Este é um post antigo que escrevi a propósito de "Fale com ela", de 2006. O blog no qual eu publiquei o texto original está com acesso difícil. Na época, eu escrevi sobre meus diretores favoritos, entre os quais o cineasta espanhol.
Grandes diretores: Pedro Almodóvar
Almodóvar é diretor, ator, roteirista e cantor, dos mais famosos da Espanha desde Carlos Saura e Luis Buñel, referências importantes do cinema espanhol. Seus filmes têm uma marca intensa; há toda uma galeria de personagens "almodovarianos" facilmente reconhecíveis.
Comecei a assistir a seus filmes com "O matador" (1986) e "Áta-me" (1990), ambos com seu ator-fetiche da época: Antonio Banderas, que, aliás, perdeu muito de seu encanto ao "migrar" para Hollywood e casar-se com Melanie Grifith.
Almodóvar costuma tratar os dramas humanos elevados à décima potência, especialmente os do universo feminino. No entanto, seus últimos filmes têm perdido um pouco das "tintas fortes" (leia-se muito sexo, diálogos picantes, humor cáustico e violência) e se tornado mais dramáticos, ternos e auto-biográficos. Embora não tenha visto "Volver" (2006), o mais recente, com Penélope Cruz, gostei muito de alguns dos seus últimos. "Tudo sobre minha mãe" (1999) e "Fale com ela" (2002) são obras primas.
Antes de assistir ao filme, li que "Fale com ela" era um drama "almodovariano" que tratava do universo masculino, após um filme muito "feminino" que havia sido "Tudo sobre minha mãe". Na verdade, eu ainda acredito que Almodóvar fala também da mulher neste, mas através dos olhos e do entendimento de dois homens distintos, mas sensíveis e (por que não?) femininos. Os homens deste filme fogem completamente do estereótipo do macho latino.
A primeira cena do filme dá a idéia do que virá depois. Dois homens sentam-se lado a lado para assistir a um espetáculo de dança. No espetáculo, duas mulheres expressando muito sofrimento dançam e um homem tenta ter acesso às duas, sem sucesso. Enquanto a peça corre, um dos homens da platéia (o jornalista Marco -Darío Grandinetti) chora copiosamente enquanto é observado com curiosidade pelo enfermeiro Benigno (Javier Cámara). Acredito que a temática do filme seja justamente esta: a dificuldade do acesso ao amor de uma mulher e ao que uma mulher deseja. Enquanto Marco, após uma decepção amorosa, ira se envolver com uma mulher fálica, uma toureira com sucessivas relações fracassadas, Benigno está há quatro anos cuidando e amando uma mulher em coma após um acidente de carro. Com esta mulher, aliás, ele mal havia trocado algumas palavras, antes do acidente ocorrer. A vida desses dois homens irá se cruzar novamente ao longo do filme, bem como suas tentativas de amar e compreender as mulheres.
Segundo a psicanalista Sylvia Loeb, (...)"Freud via as mulheres como enigmas de difícil resolução, não conseguia compreendê-las, comparava-as a um imenso continente africano, exótico, diferente, intangível.Um dia, desanimado, perguntou-se: " O que quer uma mulher?" Questão à qual jamais logrou responder satisfatoriamente.Almodóvar responde a essa questão no próprio título de seu extraordinário filme: "fale com ela", diz Almodóvar a Freud: fale com ela."
Curiosidades:
- Este filme foi indicado ao Oscar de melhor direção, mas apenas ganhou o de melhor roteiro, em 2003.
- Caetano Veloso, amigo pessoal de Almodóvar, aparece cantando em cena, neste filme. A música é "Cucurucucu Paloma".
- Há uma outra música, lindíssima ("Por toda minha vida", de Tom e Vinícius) cantada por Elis Regina que serve de pano de fundo para uma grande cena do filme.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
domingo, 20 de novembro de 2011
A "Tarântula" de Pedro Almodóvar
"Nossa, de onde alguém tira um roteiro desses? Só poderia ser o Almodóvar..."
Esta foi a primeira frase que disse ao sair do cinema depois de assistir "A pele que habito". No entanto, o roteiro não era de Almodóvar. "A pele que habito" é a adaptação do romance "Tarântula", do francês Thierry Jonquet. Trata-se de um filme com cores fortes, mas menos alegre e infinitamente mais tenso dentro da filmografia de Almodóvar. No entanto, estão lá a paixão, o drama, as belas canções, Marisa Paredes e Antonio Banderas, marcas registradas dos bons filmes do diretor espanhol.
Pelas mãos do diretor que o lançou, Banderas interpreta um soturno cirurgião plástico, um misto de médico e monstro vingador. Ele mantêm aprisionada uma mulher misteriosa e belíssima (Elena Anaya) dentro de uma mansão em Toledo. Alternam-se por ela repulsa, desejo e ternura. Quem, afinal, seria essa mulher?
Um mérito de Almodóvar é tornar os personagens principais incrivelmente humanos, por mais perversos que eles possam parecer. A miséria humana é mostrada de forma explícita e, embora muitas vezes nos sintamos muito distantes daquela realidade, não é difícil nos identificarmos com ela. O livro de Jonquet mostra os personagens de forma muito mais repugnante. É o ódio em primeiro plano, e não o desejo.
No entanto, justiça seja feita ao livro: ele mantêm, tanto quanto o filme, um bom suspense. Eu já sabia o final e, ainda assim, o lia sobressaltada. "Tarântula", o nome do livro, é a forma como a prisioneira fala de seu algoz. "A pele que habito", o nome do filme, fala muito mais sobre o seu enredo do que possa parecer. O título conta a história. Almodóvar, definitivamente, é gênio.
domingo, 7 de agosto de 2011
O delicioso cinema dos anos 90
Naquele mecanismo comum que a gente tem de idealizar o passado, eu achava, nos anos 90, que filme bom eram os velhões, sejam os da era dourada de Hollywood, sejam os da nouvelle vague francesa. No entanto, eu nunca fui tanto ao cinema como naquela década. As boas salas de cinema ainda não tinham sido abocanhadas pela Igreja Universal e uma penca de filmes bons inovavam em estética e roteiro.
A década já começou "matando a pau" com thrillers como o eletrizante "O silêncio dos inocentes"(1991) e o polêmico "Intinto Selvagem"(1992). A partir da cruzada de pernas de Sharon Stone, a atriz tornou-se conhecida do grande público e foi considerada a mais bela mulher do mundo, com seus traços absolutamente simétricos. Após a brega e hiperbólica década de 80, chique era ser minimalista como Sharon e seus visuais limpos e sem frufrus.
Filmes sobre amizades intensas entre duas mulheres (com conotação implícita ou explicitamente sexual) invadiram os cinemas. Foi a década dos clássicos "Tomates Verdes Fritos"(1991) e de "Thelma e Louise"(1991), além do assustador "Mulher solteira procura"(1992). A temática feminista presente nos dois primeiros filmes já havia sido abordada de outra maneira em "Acusados" (1988) na década anterior. No entanto, "Thelma e Louise", além de render indicações ao Oscar para suas duas protagonistas (Geena Davis e Susan Sarandon) o fez de forma mais marcante, com cenas que se tornaram antológicas. Isso, além de apresentar um novo galã: Brad Pitt.
Steven Spielberg, o diretor que já estava entre os jovens prodígios nos anos 70 e 80, inova com um longa metragem dos bons: "A lista de Schindler" (1993) que fez muitos chorarem no cinema. O filme, praticamente todo filmado em preto e branco faz uma abordagem mais crua do massacre dos judeus durante a segunda guerra. Gerou um documentário e várias controvérsias. A trilha, que conta com o conhecido John Williams era maravilhosa e cortante. Talvez este tenha sido um divisor de águas na carreira de Spielberg que também dirigiu o também vencedor de Oscars "O resgate do soldado Ryan" no final da década.
No entanto, foi em 1994 que a cerimônia do Oscar teve dois favoritos, inovadores a sua maneira. Foi o ano de "Pulp Fiction" e "Forrest Gump". Era um tanto óbvio que a conservadora Academia de Artes Cinematográficas não daria o Oscar ao sangrento e genial "Pulp Fiction", mas valeu a expectativa. Foi o filme que me apresentou a Quentin Tarantino e ressuscitou meu ídolo de outras épocas, John Travolta. A fábula de Forrest Gump acabou levando a melhor. A história do cara comum e limítrofe que atravessa as décadas do século XX interagindo com personagens icônicos sem se dar conta foi, de fato, encantadora. E consagrou Tom Hanks que já ganhara o Oscar no ano anterior pelo igualmente inovador "Philadelphia", que abordava os preconceitos enfrentados por um portador do vírus da AIDS e homossexual. Todos estes filmes tinham trilhas sonoras pra lá de caprichadas.
Enquanto isso, o polonês Kieslowski apresentava sua trilogia (Trois Couleurs: Bleu, Blanc et Rouge) e Almodóvar conquistava o público mundial com seus "Áta-me", "Kika" e "Carne Trêmula", além da visão maravilhosa de Antonio Banderas. Até o cinema nacional dá uma garibada e nos mostra no mesmo ano "Carlota Joaquina" (1995) e "O quatrilho", além de fechar a década com o sensível "Central do Brasil" (1999).
Hoje, os anos 90 já são passado. Nada como o tempo para valorizar o que se passou. E no caso, o cinema foi bom mesmo. E a época também. Saudades imensas do cine Bristol de Ribeirão Preto que, por sinal, virou igreja.
A década já começou "matando a pau" com thrillers como o eletrizante "O silêncio dos inocentes"(1991) e o polêmico "Intinto Selvagem"(1992). A partir da cruzada de pernas de Sharon Stone, a atriz tornou-se conhecida do grande público e foi considerada a mais bela mulher do mundo, com seus traços absolutamente simétricos. Após a brega e hiperbólica década de 80, chique era ser minimalista como Sharon e seus visuais limpos e sem frufrus.
Filmes sobre amizades intensas entre duas mulheres (com conotação implícita ou explicitamente sexual) invadiram os cinemas. Foi a década dos clássicos "Tomates Verdes Fritos"(1991) e de "Thelma e Louise"(1991), além do assustador "Mulher solteira procura"(1992). A temática feminista presente nos dois primeiros filmes já havia sido abordada de outra maneira em "Acusados" (1988) na década anterior. No entanto, "Thelma e Louise", além de render indicações ao Oscar para suas duas protagonistas (Geena Davis e Susan Sarandon) o fez de forma mais marcante, com cenas que se tornaram antológicas. Isso, além de apresentar um novo galã: Brad Pitt.
Steven Spielberg, o diretor que já estava entre os jovens prodígios nos anos 70 e 80, inova com um longa metragem dos bons: "A lista de Schindler" (1993) que fez muitos chorarem no cinema. O filme, praticamente todo filmado em preto e branco faz uma abordagem mais crua do massacre dos judeus durante a segunda guerra. Gerou um documentário e várias controvérsias. A trilha, que conta com o conhecido John Williams era maravilhosa e cortante. Talvez este tenha sido um divisor de águas na carreira de Spielberg que também dirigiu o também vencedor de Oscars "O resgate do soldado Ryan" no final da década.
No entanto, foi em 1994 que a cerimônia do Oscar teve dois favoritos, inovadores a sua maneira. Foi o ano de "Pulp Fiction" e "Forrest Gump". Era um tanto óbvio que a conservadora Academia de Artes Cinematográficas não daria o Oscar ao sangrento e genial "Pulp Fiction", mas valeu a expectativa. Foi o filme que me apresentou a Quentin Tarantino e ressuscitou meu ídolo de outras épocas, John Travolta. A fábula de Forrest Gump acabou levando a melhor. A história do cara comum e limítrofe que atravessa as décadas do século XX interagindo com personagens icônicos sem se dar conta foi, de fato, encantadora. E consagrou Tom Hanks que já ganhara o Oscar no ano anterior pelo igualmente inovador "Philadelphia", que abordava os preconceitos enfrentados por um portador do vírus da AIDS e homossexual. Todos estes filmes tinham trilhas sonoras pra lá de caprichadas.
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| Uma Thurman seduzindo John Travolta em "Pulp Fiction" |
Hoje, os anos 90 já são passado. Nada como o tempo para valorizar o que se passou. E no caso, o cinema foi bom mesmo. E a época também. Saudades imensas do cine Bristol de Ribeirão Preto que, por sinal, virou igreja.
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