste). Contrapôs como ninguém os conflitos individuais e a história, mostrando em seus filmes como os fatos históricos interferem nos dramas pessoais, não sendo mero fundo cenográfico, como na maioria dos filmes.

Além do diretor ser um dos meus preferidos, assim também  é o filme que comentarei a seguir:

O Clamor do sexo - Splendour in the grass (1961)



Este é um filme para guardar; talvez um dos que marcaram mais intensamente minha vida. Mesmo para quem não gosta de filmes clássicos, vale a pena tentar assistí-lo porque não envelheceu, nem parece datado. Além disso, o casal protagonista (Natalie Wood e Warren Beauty) é lindíssimo, talvez dos mais belos da história do cinema, competindo de perto com Alain Delon e Romy Schneider. É, inclusive, histórico, pois marca a estréia do jovem Beatty na tela grande.

A história se passa nos anos 20, antes da Grande Depressão Americana no conservador estado do Texas, EUA. O filme é, basicamente, a história de amor e desejo de dois adolescentes, contrapondo-se às tradições, interesses e valores morais de uma época. A temática passa longe de ser simples. Elia Kazan trabalha o roteiro de forma densa e complexa. Algumas cenas originais do filme foram cortadas, por serem consideradas fortes demais para a época. Consta que o primeiro beijo "francês" (de língua) em um filme hollywodiano foi dado por Warren Beatty e Natalie Wood.

O título do filme em português não tem nada a ver com o original em inglês. "Splendour in the grass" ou "Esplendor na relva" é o título original, que aliás faz parte do poema lido por Natalie Wood em uma das cenas mais comoventes do filme.
O filme ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado em 1962.

 A fofoca dos bastidores é de que Natalie Wood teria se apaixonado perdidamente por seu colega de cena (Beatty) e deixado o marido (Robert Wagner) para viver sua paixão. Beatty, que foi um garanhão por anos em Hollywood, logo enjoou de Natalie, abandonando-a. A atriz, abalada, teria tentado o suicídio. Mais tarde, ela voltaria com o ex-marido, com que ficou até o fim da vida.

* Este post foi adaptado de outro, que  já foi publicado em 2006 no meu antigo blog, citado aí do lado. Elia Kazan, cinco anos depois, ainda figura como meu diretor do coração.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Você ainda aguenta uma comédia romântica?

Minha teimosia taurina me impele a locar comédias românticas mesmo elas sendo irritantes. Assisti a tantas que adivinho as frases, a hora da cena do aeroporto, o momento em que o cara galinha se transforma em príncipe porque encontrou seu "verdadeiro amor". O objetivo das locações é sempre o mesmo: um filme leve para um dia preguiçoso; algo como uma revista CARAS cheia de figuras para você NÃO pensar. O duro é que eu me irrito e não relaxo. Assim como assistir a novelas, que eu adorava. Os clichês, enfim, tem me tirado do sério. Até os da revista CARAS.

Voltando às comédias românticas, existem as variações. Por exemplo, a comédia dramática. Há momentos engraçadinhos, mas o objetivo mesmo é que você chore. Neste gênero estão os péssimos (desculpem) "Doce Novembro" e "P.S. Eu te Amo". Estes estariam na categoria de "filme de doença", também comentado neste post. Ou a moça ou o rapaz do jovem casal tem uma doença grave e blá, blá, blá. Love Story rules.

Daí que eu resolvi assistir "Sobre amor e outras drogas" (2010), filme sobre o qual havia lido críticas bem ácidas e alguns elogios. É "um filme de doença" e é também um filme em que o cara garanhão transforma-se em moço "bão" porque encontrou o verdadeiro amor. No entanto, embora longo, eu não estava rezando para o filme acabar logo.

Muito, acredito, deve-se ao casal protagonista Anne (fofa) Hathaway e Jackie Gyllenhaal. Os dois tem uma química danada e você esquece que ele já tinha sido o marido gay atormentado dela em "O segredo de Brokeback Montain" (aliás, um dos melhores filmes de amor já feitos). Além disso, gostei da crítica nada sutil à indústria farmacêutica de forma geral e à abordagem do mal de Parkinson, uma doença neurológica degenerativa, que, no filme, acomete precocemente a mocinha Maggie.

Eu já havia jogado a toalha em relação às comédias românticas, mesmo com elencos carismáticos. Anne Hathway provou-me o contrário.Sou ainda capaz de sorrir com clichês sem me irritar. No entanto,tenho saudades de Norah Ephron e Meg Ryan. Não existe comédia romântica melhor do que "Harry e Sally". "500 dias com ela" chega bem perto, mas não ganha.

domingo, 11 de setembro de 2011

O homem do futuro

"O homem do futuro" é um filme despretensioso. Não vá, como eu, assistí-lo em um sábado à noite, em um shopping lotado de adolescentes. Não é, necessariamente, um filme para assistir no cinema. Desfrute-o no conforto da sua casa, em meio às lembranças (bacanas ou nem tanto) que, inevitavelmente surgem, em especial para aqueles que não eram mais bebês em 1991. E aí você evita os púberes que ficam gritando para a Alinne Moraes tirar a roupa logo.


Com certeza você já viu filmes similares, especialmente americanos, que brincam com essa estória de viajar no tempo. Impossível não se lembrar de Marty McFly e seu DeLorean viajando para 1955, a época em que seus pais eram jovens. Alguns diálogos do filme de Cláudio Torres remetem imediatamente à trilogia de "De volta para o futuro" que, afinal, já é um super clássico dos anos 80. No entanto, os longínquos anos dourados, mesmo em 1985, era uma época interessante de revisitar, com o surgimento do rock´n roll, a repressão sexual pré-pílula e todos aqueles vestidos rodados e topetes com gel. A década de 90, revisitada em "O homem do futuro", embora seja um tempo que tranformou a forma como a gente se relaciona hoje, não é uma época fácil de identificar. Quando eu penso na forma como nos vestíamos, por exemplo, eu lembro disso:


Os cabelos já não eram tão armados e não havia tanto exagero como nos anos 80, mas estavam lá as horríveis calças semi- bags,os vestidos colados no corpo, os blazers imensos e as camisas coloridas por cima das camisetas também imensas. Fomos perdendo o exagero ao longo da década cuja moda é chamada hoje de minimalista.

Em "O homem do futuro", o diretor optou por filmar quase todas as cenas de 1991 em uma festa à fantasia, onde a reconstituição de época não foi necessária. A música-tema do filme, não por acaso, uma vez que trata justamente do tempo, é "Tempo Perdido", do Legião Urbana. No entanto, a música é de meados dos anos 80. "Creep", a música que embala o romance de Zero e Helena é linda e fala justamente de um cara que não se encaixa, um esquisito (como o personagem). Wagner Moura, que também canta, deu uma roupagem sexy à canção melancólica do Radiohead, lançada em um CD de 1992. É da década de 90, mas virou hino dos solitários de várias gerações.

Preciosismos de época à parte, o filme cumpre o que propõe. É leve, nos remete a uma familiaridade gostosa (com nosso passado, com outros filmes bem conhecidos) e tem Alinne Moraes e Wagner Moura, maravilhosos. Wagner Moura é propositalmente caricato nos três personagens que compõe, mas emociona muito com seu Zero quase adolescente. Como não há maquiagem para rejuvenescê-lo, o ator convence que tem vinte anos com o olhar. É um olhar que você só consegue ter aos 18, 20 anos. Cosméticos e um bom trato podem te manter com a pele boa e o corpinho em forma, mas aquele encantamento diante das coisas e que pode ser visto através dos olhos, não volta mais. Procure lá nas suas fotos mais antigas que você acha. E assista "O homem do futuro" para ver o menino Wagner Moura. Bom ator é isso.

sábado, 3 de setembro de 2011

Muito depois do "Cachorrinho Samba"...

"Como chora essa menina! Que livro é este que você está lendo?"
Depois de toda a coleção do Monteiro Lobato, tudo que eu sabia de literatura eram os livrinhos do Cachorrinho Samba (na Floresta, na Fazenda, no escambau). Maria José Dupré era a autora dos livros que tinham como protagonista o famoso cachorrinho.


A autora, no entanto, era mais reconhecida por outra obra: "Éramos Seis", que contava a história de uma família de classe média baixa de São Paulo entre os anos 20 e 40. A forma como ela narra a passagem do tempo, o crescimento dos filhos e as perdas inerentes à vida da personagem principal, dona Lola, é dolorosamente realista e triste. Eu tinha dez anos quando o li, e até hoje tenho o livro com as páginas manchadas pela choradeira.

que capa de livro é esta, minha gente?
O livro foi adaptado por Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho nas duas versões mais famosas para a televisão. Foram elas em 1977, na Tupi,  com Nicete Bruno interpretando Lola e, em 1994, no SBT, com Irene Ravache.

Lembrei de "Éramos seis" ao concluir um romance bastante elogiado do último ano: "Um dia", do inglês David Nicholls. Mais do que a história de amizade e amor entre Emma e Dexter, o livro, assim como "Éramos seis", fala sobre a passagem do tempo, os projetos de vida renunciados, a diferença entre o que éramos e o que nos tornamos. O livro atravessa os vinte anos de um passado recente, dos anos 80 aos 2000.

Penso que assim como muitos identificaram-se com a mãe brasileira Lola, é fácil nos achar em Emma Morley, a inglesa protagonista de "Um dia". A personagem é palpável, real, humanamente neurótica. Tão humana que nos tornamos amiga dela ao longo da leitura de mais de 400 páginas, quase uma cúmplice. Igualmente neurótico é seu amigo  de tantos anos, o vaidoso e narcisista Dexter. O livro é capaz de te envolver de tal forma, que emociona. A relação entre os dois é viva, com poucas pitadas de romantismo (aliás, bem poucas), mas de um amor realista, possível, repleto de altos e baixos.

Outro mérito do livro é a viagem no tempo que ele promove. Das cartas manuscritas e fitas K7 às máquinas digitais e celulares, a história atravessa as décadas que tiveram, de fato, revoluções por minuto. As músicas e programas de cada época, assim como os acontecimentos políticos de nossa história recente são inseridas de forma natural, sem parecer um emaranhado de citações.

No entanto, há algo ainda no livro que me remete a "Éramos Seis". Não chore, se for capaz. Prepare o lencinho, senão para a leitura, para o filme que vem aí. Aguardemos ansiosamente por Anne Hathaway.