domingo, 22 de janeiro de 2012

A mulher que não conseguia esquecer...

Coqueluche é  uma gíria antiga, lá dos anos 40, que queria dizer "o assunto do momento". Só que naqueles tempos, provavelmente, as "coqueluches" duravam mais tempo do que hoje. Por exemplo, a coqueluche da semana que passou foi a tal "Luiza que estava no Canadá" e o suposto abuso sexual do BBB. Na semana que vem, com certeza, a coqueluche será outra. As redes sociais, entre outras coisas, tem esta função: nos informar sobre o assunto do momento. A outra é nos conectar com o passado. Aquela  paixonite que você julgava acabada, músicas que há tempos não ouvia, dores adormecidas. Sinceramente, às vezes acho que o "someone you may know" do facebook parece estar de sacanagem comigo.

Entre as lembranças leves, recentemente o "you may know" me trouxe de volta um muso inspirador do final da minha adolescência. Era muso e só. Bom para olhar e achar fofo. Meu e de uma amiga. Era um moleque bicho grilo cheio de cachos nos cabelos. Aliás, era isso que o fazia muso: os cachos de anjinho. O facebook o trouxe de volta. Sem cachos. Um tiozão careca. Se não fosse os olhos e o "you may know", jamais o reconheceria. Em papo com a mesma amiga daqueles tempos, lamentei o ocorrido.

- Fiquei triste agora.
- Por quê?
- Nosso muso inspirador não existe mais. Você não vai acreditar quem eu encontrei no facebook.
- Quem?
- FU-LA-NI-NHO! Acredita que ele não tem mais os cachos? Aquele menino não existe mais, ficou lá em 92.
- Quem é fulaninho? Não sei quem é. Não lembro.
- ....

Mocinho aleatório que poderia ser o fulaninho
Descrevi, dei detalhes. Ela não lembrou. Contei conversas nossas daqueles tempos. Ela não lembrava de jeito nenhum. Minhas lembranças vívidas e o tal fulaninho dos cachos não fazia o menor sentido para ela. Além do muso, tive a sensação de ter  perdido  a amiga daqueles tempos.

Amigos são testemunhos da nossa história, eu li uma vez. Se ninguém se lembra de algo junto com você, há uma estranha sensação de loucura, como se fosse um universo paralelo: afinal, aquilo aconteceu, ou não? Só eu vivi? O youtube e os sites retrô me salvaram um pouco neste sentido. Desenhos animados meio bizarros que ninguém parecia se recordar estão lá só para me provar que não, eu não estou louca.

-Chamando Carro de Perfume, chamando Carro de Perfume...
Pensei em tudo isso ao ler o livro "A mulher que não consegue esquecer", um relato auto biográfico de Jill Price, que sofre de síndrome hipertiméstica, um caso raro de "super memória". A americana Jill lembra os detalhes de todos os dias que viveu desde os oito anos de idade, do programa que passava na televisão, à cor do sofá e o que jantou. Isso aliado a todos os acontecimentos históricos do dia. Ao ler uma data, imediatamente lhe ocorrem sons, cheiros e as lembranças vívidas. Neste caso, aquela expressão clichê "passou um filme na minha cabeça" faz todo o sentido. Situações como aquela que descrevi acima são corriqueiras. A maior parte dos detalhes que são extremamente reais para Jill não existiram para muitos dos seus amigos e familiares.

A conclusão que se tira do livro é que perder a memória é uma verdadeira tragédia, mas lembrar-se de tudo também é. O conto  "Funes, o memorioso" de Jorge Luis Borges, aborda o tema de forma mais cômica, mas a conclusão é a mesma. Viver lembrando do passado pode te impedir de viver o presente e, por que não, de "sonhar" com o futuro. No entanto, "o brilho eterno de uma mente sem lembranças" também é uma ilusão. Algo precisa ser lembrado (e repetido, e elaborado, como diria o tio Freud).

Quanto ao post, que o facebook e derivados sejam mais generosos conosco e nos ajudem a esquecer (e não a lembrar) coisas que não fazem mais o menor sentido hoje. É um verdadeiro pândego este "someone you may know".

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sobre cafajestes e princesas...

Um fio condutor similar une dois filmes aparentemente muito distintos que assisti agora em Dezembro. À procura de leveza em meio aquele estresse comum nos finais de ano, escolhi o brasileiro "Malu de bicicleta" e o americano "Um lugar qualquer" (Somewhere), ambos de 2010. Leveza não foi bem o que encontrei.

Os dois filmes poderiam ser enquadrados naquele tipo de enredo "boy meets girl" tão comum em muitas obras de ficção: menino encontra garota, tem sua vida transformada por ela e blá, blá, blá. E é isso, mas contado de uma forma diferente, o que faz o brilho das duas tramas. "500 dias com ela", filme já citado "ad infinitum" por aqui, no blog, é um exemplo bacana de como a direção faz mágicas com uma  história que já foi contada inúmeras vezes.

Os protagonistas dos dois filmes são homens entre 30 e 40 anos. São aqueles do tipo irresistível, que eu, você, todo mundo já esbarrou um dia por aí. "Irresistível" pela posição social, pelo sex appeal e talvez até pela suposta inacessibilidade. Marcelo Serrado interpreta Luiz, o empresário da noite paulistana que tem a mulher que quer, na hora em que quer, em "Malu de Bicicleta". Stephen Dorff
é o ator bonitão de filmes de ação Johnny Marco que, antes de ter qualquer desejo, já está sendo prontamente atendido. Um recurso usado nos dois filmes é você ter a perspectiva do protagonista que, por onde passa, as mulheres se curvam, oferecem telefone, se jogam, fazem o diabo. Todas elas mulheres lindas, algumas diferentes, exóticas, gostosas e o escambau. Eles se divertem por uma noite e as descartam. Algumas ficam obcecadas. Nos dois filmes há a figura da louca perseguidora e amargurada que, uma vez seduzida, é abandonada pelo homem irresistível.

Aí surge ela, A garota especial. Em "Malu de bicicleta", ela é Malu (Fernanda de Freitas), a garota descolada e analisada que atropela (literalmente) o protagonista Luiz.


Em "Um lugar qualquer", a garota especial é a filha de Johnny Marco, a fofíssima Elle Faning, que faz a Cleo.


Cleo tem onze anos e Malu deve ter seus vinte e poucos. A idade pouco importa. O que fica explícito nos dois filmes é que ambas parecem ser muito mais maduras do que Johnny e Luiz. É no contraste com elas que os dois personagens masculinos apresentados inicialmente como "fodões irresistíveis" começam a parecer patéticos, inseguros e extremamente imaturos. Há algo de "pureza" também nas duas mulheres. Malu, apesar de ser sexy e namoradeira, é equilibrada, doce e cheia de boas intenções. Cleo é uma pré adolescente apresentada sem qualquer malícia, que se dispõe a cuidar do pai.

O desfecho dos dois filmes não deixa de ser romântico (no caso de Malu) e moralista, por assim dizer, em ambos.  A vida de esbórnia, drogas e libertinagem não faz o menor sentido. O que faz sentido é encontrar uma princesa que mudará sua perspectiva de vida (uma namorada, em "Malu", a filha, em "Um lugar qualquer"). Não é à toa, portanto, que ainda existam homens que busquem princesas por aí. E mulheres que sonhem ser o ponto de mudança na vida de conhecidos cafajestes. Marcelo Rubens Paiva e Sofia Coppola merecem minhas humildes reverências.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sessenta anos de telenovela

Neste mês a telenovela brasileira fez 60 anos. Pode-se dizer que ela é uma senhora respeitável e mantêm-se firme e forte no imaginário popular. Há pelo menos trinta anos as acompanho e, assim como milhares de brasileiros, costumava fazer uma associação entre o momento de vida que atravessava e a novela exibida na ocasião. Houve um tempo em que as trilhas sonoras de personagens marcantes também embalavam cenas do nosso cotidiano. Ficção e vida real se entrelaçavam, de fato. Talvez as novelas de hoje não sejam tão marcantes, uma vez que você a esquece assim que sua sucessora entra no ar. Há alguns anos atrás, você ouvia a música e sabia de quem era o tema. Além disso, era comum haver um luto maior quando o último capítulo de uma (boa) novela era exibido.

Resolvi fazer uma pequena listinha (já que estamos na época das listas) de nove novelas que marcaram minha vida de alguma forma. Talvez não sejam as melhores, em se tratando de teledramaturgia, mas foram as minhas. Vamos a elas:

Pai Herói (1979) - Janete Clair



Já escrevi sobre a novela aqui. André Cajarana (Tony Ramos) é o mocinho que busca a verdadeira história de seu pai, já morto.É a primeira novela de que tenho lembranças nítidas, e eu sequer sabia ler. A abertura era bem marcante e trazia um quebra-cabeças com a figura de um pai dando as mãos para um filho pequeno. A trilha sonora da novela, que trazia desde hits disco a uma balada francesa ("Allouette") me emociona até hoje. Sonhava com o dia em que pudesse ir para a discoteca, lugar em que iam minhas primas, já moças. O primeiro elogio de um menino que recebi foi durante "Pai Herói". Disse ele: "Você é mais bonita que a Carina". Carina era a mocinha interpretada por Elizabeth Savalla. Não existia, na época, elogio melhor.

Guerra do sexos (1983) - Silvio de Abreu

 O  primeiro grande sucesso de Silvio de Abreu, que já havia escrito "Jogo da vida" e "Pecado Rasgado", todas das sete. Silvio de Abreu ainda é um grande apaixonado pela cidade de São Paulo, cenário da maior parte de suas obras.  A primeira vez que fui a São Paulo foi durante a exibição de "Guerra dos sexos", ambientada lá, especialmente no shopping Eldorado, que também tinha o "Parque da Mônica". O caos paulistano, os parques e shoppings, novidades para uma menina do interior, me foram apresentados pelo olhar de Silvio de Abreu. A novela, de temática feminista, era engraçada e tinha um apelo grande com as crianças. E Maitê Proença parecia ser a mulher mais linda do mundo.

Maitê e seu cabelo pigmaleão

Vereda Tropical (1984) - Carlos Lombardi e Silvio de Abreu

A única novela do Lombardi que eu gostei do início ao fim (ainda que não tenha sido totalmente escrita por ele). Tinha a cantina italiana da dona Bina (Georgia Gomide), tinha o Mario Gomes que jogava futebol (o Luca), tinha o Jonas Torres antes de ser o Bacana, tinha o Marcos Frota de Super Téo. Também era uma novela fácil das crianças gostarem. Jonas Torres era o menino disputado por uma mãe solteira e batalhadora (Silvana, de Lucélia Santos) e o avô rico dos "cabelo fofo de algodão" (seu Oliva, de Walmor Chagas). O drama da mãe pobre que queria criar seu filho comovia, embora, no geral, a novela fosse muito leve e engraçada. Mario Gomes chegou a gravar um disco e cantar no Chacrinha por conta de seu sucesso como Luca.

Ti ti ti (1985/86) - Cassiano Gabus Mendes

Cassiano Gabus Mendes, um dos meus novelistas favoritos. "Ti ti ti" marcou minha pré-adolescência. Já estava também mais vaidosa e começava a me interessar por moda, um dos temas principais da novela. Eu realmente acreditei que o Boka Loka faria o garoto que eu gostava me tirar para dançar no bailinho de garagem. Pura ilusão.Victor Valentim me enganou.  A trilha sonora que contava com a cortante "Lover Why" embalou meu primeiro amor não correspondido. Este, a gente nunca esquece.

Roque Santeiro (1985/86) - Dias Gomes e Aguinaldo Silva

Era a novela das oito, enquanto "Ti ti ti" era exibida às sete. Cheguei a usar uma faixa igual a da Porcina. Foi também a época em que fui ao show do Menudo e assisti a alguns shows do primeiro Rock in Rio na tevê. A temática política, abordada na novela, não era muito clara para mim. No entanto, conseguia entender a hipocrisia que reinava naquela cidade pequena. Asa Branca poderia ser muito bem a cidade em que eu morava na época. De fato era um microcosmo em que a gente podia enxergar figuras muito familiares do nosso convívio. Comecei a me interessar por política aí. Noveleira não necessariamente é um ser alienado, mesmo aos 11 anos de idade.

Vale Tudo (1988/89) - Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Leonor Basséres


A franjinha "fashion" de Lídia Brondi

Vale Tudo foi exibida durante a minha oitava série. Tenho o ano todo registrado em uma agenda que eu NÃO joguei fora (me internem). Tomei meu primeiro porre com licor de chocolate (duas taças, três?) e me chamaram de Heleninha Roitman. Cortei a franja como Solange Duprat (Lídia Brondi), mas não conseguia colocar aqueles palitos no cabelo. Cássio Gabus Mendes, que fez o Afonso, era o meu mocinho preferido de novelas, apesar de não ser lindo. Aliás, eu nunca gostei muito dos lindos. Até hoje é assim. Odiava Maria de Fátima com todas as minhas forças, mas tinha simpatia pela dona Odete. Mandei carta para a promoção do caldo Maggi da galinha azul, mas não adivinhei que a assassina era a Leila (Cássia Kiss). Aliás, não lembro quem eu achava que era. Ainda bem, porque cultura inútil tem limites.

Mulheres de Areia (1993) -  Ivani Ribeiro

Segundo ano de faculdade. Queria chegar logo da aula para não perder a novela. Os efeitos especiais que faziam Glória Pires (Ruth e Raquel) contracenar com ela mesma eram novidade na época.
Foi um tempo em que virei "bicho grilo". As saias longas e shorts coloridos com keds brancos faziam o maior sucesso pela USP afora. Os olhos pintados de cajau como os da Malu (Viviane Pasmanter) também. Guilherme Fontes (pasmem!) era o galã da vez. Eu preferia o Leonardo Vieira, que despontava como estrela na novela das oito dos idos de 93 ("Renascer"). A fita K7 com "Easy" (do Faith no more) eu escutei até gastar. Acabou cozinhando dentro do toca-fitas do carro sob o sol escaldante de Ribeirão Preto.

Éramos Seis (1994) - (adaptação de Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho da obra de Maria José Dupré)

Tentativa de resgate do núcleo de teledramaturgia do SBT que deu certo. A novela ganhou o APCA de melhor novela do ano. Era para estrear um dia depois da morte de Ayrton Senna, estréia que foi adiada. Toda a programação da tevê só falava de Senna, inclusive em busca de audiência.
Eu, como fã do livro, assisti a novela do início ao fim. Cheguei a escrever uma carta para o Tarcísio Filho, que interpretou o Alfredo, para elogiar sua atuação. A cena em que o personagem se despede de sua mãe Lola (Irene Ravache) antes de partir para a guerra me fez chorar litros.

Laços de família (2000) - Manoel Carlos

É minha Helena preferida de Manoel Carlos, já falei aqui no blog. Muitos achavam que Vera Fisher não daria conta, mas ela fez bem o papel, ainda que com os seus sussuros de hábito ("Eduuuuuuuuuu..."). O tema de Helena cantada por Daniela Mercury ("Como vai você", de Antônio Marcos) marcou especialmente a minha vida. Também foram marcantes as sátiras feitas pelo Casseta e Planeta, com Bussunda trajando os vestidos com estampa de onça da "dona Helena". Helio de la Peña fazia a Zilda, a empregada de mil e uma utilidades.

O ano 2000 foi um ano em que trabalhei muito, vivi muito e amei também. Pensei até em me mudar para o Rio de Janeiro, a terra de Manoel Carlos, mas fiquei por aqui mesmo.

Bem, são essas. Escolhi nove novelas, a maioria globais e entre os anos 70 e 80, os anos de auge das novelas brasileiras (e também quando eu tinha mais tempo de assistir televisão). E você, qual novela marcou sua vida? Quer dar sua opinião aqui no blog?

domingo, 11 de dezembro de 2011

Eu quero trabalhar no Vídeo Show...

- O que você quer ser quando crescer?
- Psicóloga.
- É? E você sabe o que uma psicóloga faz?
- Ela ajuda as pessoas que estão tristes a ficarem melhor.

Assisti, espantada, a essa entrevista em um desses documentários da tevê a cabo. Houve outras, mas chamou-me a atenção o fato daquela criança de cinco anos querer ser... PSICÓLOGA. Eu nunca tinha visto uma criança querer ser psicóloga, muito menos com cinco anos. Nenhuma criança no meu tempo queria isso e muito menos tentava explicar o que era. Tirando as campeãs bailarina e cantora, a gente brincava de ser vendedora, dentista, secretária, mas de psicológa, jamais. Aliás, eu nem sabia o que era.
Na verdade, assim que fui alfabetizada, respondi a um questionário em que constava a pergunta fatídica "o que você vai ser quando crescer". Eu respondi, mal terminada a "Caminho Suave" que queria ser "escritora". Dois anos depois eu acrescentei que queria ser escritora e "trabalhar no Vídeo Show".

Tássia Camargo (lembram?) a primeira apresentadora do Vídeo Show
O Vídeo Show passava aos domingos e era uma espécie de Fantástico à tarde, um show de variedades com imagens interessantes, inclusive as antigas, do arquivo da Globo. Aliás, esta era a parte que eu mais gostava: o arquivo.


O primeiro logo da Globo
Todas aquelas cenas de novelas antigas de quando eu nem era nascida, aqueles comerciais da Kolinos, da Varig e dos cobertores Paraíba de 1900 e guaraná com rolha... Ah, como eu gostava daquilo. Tanto gostava que cheguei a decorar algumas cenas de "Selva de Pedra" e "Irmãos Coragem", sem nunca ter assistido na íntegra. Minha memória afetiva era a do Vídeo Show.

Depois o programa passou a ser ao sábados e cada vez mais trazia reportagens sobre os programas da Globo e seus bastidores. O principal  quadro das coisas antigas era o "Túnel do Tempo". O que você estava assistindo no dia 29 de Junho de 1979? Impossível não lembrar da Cissa Guimarães e sua voz sussurrada "direto do túnel do tempo".

Aliás, outra das coisas que eu gostava muito era um quadro do "Qual é a música" do eterno Silvio Santos que se chamava "Vitrola Musical". A vitrola tocava umas músicas cheias de chiado para que o Silvio perguntasse: "Fulano de tal, de quem é essa voz??"


Silvio Santos, o pândego

Geralmente era um povo do além (Aracy de Almeida, Orlando Silva, Emilinha Borba, Linda Batista, etc). Foi assim que eu aprendi a reconhecer os cantores do rádio, grandes vozes que fizeram sucesso nos anos 40. Silvio costumava ser sádico: "Esta música foi gravada antes de 1943 ou depois de 1943?" Eu vibrava quando acertava. A princípio, no chute. Depois fui aprendendo.

O tempo passou, o Vídeo Show passou a ser diário e caiu em qualidade e neurônios. Seu Silvio continua firme e forte no seu domingão o quanto pode. E eu, voltando ao diálogo que inicia este post, tornei-me psicóloga ao crescer, o projeto da menininha de cinco anos que não quer ver as pessoas tristes. Minha escolha pela psicanálise me faz lembrar de uma frase que a psicanalista Diana Corso escreveu dia desses:

"Psicanálise não deixa de ser uma oficina de escrita: diários prolixos, contos arrebatados, meticulosas novelas de fôlego. Edito, apenas."
 
 
Não me tornei escritora, nem trabalho no arquivo do Vídeo Show. Sendo uma boa editora das pequenas ficções humanas, dou-me por satisfeita. E feliz pelas crianças, hoje, terem curiosidade em saber o que, afinal, faz um psicólogo.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Tudo o que eu queria te dizer...

"Nunca deixe para amanhã o que você pode fazer hoje". Esta máxima é recorrente contra os procrastinadores de plantão que somos todos, uns mais, outros menos. Em contrapartida, fala a favor dos impulsivos que telefonam (ou tuítam) bêbados de madrugada. Soninha Francine, que é colunista da revista Vida Simples, problematiza esta afirmação em sua coluna deste mês. Embora às vezes a espera possa ser fatal, adiar pode ser uma benção. A decisão, no entanto, de quando fazer uma coisa ou outra não é tão fácil assim. Palavra dita não volta atrás. Mas o tempo perdido também não.

Uma das coisas bacanas do (quase) finado orkut, eram as comunidades. Depois virou uma várzea, mas no início era um espaço interessante para trocar informações e conhecer pessoas. Uma das comunidades era uma que falava de escritos não enviados ("Escrevi, mas não mandei"). O pessoal relatava cartas ou e-mails escritos e não mandados; alguns pediam opinião e depois compartilhavam as repercussões. Quem aqui nunca apertou a tecla send e se arrependeu que atire a primeira pedra. Eu sou do tempo do correio e já cheguei a pensar em interpelar o carteiro para que a carta não chegasse. Em tempos de internet e sms, a coisa é muito mais fatal.


Martha Medeiros, outra das escritoras super citadas, escreveu um livro interessante sobre o tema. É um livro de cartas ("Tudo o que eu queria te dizer") e traz diversos tipos delas: de filha para mãe, de fã para ídolo, de amante ressentida, etc. Todas são fictícias, mas é fácil se identificar em ao menos uma delas.

O efeito de uma mensagem, ainda mais escrita, nunca é completamente previsível. Como se escreveu? Como será lida e em quais circunstâncias? Sophie Calle, uma escritora francesa, enviou a carta de rompimento de seu ex-namorado para 107 mulheres para que elas dissessem o que achavam e como a interpretavam. Das mais diversas opiniões, ela fez uma exposição de arte. Na FLIP de 2009, ela e o ex se encontraram pela primeira vez pós-carta em uma mesa para um confronto. Foi o máximo que vi de onde uma carta escrita poderia chegar. E de como palavras ditas de forma infeliz podem ter um eco absurdo.

Enfim, uma tática interessante (e conhecida) é mandar para si mesma o e-mail (carta, sms, whatever) e ler um dia depois. Escritos sob forte emoção podem soar ridículos e malucos para quem lê e não está na mesma vibe. Já escrevi um e-mail de madrugada que começou cordial, evoluiu para uma série de impropérios e terminou com um obrigada. Não ganhei tempo com ele, não me aliviou em nada e a palavra escrita foi e não voltou. Há coisas que devem ser ditas sim, aqui, agora e para o destinatário correto. Há aquelas que podem esperar. E outras tantas, bem... guarde-as ou jogue-as fora se não servirem mais.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Mais Almodóvar...

Este é um post antigo que escrevi a propósito de "Fale com ela", de 2006. O blog no qual eu publiquei o texto original está com acesso difícil. Na época, eu escrevi sobre meus diretores favoritos, entre os quais o cineasta espanhol.

Grandes diretores: Pedro Almodóvar

Almodóvar é diretor, ator, roteirista e cantor, dos mais famosos da Espanha desde Carlos Saura e Luis Buñel, referências importantes do cinema espanhol. Seus filmes têm uma marca intensa; há toda uma galeria de personagens "almodovarianos" facilmente reconhecíveis.

Comecei a assistir a seus filmes com "O matador" (1986) e "Áta-me" (1990), ambos com seu ator-fetiche da época: Antonio Banderas, que, aliás, perdeu muito de seu encanto ao "migrar" para Hollywood e casar-se com Melanie Grifith.
Almodóvar costuma tratar os dramas humanos elevados à décima potência, especialmente os do universo feminino. No entanto, seus últimos filmes têm perdido um pouco das "tintas fortes" (leia-se muito sexo, diálogos picantes, humor cáustico e violência) e se tornado mais dramáticos, ternos e auto-biográficos. Embora não tenha visto "Volver" (2006), o mais recente, com Penélope Cruz, gostei muito de alguns dos seus últimos. "Tudo sobre minha mãe" (1999) e "Fale com ela" (2002) são obras primas.



Antes de assistir ao filme, li que "Fale com ela" era um drama "almodovariano" que tratava do universo masculino, após um filme muito "feminino" que havia sido "Tudo sobre minha mãe". Na verdade, eu ainda acredito que Almodóvar fala também da mulher neste, mas através dos olhos e do entendimento de dois homens distintos, mas sensíveis e (por que não?) femininos. Os homens deste filme fogem completamente do estereótipo do macho latino.

A primeira cena do filme dá a idéia do que virá depois. Dois homens sentam-se lado a lado para assistir a um espetáculo de dança. No espetáculo, duas mulheres expressando muito sofrimento dançam e um homem tenta ter acesso às duas, sem sucesso. Enquanto a peça corre, um dos homens da platéia (o jornalista Marco -Darío Grandinetti) chora copiosamente enquanto é observado com curiosidade pelo enfermeiro Benigno (Javier Cámara). Acredito que a temática do filme seja justamente esta: a dificuldade do acesso ao amor de uma mulher e ao que uma mulher deseja. Enquanto Marco, após uma decepção amorosa, ira se envolver com uma mulher fálica, uma toureira com sucessivas relações fracassadas, Benigno está há quatro anos cuidando e amando uma mulher em coma após um acidente de carro. Com esta mulher, aliás, ele mal havia trocado algumas palavras, antes do acidente ocorrer. A vida desses dois homens irá se cruzar novamente ao longo do filme, bem como suas tentativas de amar e compreender as mulheres.


Segundo a psicanalista Sylvia Loeb, (...)"Freud via as mulheres como enigmas de difícil resolução, não conseguia compreendê-las, comparava-as a um imenso continente africano, exótico, diferente, intangível.Um dia, desanimado, perguntou-se: " O que quer uma mulher?" Questão à qual jamais logrou responder satisfatoriamente.Almodóvar responde a essa questão no próprio título de seu extraordinário filme: "fale com ela", diz Almodóvar a Freud: fale com ela."

Curiosidades:


- Este filme foi indicado ao Oscar de melhor direção, mas apenas ganhou o de melhor roteiro, em 2003.


- Caetano Veloso, amigo pessoal de Almodóvar, aparece cantando em cena, neste filme. A música é "Cucurucucu Paloma".


- Há uma outra música, lindíssima ("Por toda minha vida", de Tom e Vinícius) cantada por Elis Regina que serve de pano de fundo para uma grande cena do filme.