terça-feira, 9 de julho de 2013

Apostas

"A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio" (Carlos Drummond de Andrade)


Foi em Novembro do ano passado. Estava a caminho do trabalho como de hábito, quando meu carro parou. Falta de gasolina, constatei, um motivo besta e vergonhoso. Era uma rodovia e faltavam alguns quilômetros para que eu chegasse ao posto de combustível mais próximo. Sol a pino, salto sete. Quem mandou ser distraída? Ninguém parava para ajudar. Eis que um rapaz de bicicleta me aborda. Rapaz, na verdade que deveria ter uns trinta anos, com corpo e cara de cinquenta. Imediatamente me encolhi, como é meu costume. Percebi que havia lido a oferta de ajuda como um perigo e não como uma salvação para a situação ridícula em que me encontrava. "Ajuda, moça?" - ele insistiu. Eu ensaiei um sim. Ele disse que poderia buscar gasolina no posto mais próximo se eu quisesse. Precisava somente de um dinheiro para a gasolina, nada além. Peguei vinte reais na carteira enquanto vivia um pequeno dilema. O conflito valia vinte reais, mas talvez bem mais que isso. Aquele desconhecido iria pedalando debaixo de um calor senegalês para buscar gasolina, ou iria embora com o dinheiro? Fiz, internamente, a aposta. Sim, ele iria me ajudar. Aí, enfim, dei os vinte reais e resolvi aguardar. Critérios subjetivos me guiavam. Os olhos dele. Eram olhos bons, pensei. Mas quem vê olhos, vê coração?

Recentemente, quando a novela "Caminho das Índias" estava no ar, Glória Perez quis abordar o tema "psicopatia" através do personagem Irene, de Letícia Sabatella. Ao mesmo tempo, pipocavam reportagens na internet e em revistas dizendo "que o psicopata pode estar ao seu lado" e "como identificar se (seu namorado, colega de trabalho, etc) é um psicopata". Foi uma verdadeira "epidemia de psicopatas". Como se a paranóia já não existisse em algum grau. Maus e invejosos são sempre os outros, basta observar em muitas das frases postadas no facebook.

Uma amiga querida costuma dizer que a maioria das pessoas é digna de confiança até que se prove o contrário. Sair por aí esbravejando que o mundo é cruel e que as pessoas, em sua maioria, são más é algo um tanto quanto surreal para ela. Desilusões amorosas e intriguinhas de amigos fazem parte da vida. Equívocos entre pessoas que se gostam, falhas de comunicação, fofocas? Acontecem. Assim como quando muitas pessoas mentem quando estão seduzindo e tentando conquistar alguém. Mentiras no ritual de conquista fazem parte da mise en scène e não necessariamente tornam alguém um monstro. Mesmo porque mentiras sinceras às vezes interessam. FATO.

Mas e aí, onde está a maldade? É claro que há pessoas ruins que gozam com o sofrimento alheio. Há inveja daquela pérfida (que não a "invejinha" do cabelo da amiga), há traição de confiança em sua forma mais hedionda, há pessoas que QUEIMAM outras, literalmente. E aí, se você não sabe muito bem quem é o outro, você aposta em quê? Que ele vai te queimar?

Penso que se não apostamos que algo será bom (ou que alguém tem boas intenções), não fazemos nada, não há movimento, mas paralisia. Não saímos de casa em uma cidade grande, não iniciamos um relacionamento, não mudamos de emprego, não estudamos para o vestibular. Há apostas de alto risco, assim como apostas de baixo risco. Podemos apostar tudo, podemos apostar um pouquinho. Há pessoas que apostam a vida. Há pessoas que não conseguem mais apostar. Em Novembro do ano passado, em meio a outras tantas apostas, eu apostei vinte reais. Aquele "rapaz velho" me trouxe a gasolina e eu cheguei a tempo no trabalho. Ele estava desempregado há meses, mas não quis nada em agradecimento. Se ele tinha, de fato, olhos bons ou se era o meu desejo de que ele tivesse o tal "bom coração", eu não sei.


 PS: Tá parecendo post de auto-ajuda, mas vou postar mesmo assim. Paulo Coelho feelings ;-)


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Adoro um amor...inventado?

"O amor é uma crença emocional e, como toda crença, pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida. O amor foi inventado como o fogo, a roda, o casamento, a medicina, o fabrico do pão, a arte erótica chinesa, o computador, o cuidado com o próximo, as heresias, a democracia, o nazismo, os deuses, as diversas imagens do universo. Nenhum de seus constituintes afetivos, cognitivos, ou conativos é fixo por natureza." (Jurandir Freire Costa)


As maiores estórias de amor são sobre desencontros, eu li uma vez. De "Romeu e Julieta", passando por "Casablanca" e "As pontes de Madison", ninguém resiste ao drama de um casal que se separa no auge da paixão (por morte, por impossibilidade, pela guerra, por neurose, whatever). O romance impossibilitado torna-se, na promessa do que não foi, encantado. Em lembranças, torna-se a própria representação da felicidade perdida.  Ah, se eu estivesse com ele (ela), aí sim eu seria feliz. Será? "Antes da meia noite", último filme da trilogia dirigida por Richard Linklater e estrelada por Julie Delpy e Ethan Hawke, faz troça do amor romântico, brincando com a promessa do casal perfeito.

O casalzinho "fofo" de "Antes do Amanhecer"
O primeiro filme "Antes do Amanhecer" (de 1994) conta o encontro (e desencontro) do jovem casal em um trem na Europa. Ambos têm vinte e poucos anos e resolvem passar o dia todo em Viena, descobrindo a cidade e trocando idéias sobre a vida. Apaixonam-se, mas se separam, combinando de se reencontrarem seis meses depois. Ela, Celine, não aparece. Ele, Jesse, escreve um livro sobre o mágico encontro dos dois em Viena. No segundo filme, "Antes do pôr do sol" (de 2004), Jesse lança o livro e Celine vai, enfim, encontrá-lo. Em Paris, eles  passeiam pela cidade e contam um para o outro o que fizeram ao longo dos anos em que ficaram separados. No fim do filme, o suspense: eles, enfim, ficariam juntos? A resposta vem com o último filme, lançado agora: sim, eles se casaram e tiveram duas filhas gêmeas. E Jesse não resiste a olhar uma bunda de mulher, assim como Celine engordou e tem queda de cabelos. O filme é, sem dúvida, um tapa na cara do amor romântico e, por isso mesmo, talvez o melhor da série.

O amor romântico, que é uma criação do século XVIII, ainda permanece em nossos dias como um fim a ser alcançado e como sinônimo de felicidade. Acredita-se que quem não ama romanticamente, não ama "de verdade" e que, se o amor acaba, é porque "não era amor". O casamento ainda aparece como a coroação do "amor verdadeiro" e, por isso mesmo, implica muitas espectativas. Quanto maiores as espectativas, maiores são as frustrações e, por isso mesmo, muitos casamentos se transformam em um mar de ressentimentos cumulativos. Celine e Jesse viveram um encontro mágico eternizado em livro (Jesse, inclusive tem vários fãs por conta disso). No entanto, o  que eles vivem no casamento, quase vinte anos depois, está bem longe de "magia" e encantamento.

O espectador é convocado, a quase todo o tempo, a ser um terapeuta de casal. É fácil observar onde estão as feridas da relação e as falhas de comunicação. Um diz A, o outro entende B. Os dois concordam no mesmo ponto e discutem justamente por isso. Há toda uma série de mágoas pelo que foi renunciado ao longo dos anos para que eles ficassem juntos. Quem, afinal, renunciou "mais" e investiu "mais" no relacionamento?


Um casal em crise em "Antes da meia noite"

Julie Delpy e Ethan Hawke, o casal de protagonistas, são amigos de longa data. Os dois atores, inclusive, são co-autores do roteiro. Isso, sem dúvida, dá maior verossimilhança aos diálogos e a química entre os dois é impressionante. O fato de envelhecerem na frente das câmeras é algo que chega a ser comovente. Julie Delpy aparece quase sem maquiagem e aparenta a idade que tem, com todas as rugas e quilos a mais. Ethan Hawke, que era um menino, aparenta muito mais idade. Ainda assim, as cenas de sexo (fundamentais neste filme) são muito mais explícitas do que nos dois primeiros da trilogia.

"Antes do pôr do sol" é um filme que vale a pena. Apesar dos desencontros entre o casal, há diálogos deliciosos que são somente possíveis entre pessoas que tem intimidade e familiaridade. Os dois discutem e se ferem, mas riem e também se divertem. A cena em que Celine finge ser burra para conquistar Jesse é hilária. É isso, talvez, que diferencie este enredo  do de outros filmes que falam da deterioração de um casamento ( como "Blue Valentine" e "Foi apenas um sonho"). O ideal de amor romântico é tirano, mas é possível sobreviver a ele. E melhor: é possível criar outras formas de amar.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Viva la Revolucion!

Eu nasci nos anos 70. Naqueles tempos, o Brasil ainda estava sob domínio de um regime ditatorial e militar. Não foram os tempos mais duros da ditadura, mas os programas de televisão (inclusive novelas e shows) somente eram exibidos depois de passarem por censura. Lembro-me bem do documento da censura federal que antecedia o início dos programas, ainda que eu não entendesse o porquê daquilo. Na escola, tudo o que eu deveria aprender (e decorar) era a ordem dos presidentes do Brasil até aquele momento. O que eu sabia era que os presidentes tinham nomes estranhos para uma criança (como Garrastazu Médici e Geisel). O último (com nome mais fácil) era o Figueiredo, cuja semana eu sempre acompanhava pela TVS (atual SBT), nos intervalos do programa Domingo no Parque. "A Semana do Presidente" era um boletim semanal narrado pelo Lombardi.

"Atenção senhores pais: terminou o horário permitido para menores de doze anos"
Os anos 80 foram especialmente difíceis. Tancredo Neves era a esperança de novos tempos, apesar de ter sido eleito em uma votação (ainda) indireta. Aí veio o governo Sarney e seus milhões de pacotes econômicos e moedas. O ítem mais importante em qualquer casa de classe média era o freezer, pois tínhamos de fazer estoque de comida, especialmente de carne. Por conta da hiperinflação, um mesmo produto poderia ter dois, três preços no mesmo dia. Assim sendo, fazíamos aquelas compras imensas no supermercado para durar no mínimo dois meses. Era a forma de economizarmos. Refrigerante, cereais, iogurte e bolacha recheada eram puro luxo. Caríssimos, só eram consumidos em dias especiais. Nem toda casa tinha linha telefônica; extensão no quarto só em casa de gente rica. Muitas vezes um filme ficava na máquina fotográfica por mais de um ano, esperando para ser revelado. E quando era, a surpresa: muitas fotos mal tiradas e as fotos-mico que hoje não existem mais.

Aí veio Fernando Collor de Mello, o jovem desconhecido de Alagoas "vendido" como o "caçador de marajás". Após anos de sofrimento, finalmente vieram as tão sonhadas eleições diretas e Collor ganha de Lula, no segundo turno, em 1989. Em meio aos escândalos de corrupção, além da crise econômica do governo Collor, a rede Globo (ironia) exibiu, em 1992, uma minissérie chamada "Anos Rebeldes" (atualmente em reprise no canal VIVA). A minissérie contava o romance entre uma jovem "alienada" Maria Lúcia (Malu Mader) e um rapaz engajado com a luta armada nos anos 60 e 70, João Alfredo (Cássio Gabus Mendes). No entanto, quem roubou a cena foi Claudia Abreu, com sua Heloísa, a patricinha que se transforma em guerrilheira. Encantada com Heloísa, fui estudar mais sobre a ditadura militar, não só no Brasil. Muitos outros adolescentes fizeram o mesmo. O movimento dos "Caras-Pintadas", um movimento predominantemente jovem e com um objetivo pontual (tirar um presidente) foi fortemente influenciado por uma minissérie global (da mesma Globo que encobrira militares e que tinha ajudado a eleger Collor, anos antes). Saímos às ruas ao som de Roda Viva, o clássico de Chico Buarque de 1967.  Não tenho nenhum registro fotográfico da época pois não tínhamos a dimensão de que era um fato histórico. Naqueles tempos, ao contrário de hoje, era preciso acontecer algo importante para tirarmos fotografias. Após a votação do impeachment de Fernando Collor, em Setembro daquele ano, todos comemoramos e acabou aí. Presenciei muita gente engajada no movimento dos Caras Pintadas, mas alguns íam às manifestações pela festa. Os hinos do "Fora Collor" eram muito engraçados. As manifestações foram pacíficas e sem confronto com policiais.
A economia estabilizou-se após 1994. No entanto, os escândalos de corrupção nos governos FHC e Lula foram se tornando cada vez piores e mais explícitos. Fui eleitora de Lula e do PT por muitos anos, mas Luiz Inácio da Silva e sua quadrilha fazem Collor, hoje, parecer um ladrão de galinhas.

Não sou mais uma criança que só sabe pedaços de uma história mal contada, nem tão pouco uma adolescente idealista. Eis que no dia 17 de Junho de 2013, mais de vinte anos depois do "Fora Collor", eu presencio o povo sair às ruas em um movimento grandioso, por todo o Brasil.  Parece-me algo muito, mas muito maior do que o "Diretas Já" e as manifestações dos "Caras-Pintadas". Hoje temos a internet a nosso favor. Acompanhei pelo twitter as discussões se o movimento deveria ou não ter pauta, bem como se deveriam ser em avenidas importantes as manifestações. Alguns diziam que pauta era coisa de reunião de condomínio, outros queriam deixar as coisas mais organizadas. O que importa é que o aconteceu. Foi bonito de ver. Seja por tarifa zero ou não, o recado foi dado. Estamos todos insatisfeitos com o que tem sido feito do Brasil até então. Não há um sistema de saúde decente, não há transporte bom, não há educação, não há segurança. Que nos impliquemos, enfim, de corpo, alma e voz. Qual é, afinal, a parte que nos cabe?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O que se perde quando se perde alguém?

"O que se perde quando se perde alguém? Não perdi nesta ou naquela característica o ser amado. Não é porque minha mulher tinha aquele tom de cabelo ou a suavidade nas mãos que eu a amava. Por mais que faça a lista de seus atributos, sempre haverá um que resta descrever. Por outro lado, cada elemento desta lista de atributos pode ser encontrado às dúzias no mundo. O que houve? Em uma primeira resposta, diremos que a morte levou consigo a possibilidade disso tudo estar reunido. Esta possibilidade acrescenta-se subtrativamente à série de traços, pois não é em si um atributo, mas pura suposição. Podemos então acrescentar à série de traços, este indizível a-mais. É exatamente este a-mais que se perdeu. Em outras termos: o que se perdeu é sempre impossível de se esgotar com uma nomeação" (Marcus André Vieira)

domingo, 21 de abril de 2013

A outra estória da Barbie...

Descobri, recentemente, que Barbie, a boneca, foi inspirada numa boneca alemã, Lilli. Lilli não era uma boneca para crianças, mas uma espécie de  pin-up tridimensional destinada ao público adulto masculino. A partir dos anos 50, portanto, as meninas que até então brincavam com bonecas-bebês encenando cuidados com "filhinhos de mentira", passaram a encenar fantasias amorosas a partir de um brinquedo inspirado em uma boneca erótica. Barbie é uma mocinha sexy (cabelos fartos, um sorriso constante, seios grandes e uma cintura inimaginável). Ela tem um namorado bonito (Ken), muitos vestidos e pode ter várias profissões. Ultimamente, Barbie tem aparecido também nas versões princesa (Bela, Bela Adormecida, Branca de Neve). O fato de um brinquedo infantil de meninas ter partido de um brinquedo adulto erótico abre discussão para importantes questões.

Barbie com olheiras e sem photoshop: uma brincadeira com a suposta perfeição da boneca

Apesar dos critérios de beleza mudarem ao longo das décadas, a mulher magra e jovem (muito parecida com a Barbie) é um modelo contemporâneo a ser buscado. Com mais curvas ou menos curvas, magreza,beleza e juventude acabam sendo referências imaginárias associadas ao "sucesso profissional" e realização afetiva e sexual. Logo, se você está acima do peso (e da idade) terá menos chances de ser amada. Meninas vão aprendendo isso desde a mais tenra idade. Além da Barbie, também as princesas são lindas, jovens e magras. Aliás, a maioria das princesas são amadas justamente por serem muito bonitas (a mais bela do reino, a mais bonita do baile). Duas trazem Bela no nome: "A Bela Adormecida" e Bela (da "Bela e a Fera"). Elas são passivas em grande parte e esperam a chegada do príncipe que as salvam de uma realidade cruel. Quando lutam, lutam pelo amor do mocinho ("Pequena Sereia", "A princesa encantada"). Ou ainda entram em uma luta para salvar o pai, mas, no caminho, encontram o amor ("A bela e a fera", "Pocahontas" e "Mulan"). Por mais que nas estórias dos meninos também seja comum acontecerem relações amorosas (os super heróis, por exemplo, sempre têm uma namorada), não é este o fato principal. Os heróis lutam contra o crime organizado, querem salvar o mundo, querem se divertir com super podereres e TAMBÉM namorar.

Na falta, ou mesmo na dificuldade de encontrar uma definição para si, uma identidade, ainda hoje, muitas vezes, uma mulher espera do parceiro, como um espelho, poder captar uma imagem que possa informar algo sobre a sua identidade. Por essa razão, no discurso feminino, o ideal amoroso é tão presente: pois quando amada, sabe que é algo importante para alguém - o que já é uma certeza. As estórias infantis dizem isso. O final feliz vem, contanto que as princesas estejam acompanhadas de seus príncipes.

Mulheres apresentam, hoje, mais casos de anorexia e bulimia que os homens. Isso pode ser explicado de diversas formas, mas alguns dos dados apresentados acima ajudam a compreender uma melancolia que é tipicamente feminina. Quando se perde um objeto de amor, perde-se também uma identidade como mulher? Quem sou eu, se ele não me deseja, se eu não tenho um amor, se não tenho o "reconhecimento" pelos olhos de um "príncipe"?  Para pensar.


* alguns dados deste texto foram retirados do artigo "Uma melancolia tipicamente feminina" de Rosane Monteiro Ramalho, psicanalista. Aliás, um artigo que deve ser lido na íntegra.
** Barbie, vejam só, possui uma biografia não autorizada: Forever Barbie: The unauthorized biography of a real doll, de M.G. Lord
*** quem gostou deste texto, poderá também gostar deste: http://letrasdelets.blogspot.com.br/2012/01/sobre-cafajestes-e-princesas.html

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Qualquer forma de amor valerá

Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá
 (Caetano Veloso)

Germain (Gerard Depardieu) e Margueritte (Gisèle Casadesus)
"Minhas tardes com Margueritte" é um filme que conta uma estória de amor. Entre um cinquentão iletrado e "tosco" (Gerard Depardieu) e uma mulher idosa, delicada e erudita. Pela diferença de idade entre os protagonistas e pela relação incomum, o filme me fez lembrar "Ensina-me a viver" (1971). No entanto, as semelhanças param por aí.

Gerard Depardieu é um bom ator e, assim sendo, faz você se esquecer  dos personagens anteriores que ele interpretou, bem como de sua "persona" fora das telas. O ator é conhecido pelos seus escândalos e bizarrices off-screen, mas isso não o impede de ser um grande intérprete. Com seu físico de Obelix, ele conseguiu compor um Germain doce e encantador em "Minhas tardes com Margueritte". Germain tem uma namorada jovem, bonita e carinhosa, mas é com a velhinha Margueritte (Gisèle Casadesus) que ele vivencia, de fato, um Encontro. Margueritte torna-se a interlocutora que ele jamais teve. Através de suas tardes com ela, ele pôde descobrir a leitura, além de ouvir a si mesmo de uma maneira que nunca ocorrera.

 Na verdade, costumo gostar muito de enredos que contam estórias de amor construídas pouco a pouco. Novelas e filmes que fazem uso deste expediente costumam ser mais interessantes do que obras que apelam para o tal "amor à primeira vista". Na verdade, costumo gostar de estórias de amor construídas, não necessariamente românticas. Há inúmeras formas de amor e de amar. Estórias de amor entre irmãos. Entre empregado e patrão. Entre amigos. Entre netos e avós. Entre desconhecidos. Da mesma idade. De idades diferentes. Que duram uma vida. Que duram um dia.

Houve uma época em que estava muito em moda livros que falavam de "Almas Gêmeas" e terapia de vidas passadas. Aliás, este é um tema que atrai muita gente, em qualquer tempo. Não acredito na tal "metade da laranja, carne e unha, bate coração", como diria o Fábio Júnior. No entanto, algo que li em um desses livros fez algum sentido. Há pessoas que você encontra que promovem um certo "momento de virada" na sua vida. São encontros especiais, que mudam algo. Depois do tal encontro, algo foi aprendido, algo foi ensinado, uma transformação ocorre. No meu entendimento, não se trata de destino ou qualquer coisa do tipo, são os tais encontros felizes que, se você tiver sorte (e abertura para isso), podem acontecer mais de uma vez.

Germain e Margueritte vivem um desses encontros especiais, e é comovente de se ver. Uma parte da França em  nada glamourosa, protagonistas que poderiam ser seu tio ou sua avó, e uma riqueza de roteiro. "Minhas tardes com Margueritte" é, sem dúvida,  uma estória que vale a pena escutar.



quarta-feira, 27 de março de 2013

Pequenas (grandes) coisas que irritam

Este post nasceu de uma irritação. Será publicado tardiamente, uma vez que o primeiro esboço veio no dia 08 de Março. Na verdade, o tal dia internacional da mulher me irrita há anos. Não exatamente o dia, mas o que ele se tornou. Ironicamente, o que era para ser uma data para lembrar e comemorar as conquistas femininas (e feministas) dos últimos anos, virou um dia de afirmação machista. E as redes sociais (facebook, twitter) desvelam esse machismo de forma escancarada através das piadas e (pasmem) das ditas homenagens postadas.

O dia Internacional da Mulher surgiu em virtude de um acontecimento em 1857. Operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque fizeram uma grande greve.Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.A manifestação foi reprimida de forma violenta; as mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Cerca de 130 tecelãs morreram carbonizadas. Somente em 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o dia Internacional da Mulher. Em muitos países a data é comemorada com debates e conferências para discutir o papel na sociedade atual, o que foi conquistado e o que ainda tem muito chão para melhorar.

E daí o que mais se vê no Brasil são flores. Nada contra receber rosas, kit-manicure, bombom com um bilhete ("hoje você pode") e o escambau. O duro é perceber que séculos depois daquelas trabalhadoras morrerem de forma horrenda porque reivindicavam condições melhores de trabalho, as principais  associações que se tem com  o dia da mulher é a cor rosa, as dificuldades com uma unha quebrada, a TPM e a chapinha. Reduzir a mulher a isso é ultrajante. Onde estão os debates sobre as causas femininas? Tudo o que eu vejo, especialmente em cidades do interior, são desfiles de moda com sorteios de brindes e bingo. Poucos debates.


Isso lá é homenagem, minha gente??
Outra coisa que me incomoda é o enaltecimento. Nem sempre é por mal, mas às vezes cheira a formação reativa.  Dizer que "você, mulher, mãe, bela, que se sacrifica, que tem tripla jornada, blá, blá, blá, whiskas sachê, o que seríamos de nós sem vocês, yadda, yadda" é por demais irritante. Nem toda mulher é mãe, nem tem tripla jornada, nem se sacrifica. E às vezes são pessoas muito bacanas. E outras que fazem tudo isso, mas nem por isso se assemelham a Nossa Senhora de Fátima. Assim como tem mulheres que nunca geraram uma criança, mas exercem a maternagem como ninguém. E outras ainda que tem uma pá de filhos e não podem ser chamadas de mães. Simplesmente porque não são.

E os parabéns? Talvez eu mereça receber congratulações pela mulher que venho me tornando, mas não por ter nascido biologicamente mulher. Há muita mulher por aí que não merece cumprimento algum por este dia uma vez que, além de não colaborar em nada com as conquistas feministas, ainda engrossam o coro do machismo e do preconceito.

Acredito que toda causa, por mais legítima que seja, cai em descrédito quando beira o fanatismo. Resolvi usar este espaço para afirmar, sim, que existe machismo ainda e ele maltrata e fere. Não preciso ser chata, nem fanática para sustentar esta tese. Você é machista quando diz que  o homem que sai com muitas é pegador e mulher que sai com vários é biscate. Que um homem em seus quarenta anos é um solteirão cobiçado e bon vivant e a mulher, com a mesma idade, é encalhada. Que uma mulher está mal humorada porque é "falta de macho" e por aí vai. Digo mais: um homem que ajuda a mulher a lavar a louça não é bonzinho, ele não faz mais que a obrigação. Se um casal divide uma casa e os dois trabalham fora, não é dever só da mulher cuidar da casa e da cozinha. A não ser, veja bem, que ela queira.

É isso. Falar (escrever) faz bem. Receber rosas é, sim, uma delícia,  mas elas não podem vir sozinhas. Mulheres e homens são diferentes, mas devem ter direitos iguais. Bandeira antiguinha, mas ainda válida. Muito válida.

* post inspirado nos textos da Clara Averbuck, cujo blog é recomendado ali ao lado.