quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Lindo, mais que demais...

Em uma dessas entrevistas na tevê, perguntaram a Luiz Fernando Guimarães o que ele ainda queria da vida, depois de tanto sucesso. Se não me engano, era final dos anos 90, início de 2000, quando o ator estava em alta. Ele respondeu, sem pestanejar: "Eu queria ser lindo. Eu queria que as pessoas olhassem para mim e dissessem, de boca aberta: como você é lindo!" Vera Fischer, a deusa, deve ter ouvido isso durante toda a vida. Diz a lenda que a atriz, no auge da beleza, era aplaudida de pé quando adentrava nos lugares públicos do Rio de Janeiro. Não importava se ela estava com uma peça em cartaz ou no ar com alguma novela. Vera era aplaudida simplesmente por ser linda. Tratava-se de uma verdadeira aparição. Luiz Fernando Guimarães e Vera Fischer são figuras que vieram na minha associação livre. Na verdade, ando a pensar no ônus e no bônus da beleza extrema. Ou simplesmente no papel da aparência física no curso da vida. Um filme recente me trouxe reflexões a esse respeito, obrigando-me a pensar os meus próprios preconceitos.


Vera Fischer "como uma deusa"

"O lado bom da vida" (2012), filme indicado ao último Oscar em várias categorias (inclusive melhor filme, ator e atriz), é a adaptação do livro "Silver linnings playbook". Conta o drama de Pat, o protagonista vivido por Bradley Cooper, que sai de um hospital psiquiátrico após oito meses de internação. O diagnóstico que é dado ao rapaz é de transtorno bipolar. Ele havia entrado em grave crise após descobrir a traição da esposa. Durante o filme acompanhamos a volta de Pat ao cotidiano familiar e ao convívio de amigos e vizinhos, bem como o reencontro com Tifanny, uma jovem viúva. Tiffany, assim como Pat, havia descompensado diante de uma perda (a morte do marido), tendo importantes prejuízos sociais e afetivos. Em resumo, o filme conta a construção de um relacionamento entre duas pessoas emocionalmente feridas. A forma como é contada esta estória é interessante, embora o filme faça uso de alguns clichês. A direção também abusa da câmera nervosa e dos longos closes. A família barulhenta de Pat lembra a família Tufão da novela Avenida Brasil (2012) em que todos berram ao mesmo tempo e praticamente ninguém se ouve.


Moço feio, tadinho

O que para muitos é o ponto alto do filme, a mim causou incômodo: a beleza absurda dos protagonistas. Bradley Cooper está ótimo, mas parecia, aos meus olhos, lindo demais para estar tão mal, ainda que vestido com sacos de lixo. Jeniffer Lawrence, a Tiffany, uma garota sem manchas na pele,sem  rugas de expressão e com um corpo espetacular, faz uma viúva de pelo menos uns trinta anos, sofrida e ninfomaníaca. Faz parte do show; um bom filme também se faz da beleza dos seus atores e, às vezes só da beleza deles. A aparência de Cooper, no entanto, impediu que eu prestasse atenção em sua interpretação. Letícia, sua preconceituosa, alguém que é muito bonito não sofre? Um Bradley Cooper da vida não pode ter ciúmes, ser traído e abandonado pela mulher

 Uma vez surgiu um boato de que Michelle Pfeifer havia se afastado do cinema por ter sido diagnosticada com transtorno de pânico. Uma amiga minha comentou, com desdém: "você acha que uma mulher como Michelle Pfeifer tem tempo para ter crises de pânico? Ela está lá ocupada em ser linda..." A beleza em demasia, afinal, preencheria todas as faltas, não? Assim sendo, belos não sofrem, não tem depressão, não são internados em hospitais psiquiátricos. Um mito, é claro.


Luiz Fernando Guimarães queria ser lindo. LIN-DO. Muita gente quer. No entanto, quando falamos de realidade psíquica, as coisas complicam um pouco. Assim sendo, há pessoas consideradas feias que são irresistíveis e satisfeitas, enquanto modelos de beleza seguem dietas malucas em uma contínua insatisfação com o próprio corpo. Além disso, não há nada mais efêmero que a beleza física. Psicologismos à parte, vale a pena assistir "O lado bom da vida", especialmente no cinema. Se não fizer pensar, ao  menos enche os olhos. Não sei se Bradley Cooper é tão melancólico quanto seu personagem,  mas que é uma verdadeira paisagem, isso é. Lindo de viver, como diria Hebe Camargo. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Et j’ai pleuré...


A maioria de nós nasceu chorando. Aliás, se um bebê não chora logo ao nascer, ou se demora para chorar, algo pode estar errado. Quando somos bebês, antes de balbuciar qualquer coisa, choramos para tudo. Choramos porque queremos colo, choramos por fome, sede ou cólicas, choramos por desconforto, frio ou calor. Cabe à mãe ou substituta (o) fazer o papel de tradutor-intérprete: está com frio, né? quer colinho agora? tentando adivinhar nossos pedidos e dar um sentido ao choro. Conforme vamos crescendo e nos apropriando da linguagem falada, as lágrimas não são mais estimuladas. Há outras formas "mais bonitas", afinal, de pedir e expressar afetos. Aliás, é muito comum associar choro a uma certa fragilidade. Se você é forte, não chora.
  
Ao longo da vida, podemos identificar melhor o que nos comove e faz chorar, embora isso também possa mudar e surpreender. Há pessoas que choram muito ("em comercial de margarina" e "batizado de boneca") e outras que raramente choram. Na prática da clínica psicanalítica, o choro pode suscitar interpretações importantes. Nem sempre um choro é "óbvio". Lágrimas escorrem quando menos se imagina, surpreendendo analista e paciente. E muitas vezes, "aquele" choro que seria "esperado" não vem. 

Quanto a mim, o cinema costuma ser o lugar em que mais "deságuo" e na maioria das vezes, não é pelo filme. Como nunca sei quando vai acontecer, vou preparada com lenços e óculos escuros, pois saio parecendo que fui atacada por um enxame de abelhas africanas. Sendo um pouco do contra, eu nunca me comovo com os chamados filmes "de chorar". Sou capaz de me emocionar com o clássico "Cinderela baiana" e rir em "P.S. eu te amo" (aliás, esse filme é pra rir mesmo). 

O "emocionante" Cinderela Baiana
Também posso chorar com programas de tevê. Big Brother, inclusive. Uma vez estava em casa assistindo um documentário biográfico sobre o Chacrinha (o ótimo "Por toda a minha vida") e, de repente, eu comecei a chorar. Minha irmã, ao mesmo tempo, me telefonou, também aos prantos: "Você tá vendo o Chacrinha?" Configurou-se então a cena patética em que as duas irmãs choravam copiosamente ao telefone, enquanto assistiam às chacretes em poses ginecológicas e ao Chacrinha jogando bacalhau no povo. O fato é que a televisão foi nossa babá eletrônica por muito tempo, pois nossa mãe trabalhava muito. Chacrinha, além do Bolinha, Raul Gil, Barros de Alencar e até a Etty Fraser ajudaram a nos entreter. Descobrimos naquela ocasião, minha irmã e eu, que tínhamos, afinal, uma certa relação de amor  com o tal  Abelardo Barbosa.

Chacrinha, praticamente um membro da família
 Se é difícil lidar com nossas próprias lágrimas, costuma ser ainda mais lidar com as lágrimas do outro. "E se ela começar a chorar, o que eu faço?" Diante da dificuldade, muitas pessoas acabam por evitar situações em que supostamente terão de enfrentar isso. Términos de relacionamento, velórios e qualquer contexto que envolva crianças são circunstâncias de risco."Não é você, sou eu", "Você vai ter que ser forte" e "Pronto, pronto, passou, não foi nada" são frases clássicas (e péssimas) utilizadas  na vã expectativa de que a pessoa  não chore. No entanto, não se enganem: há crianças e adultos feitos que vêem no choro uma arma pra lá de poderosa.

Como sinal de fragilidade ou forma de manipulação, não há como negar o efeito das lágrimas. Elas dizem um pouco da gente. Por que choro? Por que choro agora? Por que, afinal, choro assim? Da forma que for, parece que bom mesmo é chorar com colo, de preferência com alguém que adivinhe nossos desejos, tal como fora, uma vez, lá atrás. A má notícia, vejam só,  é que o tempo de bebê passou. E faz tempo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

E um feliz Ano Novo...

Há alguns anos, um amigo ortopedista comentou, apreensivo, que iria dar plantões no Natal e Ano Novo. "É a pior época" - ele disse. "Muitos acidentes violentos, muitas mortes, muitos traumas". Psiquiatras também se preocupam aos finais de ano. Invariavelmente, os consultórios lotam em Novembro e Dezembro; é preciso abrir horários extras e encaminhar pacientes. Aí, é de outro trauma que se fala. Dores adormecidas costumam ser atualizadas em Dezembro. Amores que se foram, pessoas queridas que não estão mais presentes, dinheiro curto em uma época que são estimuladas as compras desenfreadas, além da convivência, muitas vezes nada harmônica, com dramas familiares não elaborados. Aí em  Janeiro, após o "mágico" dia primeiro, contabiliza-se mortos e feridos e dá-se início a uma nova empreitada.



" (...)que por decreto de esperança,
 a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver (...)


É hora de citar Drummond e acreditar que um caderno novo, com folhas em branco, se abre. E aí lotam as academias e os consultórios dentários. Resoluções de ano novo sempre incluem parar de fumar, entrar em forma e ir ao dentista, entre outras tantas coisas. Que mantêm-se até a página dois.
 
Esperam-se e planejam-se mudanças radicais sempre que um ano começa. "Desta vez, será diferente", pensamos. Não costumamos nos perguntar: "por que foi tão repetitivo até então?" Por que, afinal, pago a academia e não vou? Por que reclamo do meu trabalho e continuo nele? Por que me mantenho em uma relação que me faz tão infeliz? O que, afinal, desejamos? Sabemos mesmo? Queremos renunciar a um modo de ser ou continuar agindo exatamente da mesma maneira?
 
O velho tio Freud já falara da força, por vezes, mortífera, da repetição. Entender e re-significar o enredo repetitivo do filme de nossas vidas ajudaria a escrever uma nova história. Isso só não basta, é claro, mas é um caminho.
 
Bem, uma vez que há o ritual do recomeço, que possamos encarar 2013 como uma oportunidade. Se não é possível fazer a tal "guinada", que estejamos mais em paz com nossos próprios desejos, muitas vezes tão misteriosos. Feliz ano novo. Que o façamos NOVO à nossa maneira.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

Eu tinha entre cinco e seis anos quando descobri que Papai Noel não existia. Minha família e eu viajamos para outra cidade e, nas vésperas de Natal, meu pai pediu para que eu escolhesse um presente. Acabei pedindo uma boneca que era minha segunda opção, uma vez que a primeira (o "Bebezão") o Papai Noel iria trazer. Qual não foi minha surpresa quando, voltando para casa, eu constatei que não havia ganhado o Bebezão. Meu pai, que mentia muito mal, explicou-me que o Papai Noel tinha visto que eu já tinha ganhado uma boneca e achou que eu não precisasse. A mentira, é claro, não colou. Como o Papai Noel tinha adivinhado? Além de voar, velhinho, pelo mundo todo, ele ainda era vidente? A sensação com a descoberta foi única. Triste por perder o Papai Noel, feliz por estar mais próxima do mundo dos adultos. "Eu sou inteligente" - pensei. Triunfante, eu contei para minha irmã, que era menorzinha. Ela chorou. Eu explicava meu raciocínio. Ela gritou e chamou pelo meu pai que disse que eu era uma boba e não sabia de nada. Mais calma e feliz, minha irmazinha repetiu: "você não sabe de nada". Mais tarde, ela me deu razão, mas chorou de novo. Desde então, tem sido assim. Há sempre um conflito entre acreditar em coisas bonitas e alentadoras e confiar no meu raciocínio e nas evidências. 



Não sou uma pessoa de fé. No entanto, já frequentei a igreja católica com disciplina, participei de novenas,  fiz várias promessas, chegando a pagar penitências. Bem pequena eu frequentava a igreja sozinha, o que fazia com que meu pai me chamasse de "carolinha". Participei de grupo de jovens.Em determinada época usei a pulseira de Nossa Senhora desatadora de nós, que arrebentou enquanto eu atendia uma criança. Os tais "nós", contudo, continuaram. Como tenho família espírita, gosto muito de ouvir as primas e tia falar do Evangelho do Espiritismo. Amigas trazem relatos emocionados, que comovem. Ouço com carinho, gosto de ouvir. Admiro a pessoa de Chico Xavier. Além disso, adoro falar: "Fique com Deus, Deus te acompanhe". Para mim, é como um afago. E é sincero.

Quando surgiam notícias de cartomantes novas, geralmente em ruas íngremes, numas quebradas ("essa é boa, menina, acerta tudo, só tem horário para o ano que vem"), eu sempre ia. Pagava. Elas erravam tudo. Sempre. Algumas diziam que eu estava com a energia "carregada" e que voltasse outro dia, pois não conseguiam ver nada. Às vezes eu voltava. E pagava de novo. E elas erravam de novo. "Só com você ela erra, Letícia". Pois é, só comigo.

Mapa astral eu fiz três vezes. Viajei para fazer. Eram três horas de consulta e eu ainda ganhava as fitas cassete para ouvir depois. Eu sempre perdia as fitas. Nada fazia sentido nos tais mapas, mas eu tentava encontrá-lo em vão. O horóscopo eu leio todo mês. Otimistas, eles sempre me falam de viagens ao exterior (que eu adoro) no final do ano. Nunca viajei para o exterior em finais de ano. Provavelmente, nem eu, nem muitos outros taurinos. Eu adoro estórias bonitinhas embora eu não me convença muito com elas.

Percebo que o triunfo diante da descoberta da inexistência do Papai Noel tem se repetido ao longo da vida. Sempre há a ambivalência entre a satisfação de sentir-se muito esperta e o querer acreditar mais um pouquinho (em um pai que protege, nas conjunções astrais, no bom velhinho, em estórias bonitas). Fico contente que haverá crianças no meu Natal, pois assim poderei brincar um pouco de faz de conta. Aí tudo é possível. Feliz Natal.

E se vivêssemos todos juntos?

Dia desses li uma entrevista de Fernanda Montenegro  à Folha de São Paulo que muito me comoveu. Aos 83 anos, ela compartilhou a tristeza que é acompanhar a partida dos amigos e colegas que foram testemunhas de sua juventude (além do marido Fernando Torres, Raul Cortez, Ítalo Rossi e Sérgio Britto). Perder, aos poucos, representantes de sua geração seria entrar em contato com a própria finitude. A geração de Fernanda Montenegro e, especialmente, a subsequente (a que está na faixa dos 70, hoje) são gerações emblemáticas e marcadas no imaginário popular como "jovens". São aqueles que tinham vinte e poucos nos anos 50 e 60, as décadas mais joviais do século XX. Caetano, Gil, Chico, Jô Soares, Marieta Severo entre outros tantos compõem o time de célebres desta época. Foi com este espírito nostálgico que fui assistir ao filme "E se vivêssemos todos juntos"(Stéphane Robelin), um longa que tem cinco atores velhos entre seus protagonistas. Jane Fonda, um ícone dos anos 60 (a eterna "Barbarella") é uma das atrizes "velhas"; a outra é Geraldine Chaplin. 



Jane Fonda com Barbarella, no final dos anos 60
O enredo trata da história de cinco amigos de longa data que estão envelhecendo juntos (dois casais e um solteirão bon vivant). Ao darem-se conta da debilitação da saúde, eles resolvem morar juntos, a fim de se ajudarem e cuidarem um do outro. Há várias passagens engraçadas, mas o choro veio fácil por quase todo o tempo. O curioso é que os sexágenários companheiros de sala riam às gargalhadas, fazendo parecer que eu estava em uma apresentação de stand up.
Ao sair com olhos inchados do cinema, tive algumas reflexões:

1) Chega de usar o termo "melhor idade". É velhice e pronto. É como chamar gordo de "fortinho" e negro de "moreno". Pavor eterno de eufemismos. Se você precisa amenizar uma característica é porque a considera um defeito. E nenhum destes é, ponto.

2) A velhice é democrática. Ela pode demorar mais ou menos para chegar, mas vem para todos (até para Jane Fonda!), a não ser que você faça o James Dean e morra aos 24. Também a diferença entre belos e feios não é tão abissal na velhice como é na juventude. Sua tia, por exemplo, que sempre teve uma beleza daquelas medianas pode ser hoje, aos 70, muito mais interessante que as musas Claudia Cardinale ou Brigitte Bardot com a mesma idade.


Claudia Cardinale, hoje

3) O tempo pode modificar muita coisa (ou relativizar). Em quarenta ou trinta anos, um passado pode parecer melhor do que de fato, foi. Também algo que parecia muito grave na juventude (como uma infidelidade, por exemplo) pode se tornar insignificante perto de questões como a proximidade da morte ou a perda gradativa da saúde.

4) Casais longevos parecem uma realidade cada vez mais distante, ao contrário de décadas atrás. O projeto de vida de envelhecer junto do parceiro (a), embora legítimo, tem sido cada vez mais difícil de levar a cabo. Em um tempo em que a escolha dos objetos de afeto tem sido cada vez mais narcisista, estar junto da mesma pessoa por décadas tornou-se quase uma utopia. Envelhecer junto implica em suportar a vulnerabilidade do outro, a decadência física, a insegurança e o medo, além de encarar o próprio envelhecimento. Vive-se tempos de muita valorização da potência, da juventude e da beleza. Comprometer-se em um casamento ou um namoro longos implica em renunciar (se o compromisso implicar em fidelidade) a tantos outros possíveis parceiros "muito mais interessantes" por aí. Se, por um lado, não se vive hoje a obrigação de estar com alguém com quem não se quer estar (o que é ótimo), uniões se desfazem facilmente visando a busca da tal "felicidade lá fora".

E, por último, mas não com menos importância: fico feliz com tantos filmes recentes abordando a velhice. Bons atores trabalhando e bons enredos. Além disso, os personagens dos filmes sempre fazem sexo, o que não deixa de ser uma quebra de tabu. Existe sim, sexualidade além dos 70 anos. Ainda bem.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Enjoy the silence...

 Após anos em análise, um paciente continua indo ao consultório e deitando-se no divã para contar seus problemas, mesmo após a morte de seu analista. Esta piadinha (sem graça) retrata bem o senso comum a respeito do que acontece nos consultórios de psicanálise: muita falação e choro de um lado e silêncio sepulcral do outro. Exageros à parte, o silêncio é sim, importante e tem funções. Nos consultórios e na vida, é preciso saber administrar o silêncio. E não é fácil.

Nos últimos tempos tem havido um elogio da falação incessante. É urgente expor o que se pensa, mesmo que ninguém esteja minimamente interessado nisso. Você entra no twitter e no facebook e é como se estivesse no meio do burburinho. Reclamações, indiretas, ataques, críticas políticas, lamentações, declarações de afeto e do que se comeu no almoço. Nos sites, muita gente comenta sem nem  ler direito o texto. Muitas vezes, critica-se o autor de um artigo que defende exatamente o que o comentarista acredita. Há uma confusão importante entre falar, escrever (de forma catártica, muitas vezes) e, de fato, comunicar alguma coisa.

Na verdade, há coisas que não precisam ser ditas. Inclusive, perdem a beleza se assim forem. Aliás,  a linguagem nem sempre é capaz de "dar conta" de alguns afetos. Não há momentos em que ficamos mudos diante de algo que nos toma? Susto, choque, tristeza, alegria intensa? É o famoso momento-clichê do "simplesmente faltam palavras para descrever". E faltam mesmo.

 "The human heart has hidden treasures,
In the secret kept, in the silence sealed,
The thoughts, the hopes, the dreams, the pleasures,
Whose charms are broken, if revealed."
(Charlotte Brönte)


Em outras situações, é preciso falar para não enlouquecer. É comum, por exemplo, uma certa verborragia diante de uma emoção forte, o tal falar sem parar, sobre o mesmo assunto. Apaixonados se comportam assim. Pessoas que passaram por situações traumáticas também. É aí que as palavras transbordam e chegam a derramar.




"Words are very
Unnecessary
They can only do harm."

 
A música do Depeche Mode é linda mas, a bem da verdade, silêncio e palavras em excesso podem fazer mal, fora ou dentro dos consultórios. No entanto, para dosar bem uma coisa e outra, é preciso treinar a escuta do outro (s), algo que tem sido artigo raro  por aí. Ouvir bem, ouvir com cuidado, falar idem: taí um excelente presente de Natal. Um presente que não tem preço.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Sessão de Terapia - o balanço final

 A primeira temporada de "Sessão de Terapia" chegou ao fim e deixa alguns saudosos por aí (eu, inclusive). Não é, de fato, uma série para grandes audiências, mas conseguiu um público cativo, o que acabou garantindo uma segunda temporada para 2013. Não assisti à versão americana, mas pelo que pude constatar, o roteiro é basicamente o mesmo em todas as versões ao redor do mundo, com algumas adaptações. O grande mérito de Selton Mello (o diretor brasileiro) talvez tenha sido o de apresentar, em papéis de destaque, atores pouco conhecidos do grande público ou que estavam esquecidos. Esta, aliás, tem sido uma marca registrada do ator enquanto diretor. Em seus filmes, por exemplo, ele "ressuscitou" Darlene Glória, Moacyr Franco e Ferrugem. Em "Sessão de Terapia", à parte Maria Fernanda Cândido e Maria Luiza Mendonça, todos os outros atores eram pouco ou nada conhecidos. E deram um show:
 
Théo (Zécarlos Machado)

Zécarlos Machado tem uma trajetória reconhecida no teatro, mas na televisão sempre obteve papéis secundários. Lembro-me sempre dele por ter sido o amante-comparsa da "vilã de história em quadrinhos" Nazaré (Renata Sorrah) em "Senhora do Destino" (2004). Também  ao lado da atriz, o ator interpretou um marido pouco compreensivo e homofóbico em "Páginas da Vida" (2006).

Cena de "Páginas da Vida" (2006)
Assim sendo, inicialmente causou-me estranheza a escolha do ator para o papel. Incomodou-me inclusive sua voz (seria fumante?) e dicção. Para mim, ele seria perfeito para o papel de bandidão, não de analista. No entanto, acabei gostando muito do Theo que ele compôs. Entre outros tantos episódios, aquele em que ele atende o pai de Breno (Sérgio Guizé) foi especialmente tocante. Nas redes sociais, Zécarlos foi alçado à condição de galã, despertando paixões por aí. Isso comprova o poder incrível que um papel pode ter (ou o que o papel de um bom analista pode despertar).


Breno (Sérgio Guizé)

Sérgio Guizé, junto de Bianca Müller (Nina), era o rosto menos conhecido da série. Talvez isso tenha contribuído para dar ainda mais verossimilhança ao atormentado Breno. O personagem foi capaz de despertar as mais diversas emoções em quem assistia (raiva, asco, pena, ternura). Seu final causou comoção nas redes sociais. 

Sérgio Guizé, irreconhecível, na pele de um travesti em "Tapas e Beijos"
 
Nina (Bianca Müller )

Formada em Rádio e TV, Bianca Müller foi a grande aposta de Selton. Ela interpretou a ginasta adolescente Nina. Com 22 anos, Bianca deu vida a uma adolescente de 15 anos de forma convincente e sensível. A personagem chamava a atenção por tantas características que a incrível beleza de Bianca conseguia ficar em segundo plano.

Bianca Müller


Ana (Mariana Lima) e João (André Frateschi)

Mariana Lima em "O rei do Gado" (1996)
 
Mariana Lima é muito lembrada pelos noveleiros de plantão por seu primeiro papel na tevê: Liliana, a namorada rejeitada de Marcos Mezenga (Fábio Assunção) em "O rei do gado" (1996). Seu drama era embalado pela música-chiclete de Daniela Mercury ("...quando não tinha nada, eu quis, quando tudo era ausência, esperei..."). Atriz muito identificada pela intensidade com a qual mergulha em seus trabalhos (seja no cinema ou teatro), Mariana deu vida à complexa Ana, talvez uma das melhores atuações de "Sessão de Terapia". Junto dela estava André Frateschi, o "marido" João. André é filho dos atores Denise del Vechio (tem os olhos dela, aliás) e Celso Frateschi. Em novelas, fez vários coadjuvantes cômicos.

Na série, ele compôs uma bela dupla dramática com Mariana Lima. As sessões do casal (sempre às quintas feiras) eram um verdadeiro show dos atores. Aliás, era difícil dormir após assistir às terríveis sessões de quinta feira.

Dora (Selma Egrei)

Selma Egrei nos anos 70
A experiente Selma Egrei foi a escolha de Selton Mello para interpretar Dora, a analista-supervisora-amiga-colega de Theo. Pouco conhecida do grande público, Selma Egrei fez muitos filmes nos anos 70. Em novelas, fez algumas participações. É mais lembrada como a mãe ambiciosa de Christine Fernandes em "A Favorita" (2008). Seu olhar de "madrasta da Branca de Neve" deu o tom gélido e distante que Dora precisava. Selma Egrei me convenceria facilmente como psicanalista, se a encontrasse em algum congresso por aí.


Posso dizer que, enquanto psicóloga, muitas coisas de "Sessão de Terapia" me incomodaram (em relação a questões técnicas do profissional). No entanto, como telespectadora, posso dizer que programa cumpriu sua função e conseguiu comover.Também introduziu o universo do trabalho solitário do psicoterapeuta a quem sabia pouco sobre ele. Os pacientes retratados eram especialmente resistentes (e agressivos), o que contribuiu para o sofrimento do personagem do terapeuta, um homem já atormentado. Não é sempre assim na "vida real", embora seja crível encontrar pacientes como aqueles. E o "espetáculo dramático" só funcionou porque os atores eram bons. Não foram raras as vezes em que fui às lágrimas. Mérito do elenco (excelente) e do diretor. Fiquei pensando em quantos outros talentos não devem estar por aí escondidos, enquanto ficamos enjoados de ver sempre os mesmos rostos na tevê. Fico no aguardo da segunda temporada com novas (e boas) surpresas.