"Não me lembro mais onde foi o começo, foi por assim dizer escrito todo
ao mesmo tempo. Tudo estava ali, ou devia estar, como no espaço-temporal
de um piano aberto, nas teclas simultâneas do piano. Escrevi procurando
com muita atenção o que se estava organizando em mim e que só depois da
quinta paciente cópia é que passei a perceber. Meu receio era de que,
por impaciência com a lentidão que tenho em me compreender, eu estivesse
apressando antes da hora um sentido. Tinha a impressão de que, mais
tempo eu me desse, e a história diria sem convulsão o que ela precisava
dizer. Cada vez mais acho tudo uma questão de paciência, de amor criando
paciência, de paciência criando amor."
(Clarice Lispector)
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
terça-feira, 21 de agosto de 2012
O tempo
"(...) Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo..."
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo..."
(Oração ao Tempo - Caetano Veloso)
"Você já parou para pensar que vinte anos pode não ser muito tempo?"- perguntou-me um amigo quando eu, assustada, constatava que nossas lembranças de vida já contam duas ou mais décadas. Na verdade, não sei bem a resposta. Até cinco anos podem parecer uma eternidade, dependendo do que se lembra e como se lembra.
Quando temos quinze anos, uma pessoa de trinta é um idoso. Quando se tem sete, o Natal demora uma vida toda para chegar. Quando se tem vinte, duas décadas é a sua vida toda e, portanto, muito tempo. E quando se tem mais de trinta? E quando se tem sessenta, setenta?
O que eu sempre achei curioso é que em muitas telenovelas e filmes nos quais ocorre a passagem do tempo, dois atores (ou atrizes) interpretam o mesmo papel em fases diferentes. É assim que, por exemplo, o altíssimo Paulo Gorgulho virou o baixinho Claudio Marzo (Pantanal, 1990), Adriana Esteves virou Renata Sorrah (Senhora do Destino, 2004), e a Giulia Gam virou ... a Vera Fisher!
![]() |
| Giulia Gam e Vera Fisher como Jocasta em Mandala (1988) |
No entanto, mais surpresa fico eu quando percebo que amigos, amores de 20 anos atrás atualizam o passado só com a sua presença. E lá está aquela risada tão familiar, o jeito de andar, os mesmos vícios de linguagem e o prazer bom de estar junto. E de repente, em um (re)encontro, todo mundo é adolescente de novo e também são adolescentes os afetos que se presentificam. Vinte anos não passaram. Foi tudo ontem. É agora.
Freud (sempre ele) dizia que o inconsciente não conhece o tempo. Para ele, o tal inconsciente, não existiria passado, presente ou futuro. Os sonhos mostram isso para nós quando, por exemplo, sonhamos que a casa em que moramos quando criança ressurge, como se fosse a casa em que moramos agora. É a casa velha, mas também é a casa nova.
E agora, concluindo o texto e voltando à pergunta do meu amigo querido, eu penso que vinte anos podem, de fato, representar séculos, mas também podem não ser nada. Se são dores antigas, que permaneçam como fitas VHS que não quero rebobinar. Se são afetos bons, que eu possa ter 15, 20 anos de novo. Sem plástica, nem botox.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Sobre a transitoriedade...
(...) O valor da transitoriedade é o valor da escassez do tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, lhes empresta renovado encanto. Uma flor dura apenas uma noite e nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e as estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras dos nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda a beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta".
(Trecho de "Sobre a Transitoriedade", texto escrito em 1915, por Sigmund Freud)
(Trecho de "Sobre a Transitoriedade", texto escrito em 1915, por Sigmund Freud)
sábado, 28 de julho de 2012
V, de Vingança
"Quando atacar alguém por vingança, prepare duas covas" (Confúcio)
Na ficção, a garota Rita era maltratada pela madrasta Carmem Lúcia sem que o pai se apercebesse disto. Carmem Lúcia, além disso, enganava o pai de Rita, traindo-o com um amante mau caráter. Quando Genésio, o pai, vende a casa própria que era tudo que a família tinha, Carmem alia-se ao amante para dar um golpe no marido, roubando-lhe todo o dinheiro. A pequena Rita descobre e consegue avisar o pai, que se desvincilha do golpe. No entanto, a caminho da delegacia, Genésio é atropelado por um famoso jogador de futebol e morre. Encarnando uma pobre viúva, Carmem Lúcia, além de ficar com todo o dinheiro do marido, abandona a menina, aos gritos, em um lixão. Posteriormente, ainda dá um golpe no jogador de futebol que, por pena, casa-se com ela. A vingança de Rita, a garota orfã, é o enredo desta trama, da novela "Avenida Brasil", atualmente no ar, pela Globo.
Mel Maia, como "a pequena órfã"
A história de uma garota orfã nas mãos de uma madrasta má e, muitas vezes, invejosa, não é nova. Os clássicos contos de fada "Cinderela" e "Branca de Neve" estão aí para comprovar. A trama da vingança também não. De " O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas (que inspirou a novela "Sangue do meu sangue", de Vicente Sesso) ao romance "Tieta", de Jorge Amado, muitos são os dramas com heróis vingativos. A trilogia "Millenium", sucesso estrondoso na literatura sueca e no cinema nos últimos anos, traz uma heroína moderna e vingadora: a andrógina e fascinante Lisbeth Salander.
A saga de Rita/Nina faz também lembrar outra protagonista que quis vingar sua família na teledramaturgia. Malu Mader encarnou Cláudia, a "Fera Radical" (1988) que arquitetou planos de vingança contra a família Flores.
a sexy fera radical Malu Mader
Os planos de Claudia ficam perturbados quando ela se apaixona por Fernando Flores (José Mayer), pertencente à família que ela pretendia vingar. Isso é também comum nas tramas: o grande amor se sobrepõe ao ódio. Foi assim com Ana Francisca (Mariana Ximenes), a moça doce e humilhada que volta para se vingar rica e poderosa de seus algozes em "Chocolate com Pimenta" (2003). No entanto, havia o amor de Danilo (Murilo Benício) no meio do caminho.
Quando nem um grande amor detém a vingadora, então ela não é uma mocinha, é vilã. Em "Celebridade" (2003), a vilã Laura quer tirar tudo de Maria Clara Diniz por vingança. Laura acredita que um sucesso musical composto para Maria Clara teria sido, na verdade, feito para sua mãe. Assim sendo, Maria Clara teria ficado com os louros de uma glória que não era sua e, consequentemente, com os dividendos da canção. A vilã vingadora, claro, é punida no final.
Rita/Nina, a protagonista de Avenida Brasil, não é Cláudia, nem Ana Francisca, nem Laura. Ela se assemelha mais à sueca Lisbeth, seja pelo visual andrógino, seja pela inteligência, seja pela moto. Mais ainda: se assemelha pela neurose. Amor nenhum pára Rita ou Lisbeth. Seus objetivos são outros. Elas não são más, são neuróticas.
A pobre Lisbeth não tem nada a perder. Nina tem. Se, no início, ela perdeu o pai e foi parar no lixão, depois ganhou muitas coisas. Fez amigos no lixão (Jorginho, seu namorado, entre eles) e foi adotada, mais tarde, por uma família rica da Argentina. Ganhou um pai amoroso, irmãs afetuosas e uma educação que talvez seu pai biológico não pudesse dar. O limão, portanto, virou uma limonada. No entanto, ela não consegue desfrutar de nada disso pois só pensa em Carmem Lúcia.
O interessante de Avenida Brasil é mostrar a morte, aos poucos, de Rita/Nina. Ela quer tirar tudo de Carminha, mas ao mesmo tempo, tira tudo de si mesma. Este é o ineditismo da novela, uma vez que todos os outros temas já foram visitados. O enredo faz valer a frase de Confúcio que inicia este post. O vingador leva o outro para a cova, mas leva a si mesmo também.
Eu, tantas vezes cri-cri com frases consoladoras populares, cito uma delas para encerrar este texto. Nina, minha filha, larga a Carminha pois a melhor vingança, afinal, é ser feliz.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Queixa
Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente, que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa
Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água
Ondas, desejo de vingança
Dessa desnatureza
Bateu forte sem esperança
Contra a tua dureza
Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa!
(Caetano Veloso)
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente, que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa
Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água
Ondas, desejo de vingança
Dessa desnatureza
Bateu forte sem esperança
Contra a tua dureza
Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa!
(Caetano Veloso)
domingo, 22 de julho de 2012
Something
"Something in the way she moves
Attracts me like no other lover"
O beatle poeta George Harrison compôs esses inpirados versos da canção "Something" supostamente para Pattie Boyd, que foi sua mulher de 1966 a 74 (quando passou a ser musa de outro ícone, Eric Clapton). De alguma maneira, a canção fala daquela "coisa" que o objeto amado tem e que não sabemos descrever, expressar em palavras. É simplesmente "aquele algo mais".
"E ela é bonita?" - pergunta a moça aflita, ao saber que o ex está com outra. Pergunta clássica, embora não faça muito sentido. A dor, afinal, ameniza se a atual for mais ou menos bonita? É comum também a frase de desdém: "E nem bonita ela é, nem bonita." E daí?
Às vezes é algo na forma como "ela" (ou ele) se movimenta, diria Harrison. E tem pessoas que se movem lindamente, sem necessariamente terem uma beleza estonteante. Lembrei da música dos Beatles ao assistir o filme "Minha semana com Marilyn" (2011), em que a normalzinha Michelle Williams interpreta ninguém mais, ninguém menos que Marilyn Monroe.
Marilyn/Norma Jean era muito bonita. Tinha uma pele de bebê e olhos muito azuis. Isso, sem contar o corpo cheio de curvas. Não tinha a beleza simétrica e natural de Elizabeth Taylor, Grace Kelly ou mesmo Brigite Bardot, mas era linda. No entanto, nenhuma atriz do cinema clássico se movia com tamanha graça e sensualidade como Marilyn. Audrey Hepburn tinha graça, mas não tinha o sex appeal. Para entender do que falo, o trecho a seguir dispensa palavras. Trata-se de várias cenas de bastidores de "Something got to give", o filme inacabado de Marilyn, que seria o último de sua vida.
É difícil interpretar um ícone porque será sempre uma imitação e o original é imbatível. O filme de Michelle Williams poderia ser mais outro dos inúmeros sobre Marilyn, mas não é. A atriz foi, merecidamente, indicada ao Oscar de melhor atriz (2012) pelo papel. Estudou minuciosamente a forma como Marilyn se movia (em cena e fora dela). Foi um trabalho arriscado, pois poderia se tornar facilmente uma caricatura, o que não acontece. O filme em si é leve, mas vale pela composição de Michelle.
Assim como Marilyn, mas sem tanta notoriedade, há pessoas que se movem maravilhosamente por aí e cujas fotos não fazem justiça. Toca perguntar agora não se "a outra é bonita" mas, afinal, "como ela se move?". Muito sábio, este George Harrison.
Attracts me like no other lover"
O beatle poeta George Harrison compôs esses inpirados versos da canção "Something" supostamente para Pattie Boyd, que foi sua mulher de 1966 a 74 (quando passou a ser musa de outro ícone, Eric Clapton). De alguma maneira, a canção fala daquela "coisa" que o objeto amado tem e que não sabemos descrever, expressar em palavras. É simplesmente "aquele algo mais".
"E ela é bonita?" - pergunta a moça aflita, ao saber que o ex está com outra. Pergunta clássica, embora não faça muito sentido. A dor, afinal, ameniza se a atual for mais ou menos bonita? É comum também a frase de desdém: "E nem bonita ela é, nem bonita." E daí?
Às vezes é algo na forma como "ela" (ou ele) se movimenta, diria Harrison. E tem pessoas que se movem lindamente, sem necessariamente terem uma beleza estonteante. Lembrei da música dos Beatles ao assistir o filme "Minha semana com Marilyn" (2011), em que a normalzinha Michelle Williams interpreta ninguém mais, ninguém menos que Marilyn Monroe.
Marilyn/Norma Jean era muito bonita. Tinha uma pele de bebê e olhos muito azuis. Isso, sem contar o corpo cheio de curvas. Não tinha a beleza simétrica e natural de Elizabeth Taylor, Grace Kelly ou mesmo Brigite Bardot, mas era linda. No entanto, nenhuma atriz do cinema clássico se movia com tamanha graça e sensualidade como Marilyn. Audrey Hepburn tinha graça, mas não tinha o sex appeal. Para entender do que falo, o trecho a seguir dispensa palavras. Trata-se de várias cenas de bastidores de "Something got to give", o filme inacabado de Marilyn, que seria o último de sua vida.
É difícil interpretar um ícone porque será sempre uma imitação e o original é imbatível. O filme de Michelle Williams poderia ser mais outro dos inúmeros sobre Marilyn, mas não é. A atriz foi, merecidamente, indicada ao Oscar de melhor atriz (2012) pelo papel. Estudou minuciosamente a forma como Marilyn se movia (em cena e fora dela). Foi um trabalho arriscado, pois poderia se tornar facilmente uma caricatura, o que não acontece. O filme em si é leve, mas vale pela composição de Michelle.
Assim como Marilyn, mas sem tanta notoriedade, há pessoas que se movem maravilhosamente por aí e cujas fotos não fazem justiça. Toca perguntar agora não se "a outra é bonita" mas, afinal, "como ela se move?". Muito sábio, este George Harrison.
sábado, 26 de maio de 2012
Frases que consolam... ou não
"Quando Deus fecha uma porta, Ele fecha uma janela". Tentando ser otimista em relação a uma determinada situação, nesta semana eu cometi este lapso nada alentador. Quando o inconsciente faz-se presente desta forma tão escancarada, é claro que um psicólogo (e psicanalista) se põe a pensar. Os psicanalistas presentes na mesa, no entanto, fizeram uso da superstição e me ordenaram: "bate na madeira e isola!". E eu bati.
Penso que as frases-clichê consoladoras têm me irritado um bocado ultimamente. Talvez venha daí o lapso pessimista que não permitiu que Deus abrisse uma janela. Elas não têm tido mais efeito em mim, criei anticorpos, na verdade, o que é uma pena.
"Não era para ser, pensa assim", nos dizem quando levamos um pé na bunda, perdemos o emprego ou coisas do gênero. Quem é que disse, cara pálida? Essa frase tem uma intenção bacana que é a mesma da frase do lapso, pois faz menção a uma esperança de que dias melhores virão. Da mesma família de frases está o famigerado: "o que é seu está guardado". Guardado onde e para quando?
"Ele (a) não te merece". Quem é que disse que bom currículo é sinal de vida amorosa satisfatória, minha gente? O que é o tal merecimento? Sou trabalhador, honesto e sem vícios. Boa gente e sincero. Quem merece estar comigo? E quando se está em frangalhos por alguém, adianta saber que a pessoa não "me merece?" Sim, trata-se de uma bela tentativa de algum resgate narcísico, mas tenho cá minhas dúvidas na capacidade consoladora da frase.
"Para esquecer um amor, só mesmo um outro amor" ou, a grosso modo "a fila anda". Longe de mim querer estimular um período de luto eterno, mas o desespero por encontrar alguém novo ainda com a ferida doendo é pedir para sofrer mais ainda. Se o lugar estiver desocupado, aí sim acredito ser mais fácil. Términos de relacionamento não querem dizer, necessariamente, que o lugar está vago e a fila vai andar.
"Jamais desista dos seus sonhos". Esta é a pior de todas, a clichê das clichês. Persistência é importante, mas alguns projetos precisam ser renunciados sim, para que a vida possa caminhar. Certos sonhos, infelizmente, são apenas perda de tempo. Mais ainda se só ficam em elocubrações e jamais são colocados em prática.
Nossa, mas que mau humor, que pessimismo! Não sei, a bem da verdade. O que me irrita talvez é o caráter infantilizador de algumas das frases. Esperar um presente logo mais adiante como compensação de um sofrimento, pensar que se o cara me deixou é porque eu sou muito boa para ele, etc, etc. A vida é difícil mesmo, a gente perde coisas, muitas vezes de forma irreversível. Será que não existiria uma maneira mais doce de poder encará-la sem recorrer a tantos subterfúgios? Talvez não, vai saber. Ah, mas que sejam mais criativas, as pobres frases, ao menos. E que nos estimule a sermos adultos, uma vez que não temos mais a idade do menininho aí de cima.
Penso que as frases-clichê consoladoras têm me irritado um bocado ultimamente. Talvez venha daí o lapso pessimista que não permitiu que Deus abrisse uma janela. Elas não têm tido mais efeito em mim, criei anticorpos, na verdade, o que é uma pena.
"Não era para ser, pensa assim", nos dizem quando levamos um pé na bunda, perdemos o emprego ou coisas do gênero. Quem é que disse, cara pálida? Essa frase tem uma intenção bacana que é a mesma da frase do lapso, pois faz menção a uma esperança de que dias melhores virão. Da mesma família de frases está o famigerado: "o que é seu está guardado". Guardado onde e para quando?
"Ele (a) não te merece". Quem é que disse que bom currículo é sinal de vida amorosa satisfatória, minha gente? O que é o tal merecimento? Sou trabalhador, honesto e sem vícios. Boa gente e sincero. Quem merece estar comigo? E quando se está em frangalhos por alguém, adianta saber que a pessoa não "me merece?" Sim, trata-se de uma bela tentativa de algum resgate narcísico, mas tenho cá minhas dúvidas na capacidade consoladora da frase.
"Para esquecer um amor, só mesmo um outro amor" ou, a grosso modo "a fila anda". Longe de mim querer estimular um período de luto eterno, mas o desespero por encontrar alguém novo ainda com a ferida doendo é pedir para sofrer mais ainda. Se o lugar estiver desocupado, aí sim acredito ser mais fácil. Términos de relacionamento não querem dizer, necessariamente, que o lugar está vago e a fila vai andar.
"Jamais desista dos seus sonhos". Esta é a pior de todas, a clichê das clichês. Persistência é importante, mas alguns projetos precisam ser renunciados sim, para que a vida possa caminhar. Certos sonhos, infelizmente, são apenas perda de tempo. Mais ainda se só ficam em elocubrações e jamais são colocados em prática.
Nossa, mas que mau humor, que pessimismo! Não sei, a bem da verdade. O que me irrita talvez é o caráter infantilizador de algumas das frases. Esperar um presente logo mais adiante como compensação de um sofrimento, pensar que se o cara me deixou é porque eu sou muito boa para ele, etc, etc. A vida é difícil mesmo, a gente perde coisas, muitas vezes de forma irreversível. Será que não existiria uma maneira mais doce de poder encará-la sem recorrer a tantos subterfúgios? Talvez não, vai saber. Ah, mas que sejam mais criativas, as pobres frases, ao menos. E que nos estimule a sermos adultos, uma vez que não temos mais a idade do menininho aí de cima.
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