Eu não me lembrava que ele tinha morrido tão jovem. Lauro Corona tinha 32 anos quando faleceu, em 1989, em decorrência de AIDS. Isso foi há mais de vinte anos quando a homossexualidade e AIDS ainda eram temas tabus. Foi no mesmo ano em que a doença levou Cazuza.
Lembrei de Lauro Corona ao ler sobre ele na revista Joyce Pascowitch deste mês. A revista costuma relembrar ídolos de outros tempos. Esquecidos ou nem tanto.
Laurinho, como era conhecido, era presença onipresente na tevê. Era o equivalente, talvez, a um Cauã Reymond ou, pela semelhança física, um Bruno Gagliasso. Foi ídolo teen nos anos 7o e elogiadíssimo por seu talento nos anos 80. Além da pouca idade, chamou-me atenção o pouco tempo que ficou na mídia: 10 anos. A impressão que tinha, talvez por ser eu também muito novinha, era de que Lauro Corona esteve na tevê por muito tempo.
Morrer com AIDS naqueles tempos era algo muito triste. Era uma doença que não se falava o nome. Muitos artistas iam sumindo da mídia e, tempos depois, sabía-se da morte por causas misteriosas. Lauro Corona estava gravando uma novela das seis na época (Vida Nova) e, apesar de ser protagonista, teve de interromper sua participação. Já não tinha mais os cachos que o fizeram famoso e os olhos azuis pareciam muito distantes. A AIDS tinha uma cara. O olhar de quem tinha AIDS, aliado ao emagrecimento e, por vezes, ao efeito do AZT, era inconfundível. Lembro-me da sensação que tive ao assistir Lauro Corona em sua última novela. Eu senti que ele não faria mais nenhuma.
Pensando no ator, tive vontade de revê-lo cantar, junto de uma adolescente Glória Pires, o tema do casal em Dancin´Days. Segundo pessoas próximas, na época, eles eram tão amigos e viviam tão em sintonia que até respiravam no mesmo ritmo. É minha música preferida de Chico Buarque: João e Maria.
domingo, 15 de maio de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Sobre príncipes, contos de fadas e estórias de infância
Muito já se escreveu sobre o impacto de grandes acontecimentos na vida de pessoas comuns. É muito frequente a gente se lembrar do que fazíamos em nosso prosaico cotidiano em dias que ficaram memoráveis para o mundo . Por exemplo: onde você estava quando o Senna morreu? Com quem estava no tetracampeonato? E, mais longe: quantos anos tinha quando o homem pisou na lua?
Eu, a despeito da minha memória ridícula para coisas um tanto quanto inúteis me lembro, às vezes, até da roupa que vestia na ocasião. Tenho, por exemplo, a lembrança nítida do impacto que tive ao ver a princesa Diana entrar na igreja. Não, eu não achei cafona aquele vestido que mais parecia um repolho. Eu achei lindo. E a princesa Diana era a mulher mais bonita do universo. Afinal, ela era uma princesa de verdade. E eu, uma criança.
O casamento da Diana aparece em minha memória como uma coisa tão antiga que ela fica lá nas gavetinhas da infância com meu pai. E elas são muito vívidas, embora eu tenha vivido pouco com ele. Já disse em outro post e repito aqui, que meu pai adorava revistas, especialmente a Manchete, que tinha fotos imensas. E era por lá que eu acompanhava a saga de Diana, a primeira princesa de verdade que eu tive notícia. Tá certo que eu achei o príncipe Charles meio feio. No entanto, meu pai me assegurou que ele tinha irmãos mais bonitos (!) e um deles seria o meu príncipe. Péssimo, pai, péssimo. Por alguns anos eu acreditei, até Andrew, o único irmão bonito, se casar com a louca da Sarah Ferguson.
Algum tempo depois, meu pai se foi de forma trágica e a princesa de verdade, Diana, também. O conto de fadas com Charles, no entanto, morreu antes dela. Essas lembranças todas aparecem novamente quando sou bombardeada com as notícias do casamento do príncipe William amanhã, com sua "lady Kate". Percebo que sou velha porque a capa da Manchete com o bebezinho loiro de perninhas gordas ainda é bem nítida. E, além disso, não me comovo mais com saga de princesas, nem com príncipes, bonitos ou feios, cabeludos ou carecas. Ainda assim, certeza que vou dar uma olhadinha no vestido da noiva, anos-luz do repolhudo de 1981.
Eu, a despeito da minha memória ridícula para coisas um tanto quanto inúteis me lembro, às vezes, até da roupa que vestia na ocasião. Tenho, por exemplo, a lembrança nítida do impacto que tive ao ver a princesa Diana entrar na igreja. Não, eu não achei cafona aquele vestido que mais parecia um repolho. Eu achei lindo. E a princesa Diana era a mulher mais bonita do universo. Afinal, ela era uma princesa de verdade. E eu, uma criança.
O casamento da Diana aparece em minha memória como uma coisa tão antiga que ela fica lá nas gavetinhas da infância com meu pai. E elas são muito vívidas, embora eu tenha vivido pouco com ele. Já disse em outro post e repito aqui, que meu pai adorava revistas, especialmente a Manchete, que tinha fotos imensas. E era por lá que eu acompanhava a saga de Diana, a primeira princesa de verdade que eu tive notícia. Tá certo que eu achei o príncipe Charles meio feio. No entanto, meu pai me assegurou que ele tinha irmãos mais bonitos (!) e um deles seria o meu príncipe. Péssimo, pai, péssimo. Por alguns anos eu acreditei, até Andrew, o único irmão bonito, se casar com a louca da Sarah Ferguson.
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| Diana, o fatídico vestido, e o príncipe que virou sapo |
Algum tempo depois, meu pai se foi de forma trágica e a princesa de verdade, Diana, também. O conto de fadas com Charles, no entanto, morreu antes dela. Essas lembranças todas aparecem novamente quando sou bombardeada com as notícias do casamento do príncipe William amanhã, com sua "lady Kate". Percebo que sou velha porque a capa da Manchete com o bebezinho loiro de perninhas gordas ainda é bem nítida. E, além disso, não me comovo mais com saga de princesas, nem com príncipes, bonitos ou feios, cabeludos ou carecas. Ainda assim, certeza que vou dar uma olhadinha no vestido da noiva, anos-luz do repolhudo de 1981.
terça-feira, 19 de abril de 2011
A saga de João Coragem
Eu conheci o Tarcísio Meira já coroa. No entanto, aos 50 anos, ele estava ainda muito bonito. Foi quando fez o épico Capitão Rodrigo em "O tempo e o vento" e o ambivalente Renato Villar em "Roda de Fogo" em meados dos anos 80.
No entanto, embora eu ainda não fosse nascida na época, o que me fascinava era a imagem de Tarcísio em "Irmãos Coragem", a trama rocambolesca de Janete Clair do início dos anos 70. Quando a tevê Globo fez 25 anos, apresentou uma "versão compacta" da novela e eu, criançona, babava por aquele homem lindo e heróico.
Eis que a novela sai em DVD e eu, mais do que imediatamente adquiro esta trama da era paleozóica da tevê. A trama durou quase um ano. Deu tempo da Regina Duarte engravidar, ter o bebê e a novela ainda estar no ar.
A novela não tinha edição. As cenas iam ao ar praticamente como eram gravadas. A trilha sonora era gravada juntamente com a cena (tipo, o mocinho ia beijar a mocinha ouvindo sua música tema). As externas tinha uma iluminação terrível e as cenas de ação eram toscas (percebía-se que os socos eram de "mentirinha"). Os cortes de uma cena para outra eram abruptos (há que se considerar que no DVD algumas cenas tiveram de ser cortadas), os cenários feios e as roupas pareciam ser de costureira (de fato,deveriam ser). O gerador era tão barulhento que é possível ouvir o barulho nas externas.
No entanto, o texto era bom e os personagens bem construídos, na medida do possível. João Coragem, o personagem de Tarcísio, era o irmão mais velho, justo e ponderado. Jerônimo (Cláudio Cavalcanti), o do meio, era mais esquentado e ligado à política. E Duda (Claudio Marzo), o caçula, era ambicioso e ousado. A trama conta a saga dos três irmãos em busca de justiça contra o coronel do local, o cruel Pedro Barros. Há ainda as paixões dos irmãos: Lara (Glória Menezes), Ritinha (Regina Duarte) e a índia Potira (Lúcia Alves).
No entanto, embora eu ainda não fosse nascida na época, o que me fascinava era a imagem de Tarcísio em "Irmãos Coragem", a trama rocambolesca de Janete Clair do início dos anos 70. Quando a tevê Globo fez 25 anos, apresentou uma "versão compacta" da novela e eu, criançona, babava por aquele homem lindo e heróico.
Eis que a novela sai em DVD e eu, mais do que imediatamente adquiro esta trama da era paleozóica da tevê. A trama durou quase um ano. Deu tempo da Regina Duarte engravidar, ter o bebê e a novela ainda estar no ar.
A novela não tinha edição. As cenas iam ao ar praticamente como eram gravadas. A trilha sonora era gravada juntamente com a cena (tipo, o mocinho ia beijar a mocinha ouvindo sua música tema). As externas tinha uma iluminação terrível e as cenas de ação eram toscas (percebía-se que os socos eram de "mentirinha"). Os cortes de uma cena para outra eram abruptos (há que se considerar que no DVD algumas cenas tiveram de ser cortadas), os cenários feios e as roupas pareciam ser de costureira (de fato,deveriam ser). O gerador era tão barulhento que é possível ouvir o barulho nas externas.
No entanto, o texto era bom e os personagens bem construídos, na medida do possível. João Coragem, o personagem de Tarcísio, era o irmão mais velho, justo e ponderado. Jerônimo (Cláudio Cavalcanti), o do meio, era mais esquentado e ligado à política. E Duda (Claudio Marzo), o caçula, era ambicioso e ousado. A trama conta a saga dos três irmãos em busca de justiça contra o coronel do local, o cruel Pedro Barros. Há ainda as paixões dos irmãos: Lara (Glória Menezes), Ritinha (Regina Duarte) e a índia Potira (Lúcia Alves).
A personagem de Glória Menezes enlouquecia o simplório João Coragem pois tinha três personalidades distintas: a recatada Lara, a devassa Diana e a equilibrada Márcia. A trama teria sido inspirada no filme "As três máscaras de Eva" (1957) que deu o Oscar a Joanne Woodward. A resolução da doença da moça é resolvida com uma cirurgia no cérebro (!) nos últimos capítulos.
Passei o domingo assistindo parte da novela e pensando em como o mundo era mais ingênuo e mais simples. No entanto, Tarcísio Meira enche a tela como o mocinho dos mocinhos. João Coragem continua sendo o meu herói preferido.
terça-feira, 12 de abril de 2011
"Filmes de chorar"
Ah, como é bom chorar no cinema. Todas aquelas lágrimas deslocadas de algum lugar ou momento para desembocar naquele escurinho "protegido". Ah, agora posso! E dá-lhe olhos inchados.
Sem nenhum rigor, acredito que um dos primeiros filmes "de chorar" foi o "Suplício de uma saudade" nos já longínquos anos 50, com um (ainda) garotão William Holden. Outro que é um clássico da choradeira é "Love Story"(1970), também um representante mór de outra categoria: os "filmes de doença". "Filmes de doença" geralmente também são "filmes de chorar".
Muito se falou a respeito de um sucesso recente do cinema: "P.S. Eu te amo", com Gerald Butler. Não sei se pelo fato das pessoas me avisarem de antemão para preparar o lencinho, eu torci o nariz. Toda cena parecia meticulosamente calculada para ser "a hora do choro". É um legítimo "filme de doença" + "filme de chorar". Clichezão, a gente vê por aqui.
Daí que eu escolhi assistir a um filme novo (deste ano, creio eu), com título de música que toca na rádio AM: "Não me abandone jamais". A escolha se deu pela atriz, a fofa Carey Mulligan. A sinopse, descrita brevemente, era sobre a história da relação de três adolescentes que crescem juntos. Inocentemente, achei que o filme fosse leve. Ledo engano.
Não sei se para qualquer um pode-se dizer que é um "filme de chorar", nem "um filme de doença", embora envolva hospitais e tudo mais. Há algo de ficção científica, inclusive. O que sei é que devo ter chorado pela vida inteira dentro do cinema. Se você não suporta obviedades, vá conferir. O filme vale pela fofíssima atriz citada acima, mas especialmente pelo rapaz protagonista (Andrew Garfield, de "A rede social"), que tem um olhar de cortar a alma em duas. Há como se falar de amor (além de outros tantos temas no filme) sem parecer um idiota e isso pode, de fato, emocionar.
P.S.: Escrevi um post sobre outro filme bom da "catiguria" aqui: http://letrasdelets.blogspot.com/2008/10/paixo-nos-tempos-do-clera.html:
Sem nenhum rigor, acredito que um dos primeiros filmes "de chorar" foi o "Suplício de uma saudade" nos já longínquos anos 50, com um (ainda) garotão William Holden. Outro que é um clássico da choradeira é "Love Story"(1970), também um representante mór de outra categoria: os "filmes de doença". "Filmes de doença" geralmente também são "filmes de chorar".
Muito se falou a respeito de um sucesso recente do cinema: "P.S. Eu te amo", com Gerald Butler. Não sei se pelo fato das pessoas me avisarem de antemão para preparar o lencinho, eu torci o nariz. Toda cena parecia meticulosamente calculada para ser "a hora do choro". É um legítimo "filme de doença" + "filme de chorar". Clichezão, a gente vê por aqui.
Daí que eu escolhi assistir a um filme novo (deste ano, creio eu), com título de música que toca na rádio AM: "Não me abandone jamais". A escolha se deu pela atriz, a fofa Carey Mulligan. A sinopse, descrita brevemente, era sobre a história da relação de três adolescentes que crescem juntos. Inocentemente, achei que o filme fosse leve. Ledo engano.
Não sei se para qualquer um pode-se dizer que é um "filme de chorar", nem "um filme de doença", embora envolva hospitais e tudo mais. Há algo de ficção científica, inclusive. O que sei é que devo ter chorado pela vida inteira dentro do cinema. Se você não suporta obviedades, vá conferir. O filme vale pela fofíssima atriz citada acima, mas especialmente pelo rapaz protagonista (Andrew Garfield, de "A rede social"), que tem um olhar de cortar a alma em duas. Há como se falar de amor (além de outros tantos temas no filme) sem parecer um idiota e isso pode, de fato, emocionar.
P.S.: Escrevi um post sobre outro filme bom da "catiguria" aqui: http://letrasdelets.blogspot.com/2008/10/paixo-nos-tempos-do-clera.html:
quarta-feira, 23 de março de 2011
A bela fera
Ela não era doce como Marilyn, nem tinha aquele corpão todo. Também não era elegante como Grace Kelly e Audrey Hepburn. Não cantava e dançava como Doris Day e Judy Garland. Aliás, sua voz tinha algo de esganiçado e era bastante marcante em alguns dos papéis de megera que interpretou. Apesar disso, nunca houve "beleza de cinema" como a de Elizabeth Taylor. Com ela, morre uma época.
Apesar do rosto de anjo, Elizabeth Taylor sempre foi "bocuda". Grandiosa na tela, ela era baixinha (não tinha 1,60!) e invocada. Bem jovem, já falava o que pensava e não tinha papas na língua. Sempre foi conhecida por ser autêntica e fiel aos amigos por mais controversos que eles pudessem ser. Os fãs de Montgomery Clift, Rock Hudson e Michael Jackson, apenas para citar alguns, são gratos a Liz pela generosidade que ela dedicou a eles.
Clift era sua alma gêmea no cinema. Com ele, ela formou um dos casais mais belos em um filme. Foi saindo da casa dela que ele sofreu um acidente quase fatal que deformou seu belo rosto. Ao saber do acidente (em uma das colinas de Hollywood, cheia de curvas), ela correu a pé até o local. O carro estaria destruído com o ator dentro dele. Ela teria aberto o carro e o encontrado afogado com sangue e um dos dentes quebrados. Não teve dúvidas, abriu a boca dele e tirou o dente, salvando sua vida! Além disso, quando, falido e problemático, nenhum estúdio queria arriscar cobrir seu seguro de vida, Liz chegou a dar o seu salário como garantia para que ele filmasse com ela.
Rock Hudson tinha AIDS no auge da paranóia mundial (não se sabia exatamente como era o contágio, por exemplo) e Liz aparecia abraçada a ele. Após sua morte, batalhou junto ao governo republicano e reacionário de Ronald Reagan por verba para pesquisas. Foi uma pioneira. Seu trabalho junto às pesquisas sobre a AIDS cresceu.
E o que dizer de Michael Jackson? Mesmo depois das acusações de abuso sexual e escândalos diversos, Elizabeth Taylor vinha a público acompanhada por ele em eventos, sempre o defendendo. Recusou-se, em 2009 a participar do espetáculo televisivo que a família Jackson organizou por ocasião da morte do cantor. Disse, inclusive no twitter, que sua dor não precisava ser pública.
Ela era uma "criatura do cinema", crescendo aos olhos do público. No entanto, Liz não parecia fake. Adoecia, assumia-se alcóolotra, viciada em comida e carente. Era de uma beleza inimaginável, mas de uma histeria palpável, comum à maioria de nós, mulheres. Seu obituário estava pronto há anos devido as suas inúmeras doenças, mas ela fazia pouco disso. Sua morte não chega a ser uma surpresa, mas não deixa de ser triste, especialmente para os fãs do (bom) cinema.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Loucura e ficção
Em meados dos anos 90, um filme sobre “loucura” fez imenso sucesso popular. Seu protagonista era um jovem Johnny Depp e quem contracenava com ele era, nada mais, nada menos que o “divo” Marlon Brando, após anos de recesso. O filme era Don Juan de Marco e sua trilha sonora grudenta ainda ecoa nos meus ouvidos.
Confesso que, na época, causou-me certo incômodo a mensagem final do longa. Don Juan, na verdade, era um paciente psicótico que, em seus delírios, era um aventureiro irresistível para as mulheres. A parceria deste paciente com seu psiquiatra (Brando) transforma a vida de ambos, especialmente a do médico. Ele, outrora distante da mulher, torna-se um homem mais romântico e menos rígido. Um roteiro bem americano e redondo, com um final feliz. Meu incômodo deu-se justamente por isso: pelo fato da loucura ter sido um tanto quanto romantizada e, de certa forma, confundida com ousadia, como em tantos outros filmes.
Muitos criticam o fato do filme ser exagerado. Talvez seja, mas não consigo ver onde. Outra crítica é a respeito do espectador não saber, ao final, o que foi delírio de Nina e o que de fato aconteceu. Ora, mas é justamente esta a idéia. Não há como um filme ser leve, quando se trata de loucura, doença mental, perda de realidade. Loucura, ousadia, enfiar o pé na jaca, é outra coisa bem diferente. Vale a pena assistir “O cisne negro”. Don Juan, só para ver o Johnny Depp.
Confesso que, na época, causou-me certo incômodo a mensagem final do longa. Don Juan, na verdade, era um paciente psicótico que, em seus delírios, era um aventureiro irresistível para as mulheres. A parceria deste paciente com seu psiquiatra (Brando) transforma a vida de ambos, especialmente a do médico. Ele, outrora distante da mulher, torna-se um homem mais romântico e menos rígido. Um roteiro bem americano e redondo, com um final feliz. Meu incômodo deu-se justamente por isso: pelo fato da loucura ter sido um tanto quanto romantizada e, de certa forma, confundida com ousadia, como em tantos outros filmes.
O filme sensação da temporada 2010-11 tem sido “O cisne negro”, um dos concorrentes ao Oscar deste ano. É outra abordagem da loucura. O espectador é levado a sentir, juntamente com a protagonista Nina (Natalie Portman) a perda gradual do contato com a realidade. O filme já começa com um jogo de espelhos: Nina e a mulher que se projeta nela (a mãe), Nina e a mulher que ela quer ser (Beth, a bailarina veterana) e Nina e a mulher que seria o seu lado negro (Lilly). Em sua transformação ao longo do filme, ela se vê nessas mulheres e em outras que cruzam seu caminho (no metrô, por exemplo). No universo do balé em que os limites do corpo são enfrentados diariamente, você é convidado a olhar o mundo através dos olhos de Nina (no que contribui, e muito, a movimentação da câmera). Sem exageros, você chega a sentir (especialmente dentro da sala de cinema) as dores físicas da personagem cujo corpo, real ou de forma alucinatória, se transforma. Como pano de fundo, a música cortante de Tchaikovisky.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
A noite dos desesperados do BBB
Há um grande filme do final dos anos 60 que retrata com maestria o sofrimento na época da Grande Depressão Americana, pós crise de 29. "A noite dos desesperados" é um filme denso com uma brilhante Jane Fonda entre os papéis principais.
Durante aqueles anos de miséria, havia vários concursos de dança espalhados pelo país, onde o casal vencedor ganhava, desde comida a alguns poucos dólares. Os casais passavam dias dançando e alguns chegavam a morrer por exaustão. Além da dança, eles passavam por uma maratona ao longo da pista. O espetáculo deprimente era assistido por uma platéia ávida por espetáculo, que escolhia seus preferidos, estimulados por uma espécie de animador de auditório que instigava os competidores. O filme foi inspirado em um livro, escrito por um dos seguranças destes concursos, que acompanhou de perto o martírio daqueles jovens. Não há como não associar esse tipo de espetáculo "pré - Andy Warhol" aos shows "de realidade" dos nossos tempos, entre eles o famigerado Big Brother.
Nunca escondi que gosto do BBB. É um programa bem editado e ótimo entretenimento. No entanto, com o amadurecimento "dos jogadores" e do público votante, alguns macetes e jogadas começaram a ficar manjadas e o dono do circo, Boninho, tem tido que inovar. O que acontece é que ele não inova na escolha do elenco (os mesmos tipos estão lá, especialmente os acéfalos), mas exagera no estímulo à baixaria e e na tortura. Nunca houve tantas cenas editadas de uma festa como a do último sábado. O abuso de álcool aconteceu, mas dizem que também houve oferta de lança perfume. Uma das participantes entrou em coma alcóolico e foi atendida por médicos, sendo tudo devidamente gravado e apresentado no pay-per-view. Enquanto isso, o maestro Boninho se divertia e ria no twitter enquanto relatava as baixarias. Ontem, durante a prova do líder patrocinada pela Knorr, os participantes tiveram de se vestir de frangos e a entrarem num forno (Hitler feelings) madrugada adentro, onde recebiam ondas de calor. Cabia aos telespectadores a escolha sádica de qual grupo castigar mais. Muitos atravessaram a noite no twitter, divertindo-se (a là Boninho) com o sofrimento dos "brothers".
Nos concursos dos anos 30, as pessoas, miseráveis, queriam pão. Hoje em dia, querem fama em primeiro lugar, seja a que preço for. Pelo BBB já passaram, a despeito do desprezo dos intelectuais, pessoas interessantes, engraçadas, que emocionavam o público. No entanto, a exposição da sexualidade e da intimidade de forma tão crua e infantilizada como na atual edição chega a me constranger. A crueldade do diretor me deprime. O BBB 11 chega a ser tão triste quanto o show dos casais dos anos 30 que morriam na pista de dança. É, "a nave louca" perdeu a graça para mim.
Durante aqueles anos de miséria, havia vários concursos de dança espalhados pelo país, onde o casal vencedor ganhava, desde comida a alguns poucos dólares. Os casais passavam dias dançando e alguns chegavam a morrer por exaustão. Além da dança, eles passavam por uma maratona ao longo da pista. O espetáculo deprimente era assistido por uma platéia ávida por espetáculo, que escolhia seus preferidos, estimulados por uma espécie de animador de auditório que instigava os competidores. O filme foi inspirado em um livro, escrito por um dos seguranças destes concursos, que acompanhou de perto o martírio daqueles jovens. Não há como não associar esse tipo de espetáculo "pré - Andy Warhol" aos shows "de realidade" dos nossos tempos, entre eles o famigerado Big Brother.
Nunca escondi que gosto do BBB. É um programa bem editado e ótimo entretenimento. No entanto, com o amadurecimento "dos jogadores" e do público votante, alguns macetes e jogadas começaram a ficar manjadas e o dono do circo, Boninho, tem tido que inovar. O que acontece é que ele não inova na escolha do elenco (os mesmos tipos estão lá, especialmente os acéfalos), mas exagera no estímulo à baixaria e e na tortura. Nunca houve tantas cenas editadas de uma festa como a do último sábado. O abuso de álcool aconteceu, mas dizem que também houve oferta de lança perfume. Uma das participantes entrou em coma alcóolico e foi atendida por médicos, sendo tudo devidamente gravado e apresentado no pay-per-view. Enquanto isso, o maestro Boninho se divertia e ria no twitter enquanto relatava as baixarias. Ontem, durante a prova do líder patrocinada pela Knorr, os participantes tiveram de se vestir de frangos e a entrarem num forno (Hitler feelings) madrugada adentro, onde recebiam ondas de calor. Cabia aos telespectadores a escolha sádica de qual grupo castigar mais. Muitos atravessaram a noite no twitter, divertindo-se (a là Boninho) com o sofrimento dos "brothers".
Jane Fonda no filme de 1969
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