segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Julie e Julia



"Julie e Julia" tinha tudo para ser um filme "menor", mas não é. Também tem cara de filme "para mulheres", mas não é o caso. Com um roteiro bem amarradinho, ele conta a história de duas mulheres separadas no tempo, mas unidas por uma paixão: a culinária. No entanto, mais do que terminar de assisti-lo e ter vontade de cozinhar, eu senti vontade de fazer muitas coisas. De começar e terminar projetos,sejam eles quais forem.

É incrível como nos filmes americanos as pessoas estão sempre trabalhando. Cozinhando, cuidando do jardim, costurando, escrevendo, os personagens estão às voltas com algo enquanto desenvolvem o enredo do filme. Nas novelas brasileiras, o cenário sempre é a mesa do café, o jantar, a rua, a praia. Não sou uma apaixonada pelos filmes americanos atuais, mas, curiosamente, eles me incitam o desejo de trabalhar.

As duas personagens citadas acima (e baseadas em pessoas reais) tinham vários pontos contra para realizarem seus projetos. E foram em frente. Contavam, sim, com dois maridos maravilhosos (uns santos, vamos combinar) e que tinham uma enorme paciência com tamanha obstinação.

Talvez por ser um tanto quanto atrapalhada com tarefas domésticas (embora eu me vire), sou profunda admiradora daquelas que possuem talento para tanto. Acreditem, há pessoas que são artistas em arrumar uma cozinha e lavar bem a pia. De varrer bem um chão. De passar um pano como ninguém. De dar aquele pontinho imperceptível na camisa rasgada. De consertar um casaquinho de crochê. De engomar uma camisa como ninguém. Para mim, elas são mágicas. Adoro pessoas que criam. Seja na costura, na cozinha, na jardinagem. Minhas plantinhas não sobrevivem por um mês.

Concluindo: este post é um elogio a quem conclui projetos, grandiosos ou não. E também (as feministas que me perdoem) às mulheres que sabem cuidar bem de uma casa. Enquanto aprendo como se faz, escrevo. É o que, afinal, eu consigo produzir

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O que aconteceu com Geraldo Vandré?

Por desinformação ou, talvez, por alguma informação errada, eu acreditava que Geraldo Vandré, grande artista da MPB, estava morto. Foi com bastante surpresa que descobri, através de um intervalo da Globo News que ele estaria vivo e que, depois de 40 anos, voltaria a falar com a imprensa. Era o programa "Dossiê Globo News".
Geraldo Vandré, para quem não sabe, compôs a obra-prima "Disparada" e o hino de uma geração: "Caminhando (Para não dizer que não falei das flores)". É dele a célebre frase "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Tinha em Vandré, desde a adolescência, a imagem do grande poeta e do engajado político, daquele que não se calava diante do que acontecia no seu país. Lembro-me de meu querido professor de História falando do sofrimento do artista, que teria passado por torturas físicas e psicológicas terríveis por conta de uma canção.Talvez viesse daí a idéia de que ele estivesse morto.
Assisti à entrevista com um aperto no peito. Estava lá um senhor de cabelos brancos de postura encolhida e olhar distante, vestindo uma camiseta com o emblema da Força Aérea Brasileira. Poucas vezes alterou-se durante as perguntas. Não expressava dor, melancolia, raiva, irritação ou doçura. Parecia não haver ninguém naquele corpo. Ele vive sozinho hoje, aos 75 anos com, ao que parece, ajuda da FAB, honorários de sua produção artística e aposentadoria de quando era funcionário público. Não se casou, não teve filhos e tem poucos amigos. Cuida da mãe que ainda é viva.
Ao falar da comoção causada por sua canção emblemática (Caminhando) no Maracanãzinho, ele pede: "deve ter o VT lá na sua estação, eu queria ver". O VT não foi encontrado.
Nega que foi militante e que suas músicas eram de protesto, inclusive "Caminhando". Disse não ter sido maltratado pelas Forças Armadas. Alega não ter gravado mais porque o Brasil ,depois que voltou do exílio não é o mesmo Brasil de 1968. Repete várias vezes algumas frases, há algum resquício de uma pessoa diferenciada intelectualmente aqui e ali, mas é só. O raciocínio parece não chegar a lugar nenhum.
Teria sido Vandré uma criação? O que aconteceu com ele? Uma geração inteira projetou demais em sua figura ou ele perdeu-se em algum lugar? Houve de fato, tortura? Se sim, o que foi feito de Vandré? Utilizo uma frase do próprio para terminar este post: "Vandré foi exilado em 68 e nunca mais voltou".

* Vale apena assistir a esse emocionante vídeo com cenas da época, embaladas por aquela que foi o hino nacional de uma geração.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Uma noite em 67...


Ainda que você não seja saudosista como eu, vá assistir "Uma noite em 67". Uma preciosidade e tem que assistir no cinema mesmo. Eu me senti nos auditórios da Record, tive vontade de bater palmas, gritar e cantar junto, torcer e vaiar. Tá, sou louca, mas que vale a pena, vale. Na televisão, não adianta, não tem o mesmo efeito.
Logo no início do documentário, você vê Edu Lobo cantando o seu "Ponteio" e a platéia enlouquecida, gritando o nome de Edu. A platéia, esta que era um personagem a parte, capaz de descompensar Sérgio Ricardo e seu violão. Pobre Sérgio Ricardo, que ficou marcado pela vaia por toda uma vida.
É muito engraçado ver os pra lá de grisalhos Roberto, Caetano, Gil e Chico como moleques. Eram uns meninos, fazendo piadas nos bastidores, brincando com o nervosismo. Todo mundo já foi menino e iniciante um dia, até mesmo Roberto, Caetano, Gil e Chico. E Roberto, ah o Roberto, o que o tempo fez dele?
Triste é constatar que um dos nossos maiores letristas, Chico Buarque, é um homem de poucas, muito poucas palavras. Sabia que eram poucas, não sabia que eram tão poucas. Ele diz não se lembrar da letra de "Roda Viva", uma das minhas canções preferidas, das mais lindas. Ele só se lembra do refrão e olhe lá. Percebi que sinto mais falta da juventude de 67, eu, que nem era nascida, do que ele, que compôs um dos hinos daquela geração. Talvez eu sinta falta de uma passado que não existiu, de uma juventude aparentemente tão mais colorida, criativa e aguerrida do que a minha. Idealizada, sem dúvida.

O cinema estava cheio, entre jovenzinhos e pessoas bem mais velhas. Comprei o último ingresso e a sessão seguinte estaria igualmente lotada. Bom revisitar um tempo em que festivais de boas canções faziam as vezes de Big Brother.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De outro mundo...

Há exatos 27 anos, meu pai saiu para um vôo e não voltou mais. Lembro da capa de uma revista Manchete (a revista preferida dele) que estava na sala durante aqueles dias tristes. Tinha o Michael Jackson na capa. Preto.

Penso que meu pai foi embora desta vida sem ver uma série de coisas. Não viu o crescimento da AIDS (aliás, ele nem sabia o que era a doença, provavelmente), não descobriu que Rock Hudson era gay, não acompanhou a queda do muro de Berlim pela tevê, não viu o Brasil ser tetra, penta. Não conheceu os Ronaldinhos, nem o Senna.Também não chegou a ver o movimento pelas Diretas-Já, a eleição de Tancredo, a posse do vice, o plano Cruzado, o Cruzado novo, o Collor vencendo o Lula, mas saindo mais cedo. Meu pai trouxe para nós um Atari importado quando ninguém tinha, e também um aparelho de fax. No entanto, não chegou a imaginar o que seria a internet e nunca, nunca teve um celular. No mundo das revistas Playboys do meu pai (e ele tinha muitas), não existia photoshop. Lá estavam as musas das pornochanchadas brasileiras e também estrelas de novela. Meu pai não chegou a ver o renascimento do cinema nacional. Naqueles anos, filme brasileiro era ruim.

Anos 70 e começo de 80 para mim são sinônimos de infância. Infância com meu pai. Depois disso, parece que passei para outra dimensão, entrei em outra etapa, outra história. Dia desses, minha mãe me olhou com cara de surpresa: "Filha, seu pai não chegou nem a ver o Movimento das Diretas". Ah, quantas coisas ele deixou de ver. Olhando assim, penso que ele viveu em outro mundo mesmo. Um mundo que acabou.

* texto originalmente publicado no meu antigo blog.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quem tem medo de Elizabeth Taylor?

Arthur Xexéo, grande jornalista, comentou dia desses em um programa de tevê a respeito de um novo filme biográfico. Tratava-se de um filme sobre Elizabeth Taylor e sua história conturbadíssima com Richard Burton. A princípio, ele disse ter pensado tratar-se destes filmes bem ralé, com atores desconhecidos e roteirinho pobre. Aliás, destes, encontra-se aos montes por aí, é verdade. Ao saber que o longa seria dirigido por Mike Nichols, mudou de idéia e ficou interessado.


Mike Nichols, para quem não sabe, dirigiu Liz Taylor e Richard Burton quando os dois fizeram o premiadíssimo “Quem tem medo de Virginia Wolf?”. O filme foi rodado em 1966 e ele, enquanto diretor, deve ter acompanhado de perto a relação apaixonada e bélica do casal. Este filme aliás, trata da história de um casal em crise. Reza a lenda que, em meio as filmagens, não se sabia quando eram os personagens e quando eram os próprios atores que brigavam.

Pois bem, Mike Nichols na direção, quem colocar no elenco? Diretor estelar, elenco estelar. Mas quem interpretaria Elizabeth Taylor? Entre as mais cotadas estariam Angelina Jolie e Catherine Zeta-Jones. Para o charmoso galês Richard Burton, pensaram no quase sósia (e igualmente charmoso) Clive Owen e no fofíssimo Colin Firth. Perguntei para minha mãe, fã de Liz, o que ela achava das escolhas. Sábia, disse ela: Angelina Jolie é linda, mas é Angelina Jolie. Não é Elizabeth Taylor. De fato.

Arthur Xexéo estava animadíssimo com a possibilidade, e eu também. Eis que vem Elizabeth Taylor, a própria, e joga um balde de água fria em todo mundo. A bocuda Liz, que também tem twitter, tuitou dia desses que antes que ela morresse, ninguém iria interpretá-la, além dela mesma. Que sobre Richard e ela, ninguém iria filmar nada. Tempos incríveis esses nossos que eu recebo notícias da minha atriz vintage favorita por ela mesma. E, realmente, não existe ninguém igual Elizabeth Taylor. Angelina Jolie é Angelina Jolie. E ponto final.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Reserva pra mim um hotel limpinho...

Tenho um grande amigo que, como eu, deleita-se com novelas antigas, especialmente as clássicas. Já fui Maria de Fátima e ele, Raquel Accioly na reprodução involuntária de uma cena de "Vale Tudo" durante um almoço. A gente se acabou de rir, mas o povo ao redor pensou, realmente, que estávamos brigando. Ainda mais que, aproveitando estarmos inspirados por Regina Duarte, lembramos de uma outra briga dela, como Malu, em Malu Mulher. Regina, nos dizeres de José Simão, já foi "a gralha das oito", seja como Raquel, as Helenas, Malu ou Porcina. Ninguém berrava como Regina. É o nosso momento terapêutico.
E voltando a "Vale Tudo", novas cenas foram acrescentadas no youtube por gente que gosta muito de novela. A grande Beatriz Segall, a respeito de sua personagem icônica Odete Roitman, disse, em entrevista que o grande sucesso de uma vilã deve-se à naturalidade com que se constrói o personagem. Ela, a personagem, não acha que é má. Ela realmente acredita que seu jeito de ver as coisas são óbvias e correspondem à verdade. Odete Roitman falava os maiores absurdos e acreditava naquilo, o que torna tudo muito engraçado. Você chega a concordar com ela.
Quer relembrar as pérolas de Odete? Vejam só como ela era profética:

as melhores cenas de Odete Roitmann

E reparem na simplicidade dos cenários e das roupas. A Globo e o mundo todo era mais pobrinho. Inclusive as vilãs de Gilberto Braga.

domingo, 16 de maio de 2010

O segredo dos seus olhos

"Brasileiro não tem memória", dizem muitos. Eu concordo em partes quando converso com pessoas que nem sabem que houve uma ditadura no Brasil, ou que elogiam Fernando Collor e Sarney. Em contrapartida, sinto que nossos vizinhos chilenos e argentinos sofrem de reminescências. A impressão que tenho é que são povos mais melancólicos, passionais, saudosistas. Fazendo uma comparação grosseira, o ritmo símbolo do Brasil é o samba, enquanto que o da Argentina, por exemplo, é o trágico tango.Tudo isso para falar do filme mais emocionante que assisti nos últimos, sei lá, dez anos. "O segredo dos seus olhos" (2009), filme argentino que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro merece, de fato, todas glórias que recebeu. Há uma melancolia cortante que percorre todo o filme, apesar de te fazer rir com gosto em muitos trechos.

Os dois personagens masculinos principais sofrem com suas lembranças, associadas às mulheres que amaram e com as quais não puderam vivenciar e concluir uma história. O pano de fundo é o cinzento ano de 1974, auge da ditadura argentina (e também brasileira). O filme trata de histórias dolorosamente interrompidas. Em suma, trata-se de um filme de amor, ainda que seja também um drama e um bom suspense. Riso e choro se alternam na sala de cinema.

Apesar da estrela do filme ser o ótimo Ricardo Darín  (ator fetiche do diretor Juan Jose Campanella), a fragilidade impressa  por Pablo Rago comove. Aliás, esta ator participou de outro grande filme argentino, ganhador do Oscar de 86, o belíssimo "A história oficial", também passado nos tempos da ditadura. É um legítimo filme "de cinema", para assistir no escuro, olhando para uma tela grande, sem pausas para recuperar o fôlego. Vale a pena.