Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 19 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Em defesa das mães
Danuza Leão, colunista há anos da Folha de São Paulo, costuma escrever de um modo simples e acessível. Suas crônicas, inclusive, já foram compiladas em livros bastante vendidos. Para mim, a leitura de seus textos sempre havia sido tranquila até a crônica do último domingo, dia 29, que foi incômoda. O tema, muito interessante, é sempre pertinente: a dificuldade que algumas pessoas têm de se responsabilizarem pelas coisas que lhes acontecem de ruim. O inferno, para alguns, seria sempre os outros, escreveu ela. E, de fato, eu, você, todo mundo, conhece alguém que se vê assim: vítima do universo.
No entanto, ao falar sobre o trabalho dos psicanalistas, ela caiu naquele velho estereótipo de que os analistas ajudam seus clientes a culpar as mães e pais pelas infelicidades vida afora: "o problema não é meu, eu sou assim porque meu pai blá, blá, blá". Há bons e maus analistas é bem verdade, mas afirmar que OS psicanalistas trabalham sempre de determinada forma não ajuda. Cai na mesma esparrela de dizer que os psicólogos acham que "tudo traumatiza".
Lendo o infeliz artigo da Danuza, lembrei-me de um filme que assisti recentemente e de que gostei muito "Precisamos falar sobre Kevin". O filme é baseado em um livro de mesmo nome, escrito em 2003 por Lionel Shriver. A personagem principal é Eva, uma mãe não vocacionada, interpretada brilhantemente por Tilda Swinton. A gravidez, desde o início é um tormento e seu filho, mesmo criança, está bem longe de ser um anjo. A relação entre os dois é turbulenta e tensa. Ela nota que há algo de errado com ele desde sempre, mas o pai do garoto não consegue ver. Algo de muito grave acaba acontecendo quando ele chega à adolescência. O filme, contado em flashbacks mostra esta mãe, no presente, assombrada por seu passado. Solitária, ela é hostilizada (e até agredida) pelos habitantes de uma cidade. Apesar disso, ela se mantém resignada. A resignação chega a incomodar. Sentiria-se ela culpada por não ter sido a melhor mãe e, de alguma maneira, ter sido responsável por uma tragédia cometida por seu filho? Por não ter desejado aquele bebê? A narrativa se desenrola de forma a não dar explicações simplistas.
Em suma: o filme traz para discussão a responsabidade dos pais (especialmente da mãe) na trajetória de seus filhos. Embora os americanos gostem de estorinhas com começo, meio e fim, este filme deixa a ferida em aberto. É denso e indigesto. Culpar as mães por tudo é sempre muito simples e fácil e nisso, Danuza Leão tem razão. No entanto, transferir toda a culpa para os psicanalistas é igualmente um erro. Aliás, que falta fez um bom analista para a pobre Eva.
domingo, 22 de abril de 2012
Razões que a razão desconhece
Assisto novela no twitter. Sim, sou uma nerd noveleira. Algumas novelas (e outros programas) são melhores assistidos em bando. Como não moro com um bando de gente, recorro ao twitter. Em tempo real você comenta a cena, lê comentários, atenta-se a um detalhe despercebido, ri com uma observação engraçada, enfim. Pessoas que você nunca viu na vida, mas que são tuiteiros compulsivos, passam a ser seus companheiros de sofá.
Há muito tempo não assistia a uma novela, mas "Avenida Brasil", "a nova das nove", é bem escrita, é engraçada e tem um bom equilíbrio entre uma linha condutora dramática e alguns núcleos cômicos. Entre vários comentários durante os últimos capítulos da semana, duas tuitadas muito semelhantes me chamaram atenção:
"Só em ficção para um Cauã Reymond trocar uma Nathália Dill por uma sem sal como a Débora Falabella."
"Avenida Brasil está extrapolando na ficção. Tessália com Leleco, Adauto com Muricy".
As duas tuitadas (coincidentemente ou não) foram escritas por homens. As duas pressupõem o seguinte: só causa desejo no outro o jovem e belo. Se o belíssimo Cauã tem a opção de duas jovens, logo, escolheria a mais bonita. Se a miss Chapinha Tessália (Débora Nascimento) está com o sessentão Leleco (Marcos Caruso) e não é interesseira, o autor da novela estaria exagerando na licença poética, digamos. O mesmo se diria de Muricy (Eliane Giardini) e Adauto (Juliano Cazarré), um rapaz que poderia ser filho dela. Em cena de ontem em que se insinuou que Tessália e Leleco faziam sexo, tuitadas apareceram na minha timeline expressando nojo.
Bom, que os jovens e belos têm mais facilidade em despertar desejo, isso é inquestionável. A Biologia pode explicar, a Psicologia e a Psicanálise também. Taí uma das razões (senão A RAZÃO) por esta busca frenética pela juventude e beleza. No entanto, a coisa é muito mais complexa. Canso de ver mulheres lindas serem trocadas por outras aparentemente sem graça. Gordinhas que traçam meio mundo (oi, Preta Gil) e nerds estranhíssimos com mulheres estonteantes. E dá-lhe revistas femininas (e agora masculinas!) ensinando como dizer a coisa certa, na hora certa, o que vestir, como mexer no cabelo, etc, etc, para causar desejo no outro. Pode até ajudar, mas que isso é muito pessoal, é. Não há regra geral.
Um conhecido meu acha que uma das mulheres mais sexies do Brasil é a Regina Casé. Minha gente, eu penso tudo da Regina Casé, menos que ela é sexy. Tá certo que ele assistiu aquele montão de filme da Regina Casé no Canal Brasil, mas sexy? Uma das mais sexies do Brasil???
A conclusão de tudo isso é que o desejo não é óbvio como as revistas e os livros de auto ajuda querem pregar. Não há receita única. Que o mundo anda cada vez mais narcisista, eu não tenho dúvida, mas o amor (e o desejo) não acontece só entre iguais. Grande João Emanuel Carneiro que está tentando subverter o estereótipos em uma novela. E quem foi que disse que a ficção não faz pensar?
Há muito tempo não assistia a uma novela, mas "Avenida Brasil", "a nova das nove", é bem escrita, é engraçada e tem um bom equilíbrio entre uma linha condutora dramática e alguns núcleos cômicos. Entre vários comentários durante os últimos capítulos da semana, duas tuitadas muito semelhantes me chamaram atenção:
"Só em ficção para um Cauã Reymond trocar uma Nathália Dill por uma sem sal como a Débora Falabella."
"Avenida Brasil está extrapolando na ficção. Tessália com Leleco, Adauto com Muricy".
As duas tuitadas (coincidentemente ou não) foram escritas por homens. As duas pressupõem o seguinte: só causa desejo no outro o jovem e belo. Se o belíssimo Cauã tem a opção de duas jovens, logo, escolheria a mais bonita. Se a miss Chapinha Tessália (Débora Nascimento) está com o sessentão Leleco (Marcos Caruso) e não é interesseira, o autor da novela estaria exagerando na licença poética, digamos. O mesmo se diria de Muricy (Eliane Giardini) e Adauto (Juliano Cazarré), um rapaz que poderia ser filho dela. Em cena de ontem em que se insinuou que Tessália e Leleco faziam sexo, tuitadas apareceram na minha timeline expressando nojo.
Bom, que os jovens e belos têm mais facilidade em despertar desejo, isso é inquestionável. A Biologia pode explicar, a Psicologia e a Psicanálise também. Taí uma das razões (senão A RAZÃO) por esta busca frenética pela juventude e beleza. No entanto, a coisa é muito mais complexa. Canso de ver mulheres lindas serem trocadas por outras aparentemente sem graça. Gordinhas que traçam meio mundo (oi, Preta Gil) e nerds estranhíssimos com mulheres estonteantes. E dá-lhe revistas femininas (e agora masculinas!) ensinando como dizer a coisa certa, na hora certa, o que vestir, como mexer no cabelo, etc, etc, para causar desejo no outro. Pode até ajudar, mas que isso é muito pessoal, é. Não há regra geral.
Um conhecido meu acha que uma das mulheres mais sexies do Brasil é a Regina Casé. Minha gente, eu penso tudo da Regina Casé, menos que ela é sexy. Tá certo que ele assistiu aquele montão de filme da Regina Casé no Canal Brasil, mas sexy? Uma das mais sexies do Brasil???
A conclusão de tudo isso é que o desejo não é óbvio como as revistas e os livros de auto ajuda querem pregar. Não há receita única. Que o mundo anda cada vez mais narcisista, eu não tenho dúvida, mas o amor (e o desejo) não acontece só entre iguais. Grande João Emanuel Carneiro que está tentando subverter o estereótipos em uma novela. E quem foi que disse que a ficção não faz pensar?
terça-feira, 17 de abril de 2012
Ouça bem... é preciso amar o inútil.
Criar pombos sem pensar em comê-los,
plantar roseiras sem pensar em colher rosas,
escrever sem pensar em publicar,
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas
A música, este céu que promete chuva,
aquela estrelinha que está nascendo, está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada
não guiou os reis magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos
Não faz nada
ninguém repara nela porque ela é inútil,
pois é preciso amar o inutil, porque no inútil está a beleza...
E está Deus...
Inútil é o amor que tenho por você..."
Lygia Fagundes Telles
(Ciranda de Pedra)
Criar pombos sem pensar em comê-los,
plantar roseiras sem pensar em colher rosas,
escrever sem pensar em publicar,
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas
A música, este céu que promete chuva,
aquela estrelinha que está nascendo, está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada
não guiou os reis magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos
Não faz nada
ninguém repara nela porque ela é inútil,
pois é preciso amar o inutil, porque no inútil está a beleza...
E está Deus...
Inútil é o amor que tenho por você..."
Lygia Fagundes Telles
(Ciranda de Pedra)
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Freud, Jung e o tal método perigoso
Desconfiada, embora com esperanças de um bom filme, fui assistir a "Um método perigoso"(2011), de David Cronemberg, diretor famoso por longas polêmicos. Entre seus filmes estão os perturbadores "A mosca"(1986) e "Crash-estranhos prazeres"(1996), apenas para citar alguns. O enredo de "Um método perigoso" trata dos primórdios da Psicanálise, da ruptura dolorosa entre Freud e Jung, e do envolvimento de Jung com uma de suas pacientes, Sabina Spielrein.
A pré-história da Psicanálise já havia sido contada no cinema por John Houston, através do problemático "Freud, além da alma"(1962). Houve dificuldades com o roteiro (escrito por Jean Paul Sartre) e com o ator principal, Montgomery Clift. Excelente intérprete, Clift estava extremamente debilitado (física e emocionalmente) e teria dado problemas durante as gravações. É perceptível a fragilidade e a melancolia do ator para quem assiste o filme. Isso, sem dúvida, prejudicou sua interpretação de Sigmund Freud e ajudou a tornar o filme ainda mais sombrio.
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| Montgomery Clift e Suzanah York |
A história entre Jung e Sabina Spielrein já fora contada em outro longa: “Jornada da Alma” (2003), com uma abordagem mais “romântica”, digamos, da relação do psicanalista com sua paciente. A protagonista de “Jornada da alma” é Sabina e sua trajetória brilhante (embora pouco conhecida) como psicanalista da qual, é claro, fazem parte Jung e Freud.
Em "Um método perigoso", o protagonista é Carl Gustav Jung em sua juventude. É a história dele que é contada em primeiro plano. Jung é interpretado por um dos "atores do momento", o belo Michael Fassbender. Defendendo Freud, está o ótimo Viggo Mortensen, e Keira Knightley interpreta a Sabina Spielrein.
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| Michael Fassbender (Jung) e Viggo Mortensen (Freud) |
Eu cheguei a ouvir certas piadas a respeito de escalarem galãs para interpretarem pensadores sisudos (e barbados) de outros tempos. No entanto, o suíço Jung era um "tipão charmoso", de fato. "Jung era um homem de uma poderosa inteligência (...) dotado de grande força física, apreciava os contatos humanos, os exercícios corporais e o convívio das mulheres(...)", escreveu a psicanalista Elizabeth Roudinesco em seu dicionário de Psicanálise.
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| O jovem Jung, quando ainda era "o príncipe herdeiro" de Freud |
Para quem não é da área Psi, o filme pode parecer enfadonho, especialmente quando mostra os diálogos sobre teoria psicanalítica entre Freud e Jung, assim como entre os dois e Sabina. Os diálogos foram baseados em uma troca intensa de correspondência e muito fiel ao que, de fato, a História conta. Houve risos no cinema em alguns momentos, pois o início da psicanálise teve seus momentos assustadores e patéticos, especialmente no que tange ao manejo da transferência. Jung não conseguiu distinguir claramente amor e transferência, e o tratamento resultou em uma paixão incontrolável entre o terapeuta e sua paciente. Escreveu ele a Freud em 1909, sobre Sabina: "Ela fez um terrível escândalo, só porque me recusei o prazer de conceber um filho com ela. Sempre me mantive, com ela, nos limites de um gentleman, mas apesar de tudo não me sinto muito inocente aos olhos de minha consciência, um pouco sensível demais, e é isso que mais me perturba, pois minhas intenções sempre foram muito puras. Mas você bem sabe que o diabo usa as melhores coisas para produzir lama".
Por conta do amor por Jung (e apesar dele), Sabina curou-se de seus sintomas e tornou-se médica e psicanalista. Inventou a noção de pulsão destrutiva e sádica, que originou a pulsão de morte. Amorosamente ligada a Jung, depois ela se afinou, teoricamente, mais a Freud. Ambos sofreram com a ruptura com Jung (Freud o via como filho e sucessor, Sabina queria um filho dele).
Escreveu Freud a judia Sabina, após a ruptura: "Da minha parte, como você sabe, estou curado de qualquer predileção pelos arianos e quero crer que, se o seu filho for homem, ele se tornará um inabalável sionista. Ele tem que ser moreno, ou então tornar-se moreno. Chega de cabeças louras (...) Somos e continuamos a ser judeus."
O filme termina antes da Primeira Guerra mundial e, portanto, antes de grandes conceitos da psicanálise serem desenvolvidos, tanto por Jung, como por Freud. Jung deu o nome de Psicologia analítica à teoria que passou a embasar sua prática em psicoterapia. Sabina casou-se com outro homem, teve filhos e foi uma das precursoras do trabalho em psicanálise com crianças.
Saí do cinema com a sensação de que muito do que fora contado no filme, especialmente no que dizia respeito à vida pessoal daqueles figurões, era uma licença poética de Cronemberg. Qual não foi minha surpresa quando, ao estudar, percebi que a ficção, de fato, perde para a vida real. Ainda respeito muito mais Freud como teórico, mas a figura pessoal de Jung é infinitamente mais fascinante.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Olho neles, meninas!
Marilyn Monroe foi uma atriz que ficou conhecida pelo seu imenso carisma, mas também por seus inúmeros problemas pessoais que acabavam prejudicando as gravações de muitos dos seus filmes. Durante as gravações de seu último longa "Something´s Got to Give", ela foi demitida devido aos constantes atrasos. O diretor Billy Wilder fez um célebre protesto: "Tenho uma tia-avó na Áustria que é pontualíssima, mas ninguém pagaria um centavo para vê-la". E as pessoas, de fato, iam para o cinema ver Marilyn, independente do filme ser uma bomba ou não.Lembrando desta frase conhecida, eu fiquei pensando: hoje, a gente chega a pagar um ingresso só por conta de um ator (atriz)?
Nos anos 80 e 90 alguns atores valiam milhões porque eram sinal de lucro certo. Tom Cruise, Tom Hanks e Julia Roberts estavam entre eles. Eu cheguei a assistir filmes chatíssimos como "Dias de Trovão", "Coquetel" e "A cor do dinheiro" por conta do Tom Cruise. Aliás, já fiz coisas piores por conta dele, mas abafa o caso.
Já mais velha, eu ia muito ao cinema por conta de uma trinca de atores bons: Robert Downey Jr., John Cusack e Edward Norton. Hoje, não sei se algum deles me faria pagar um ingresso (ou locação). Não dá para acreditar que o cult John Cusack anda fazendo filmes lixo como "A ressaca" e similares. Robert de Niro´s rules, sabe como é.
Eis que em pleno 2012 eu me vejo encantada por uma nova trinca da atores bons que tem valido o filme. Bora ver quem são?
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| Ryan Gosling em cena de "Drive" |
Ryan Gosling já ganhou alguns destes títulos bestas de "homem mais sexy vivo". Eu o descobri em um filme denso ("Namorados para sempre") que valeu um post. Está nos cinemas ao lado de Carey Mulligan em "Drive". Já fez comédias mais leves como "Amor a toda prova", mas seu forte é mesmo o anti-herói, o mocinho cheio de fragilidades evidentes. O olhar de cachorro pidão ajuda (e muito). Foi sumariamente ignorado no Oscar deste ano, mas recebeu elogios rasgados da crítica especializada.
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| Michael Fassbender em "Shame" |
Michael Fassbender chamou-me a atenção no trailer de "A dangerous method", de David Cronemberg, onde interpreta o psicanalista Carl Jung. Jung era, de fato, lindo de morrer. O filme conta o envolvimento de Jung com Sabina Spielrein, sua paciente. Além deste longa, Fassbender tem dado o que falar por conta do filme "Shame", em que interpreta um viciado em sexo. Sua interpretação e entrega ao papel (além das famosas cenas de nu frontal) tem sido bastante comentadas. Os dois filmes estreiam até o final do mês no Brasil.
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| Daniel Craig S2 |
Talvez o mais conhecido da lista, Daniel Craig é o nosso Steve McQueen dos anos 2000. Mais conhecido por ser o primeiro 007 loiro do cinema, Craig pode ser visto também no primeiro filme americano da trilogia Millenium (Os homens que não amavam as mulheres). Além dos filmes de ação, ele também já fez dramas psicológicos como "Sylvia" com Gwyneth Paltrow, onde interpretou o poeta Ted Hughes. É o típico ator que transpira testosterona, sem ser necessariamente bonito. Parece ter o rosto esculpido à canivete, como, aliás, era McQueen. É, atualmente, o meu preferido da listinha, mas isso pode mudar.
E aí? Gostaram da trinca? Já procuraram por filmes só por conta de um ator preferido? Comentem, dêem seus pitacos. Só não vale "Salsa", o clássico imbatível de Robby Rosa.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
As canções
"Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração (...)"
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração (...)"
Meu primeiro emprego como psicóloga foi em um CAPS, uma época bastante feliz e marcante. A coordenadora do serviço, em um dos meus primeiros dias, comunicou-me que eu poderia escolher uma atividade para coordenar junto aos usuários, além dos grupos que eu já participava e dos meus atendimentos individuais. Não seria um grupo psicoterapêutico, mas um espaço que eu teria junto com os pacientes para ouví-los um pouco, conhecê-los mais. Eu poderia escolher uma atividade como mediadora deste contato, sem, é claro, desempenhar a função da terapeuta ocupacional. Chegava a época do Natal e já havia oficinas de guirlandas e cartões. Não identificava em mim nenhuma habilidade especial, mas tive uma idéia. Propus que a cada encontro um dos pacientes escolhesse uma música que remetesse a um momento significativo da vida. Eu providenciaria a música e a letra; cantaríamos juntos e ouviríamos um pouco as estórias relacionadas àquela música. Na minha pouca experiência como psicóloga, acreditei que seria um grupo leve e descontraído, como deveria ser. Não era (e nem poderia) ser um grupo psicoterapêutico.
O grupo começou bem. O primeiro encontro foi muito alegre e a trilha sonora foi "Saudades da minha terra", uma canção sertaneja que traz a nostalgia de quem já morou no campo e agora morava na cidade. Era justamente a história da paciente, já com mais de cinquenta anos, que nos contou estórias da sua vida com o pai e irmãos. Rimos juntos, pacientes com história de vida semelhante trocaram idéias. Terminado o encontro, perguntei quem gostaria de escolher a música para o próximo. Outra paciente se manifestou e o cantor escolhido foi, nada mais, nada menos, que ele:
Aí, meus caros, a coisa ferrou. Robertão mexe com o imaginário brasileiro. Não é à toa que, em todos os anos, pessoas de diversas idades choram ao vê-lo cantar. Letras simples, melodia fácil, muitas músicas que marcaram a vida de MUITA gente. Você pode até não gostar, mas o poder do homem é grande. A música escolhida foi "Como é grande o meu amor por você" e a atividade, até então, alegre, virou um espaço de catarse, a maioria das mulheres chorou, alguns pacientes saíram da sala, tudo muito, muito triste. Não havia (por um cuidado nosso) pacientes psicóticos no grupo, mas todos eles estavam bastante vulneráveis, obviamente. Menosprezei o efeito que a memória afetiva despertada pela música tivesse naquelas pessoas. O grupo não acabou, mas aquela experiência me marcou profundamente e contribuiu para que eu fosse mais cuidadosa no meu exercício profissional.
Não houve como não lembrar desses tempos ao assistir o belíssimo documentário de Eduardo Coutinho: "As canções".
Coutinho que tem, entre seus trabalhos, o delicioso "Edifício Master", fez um anúncio no Rio de Janeiro pedindo que voluntários comparecessem para cantar músicas que haviam, de alguma forma, marcado suas vidas. Houve bastante procura, entre pessoas muito jovens e idosas. Os melhores depoimentos, entremeados pelas canções, estão no documentário. Há estórias alegres e otimistas, mas algumas pessoas tiveram de interromper sua narrativa entre lágrimas. Muitos delas são tristes. Impressiona o número de canções do onipresente Roberto Carlos. E impressiona mais ainda o número de mulheres abandonadas. E, ao contrário do que possa parecer, essas mulheres não parecem melodramáticas ou até, digamos, chatas, com o drama vivido. É possível, mesmo nos casos aparentemente bizarros, identificar-se com elas e seus amores perdidos, às vezes há mais de quarenta anos.
Penso que o documentarista tem algo do psicanalista. A intervenção deve ser mínima e pontual. O cenário para os depoimentos não tinha como ser mais neutro: uma poltrona preta com uma cortina (preta) atrás. Nenhum instrumento acompanhava as canções. A vontade que tive foi de saber mais sobre cada uma daquelas pessoas, quis fazer perguntas. Certamente, se fosse a psicanalista ali, as faria. E, talvez, se Coutinho tivesse gravado este documentário há doze anos, eu pensaria mais de uma vez antes de fazer a fatídica (e por que não, bela?) "oficina de música". Nunca, jamais menospreze o poder de uma canção.
* este post foi publicado, originalmente, em Fevereiro de 2012. Publico novamente em homenagem a Eduardo Coutinho, um dos maiores cineastas que o Brasil já teve.
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