quinta-feira, 12 de abril de 2012

Freud, Jung e o tal método perigoso

Desconfiada, embora com esperanças de um bom filme, fui assistir a "Um método perigoso"(2011), de David Cronemberg, diretor famoso por longas polêmicos. Entre seus filmes estão os perturbadores "A mosca"(1986)  e "Crash-estranhos prazeres"(1996), apenas para citar alguns. O enredo de "Um método perigoso" trata dos primórdios da Psicanálise, da ruptura dolorosa entre Freud e Jung, e do envolvimento de Jung com uma de suas pacientes, Sabina Spielrein.

A pré-história da Psicanálise já havia sido contada no cinema por John Houston, através do problemático "Freud, além da alma"(1962). Houve dificuldades com o roteiro (escrito por Jean Paul Sartre) e com o ator principal, Montgomery Clift. Excelente intérprete, Clift estava extremamente debilitado (física e emocionalmente) e teria dado problemas durante as gravações. É perceptível a fragilidade e a melancolia do ator para quem assiste o filme. Isso, sem dúvida, prejudicou sua interpretação de Sigmund Freud e ajudou a tornar o filme ainda mais sombrio.

Montgomery Clift e Suzanah York

A história entre Jung e Sabina Spielrein já fora contada em outro longa: “Jornada da Alma” (2003), com uma abordagem mais “romântica”, digamos, da relação do psicanalista com sua paciente. A protagonista de “Jornada da alma” é Sabina e sua trajetória brilhante (embora pouco conhecida) como psicanalista da qual, é claro, fazem parte Jung e Freud.

Em "Um método perigoso", o protagonista é Carl Gustav Jung em sua juventude. É a história dele que é contada em primeiro plano. Jung é interpretado por um dos "atores do momento", o belo Michael Fassbender. Defendendo Freud, está o ótimo Viggo Mortensen, e Keira Knightley interpreta a Sabina Spielrein.



Michael Fassbender (Jung) e Viggo Mortensen (Freud)

Eu cheguei a ouvir certas piadas a respeito de escalarem galãs para interpretarem pensadores sisudos (e barbados) de outros tempos. No entanto, o suíço Jung era um "tipão charmoso", de fato. "Jung era um homem de uma poderosa inteligência (...) dotado de grande força física, apreciava os contatos humanos, os exercícios corporais e o convívio das mulheres(...)", escreveu a psicanalista Elizabeth Roudinesco em seu dicionário de Psicanálise.

O jovem Jung, quando ainda era "o príncipe herdeiro" de Freud
Para quem não é da área Psi, o filme pode parecer enfadonho, especialmente quando mostra os diálogos sobre teoria psicanalítica entre Freud e Jung, assim como entre os dois e Sabina. Os diálogos foram baseados em uma troca intensa de correspondência e muito fiel ao que, de fato, a História conta. Houve risos no cinema em alguns momentos, pois o início da psicanálise teve seus momentos assustadores e patéticos, especialmente no que tange ao manejo da transferência. Jung não conseguiu distinguir claramente amor e transferência, e o tratamento resultou em uma paixão incontrolável entre o terapeuta e sua paciente. Escreveu ele a Freud em 1909, sobre Sabina: "Ela fez um terrível escândalo, só porque me recusei o prazer de conceber um filho com ela. Sempre me mantive, com ela, nos limites de um gentleman, mas apesar de tudo não me sinto muito inocente aos olhos de minha consciência, um pouco sensível demais, e é isso que mais me perturba, pois minhas intenções sempre foram muito puras. Mas você bem sabe que o diabo usa as melhores coisas para produzir lama".

Por conta do amor por Jung (e apesar dele), Sabina curou-se de seus sintomas e tornou-se médica e psicanalista. Inventou a noção de pulsão destrutiva e sádica, que originou a pulsão de morte. Amorosamente ligada a Jung, depois ela se afinou, teoricamente, mais a Freud. Ambos sofreram com a ruptura com Jung (Freud o via como filho e sucessor, Sabina queria um filho dele).

Escreveu Freud a  judia Sabina, após a ruptura: "Da minha parte, como você sabe, estou curado de qualquer predileção pelos arianos e quero crer que, se o seu filho for homem, ele se tornará um inabalável sionista. Ele tem que ser moreno, ou então tornar-se moreno. Chega de cabeças louras (...) Somos e continuamos a ser judeus."

O filme termina antes da Primeira Guerra mundial e, portanto, antes de grandes conceitos da psicanálise serem desenvolvidos, tanto por Jung, como por Freud. Jung deu o nome de Psicologia analítica à teoria que passou a embasar sua prática em psicoterapia. Sabina casou-se com outro homem, teve filhos e foi uma das precursoras do trabalho em psicanálise com crianças.

Saí do cinema com a sensação de que muito do que fora contado no filme, especialmente no que dizia respeito à vida pessoal daqueles figurões, era uma licença poética de Cronemberg. Qual não foi minha surpresa quando, ao estudar, percebi que a ficção, de fato, perde para a vida real. Ainda respeito muito mais Freud como teórico, mas a figura pessoal de Jung é infinitamente mais fascinante.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Olho neles, meninas!

Marilyn Monroe foi uma atriz que ficou conhecida pelo seu imenso carisma, mas também por seus inúmeros problemas pessoais que acabavam prejudicando as gravações de muitos dos seus filmes. Durante as gravações de seu último longa "Something´s Got to Give", ela foi demitida devido aos constantes atrasos. O diretor Billy Wilder fez um célebre protesto: "Tenho uma tia-avó na Áustria que é pontualíssima, mas ninguém pagaria um centavo para vê-la". E as pessoas, de fato, iam para o cinema ver Marilyn, independente do filme ser uma bomba ou não.Lembrando desta frase conhecida, eu fiquei pensando: hoje, a gente chega a pagar um ingresso só por conta de um ator (atriz)?

Nos anos 80 e 90 alguns atores valiam milhões porque eram sinal de lucro certo. Tom Cruise, Tom Hanks e Julia Roberts estavam entre eles. Eu cheguei a  assistir  filmes chatíssimos como "Dias de Trovão", "Coquetel" e "A cor do dinheiro" por conta do Tom Cruise. Aliás, já fiz coisas piores por conta dele, mas abafa o caso.

Já mais velha, eu ia muito ao cinema por conta de uma trinca de atores bons: Robert Downey Jr., John Cusack e Edward Norton. Hoje, não sei se algum deles me faria pagar um ingresso (ou locação). Não dá para acreditar que o cult John Cusack anda fazendo filmes lixo como "A ressaca" e similares. Robert de Niro´s rules, sabe como é.

Eis que em pleno 2012 eu me vejo encantada por uma nova trinca da atores bons que tem valido o filme. Bora ver quem são?



Ryan Gosling em cena de "Drive"
Ryan Gosling já ganhou alguns destes títulos bestas de "homem mais sexy vivo". Eu o descobri em um filme denso ("Namorados para sempre") que valeu um post. Está nos cinemas ao lado de Carey Mulligan em "Drive". Já fez comédias mais leves como "Amor a toda prova", mas seu forte é mesmo o anti-herói, o mocinho cheio de fragilidades evidentes. O olhar de cachorro pidão ajuda (e muito). Foi sumariamente ignorado no Oscar deste ano, mas recebeu elogios rasgados da crítica especializada.

Michael Fassbender em "Shame"

Michael Fassbender chamou-me a atenção no trailer de "A dangerous method", de David Cronemberg, onde interpreta o psicanalista Carl Jung. Jung era, de fato, lindo de morrer. O filme conta o envolvimento de Jung com Sabina Spielrein, sua paciente. Além deste longa, Fassbender tem dado o que falar por conta do filme "Shame", em que interpreta um viciado em sexo. Sua interpretação e entrega ao papel (além das famosas cenas de nu frontal) tem sido bastante comentadas. Os dois filmes estreiam até o final do mês no Brasil.

Daniel Craig S2
Talvez o mais conhecido da lista, Daniel Craig é o nosso Steve McQueen dos anos 2000. Mais conhecido por ser o primeiro 007 loiro do cinema, Craig pode ser visto também no primeiro filme americano da trilogia Millenium (Os homens que não amavam as mulheres). Além dos filmes de ação, ele também já fez dramas psicológicos como "Sylvia" com Gwyneth Paltrow, onde interpretou o poeta Ted Hughes. É o típico ator que transpira testosterona, sem ser necessariamente bonito. Parece ter o rosto esculpido à canivete, como, aliás, era McQueen. É, atualmente, o meu preferido da listinha, mas isso pode mudar.
 
E aí?  Gostaram da trinca? Já procuraram por filmes só por conta de um ator preferido? Comentem, dêem seus pitacos. Só não vale "Salsa", o clássico imbatível de Robby Rosa.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

As canções

"Vou colecionar mais um soneto,
 Outro retrato em branco e preto
 A maltratar meu coração (...)"

Meu primeiro emprego como psicóloga foi em um CAPS, uma época bastante feliz e marcante. A coordenadora do serviço, em um dos meus primeiros dias, comunicou-me que eu poderia escolher uma atividade para coordenar junto aos usuários, além dos grupos que eu já participava e dos meus atendimentos individuais. Não seria um grupo psicoterapêutico, mas um espaço que eu teria junto com os pacientes para ouví-los um pouco, conhecê-los mais. Eu poderia escolher uma atividade como mediadora deste contato, sem, é claro, desempenhar a função da terapeuta ocupacional. Chegava a época do Natal e já havia oficinas de guirlandas e cartões. Não identificava em mim nenhuma habilidade especial, mas tive uma idéia. Propus que a cada encontro um dos pacientes escolhesse uma música que remetesse a um momento significativo da vida. Eu providenciaria a música e a letra; cantaríamos juntos e ouviríamos um pouco as estórias relacionadas àquela música. Na minha pouca experiência como psicóloga, acreditei que seria um grupo leve e descontraído, como deveria ser. Não era (e nem poderia) ser  um grupo psicoterapêutico. 

O grupo começou bem. O primeiro encontro foi muito alegre e a trilha sonora foi "Saudades da minha terra", uma canção sertaneja que traz a nostalgia de quem já morou no campo e agora morava na cidade. Era justamente a história da paciente, já com mais de cinquenta anos, que nos contou estórias da sua vida com o pai e irmãos. Rimos juntos, pacientes com história de vida semelhante trocaram idéias. Terminado o encontro, perguntei quem gostaria de escolher a música para o próximo. Outra paciente se manifestou e o cantor escolhido foi, nada mais, nada menos, que ele:


Aí, meus caros, a coisa ferrou. Robertão mexe com o imaginário brasileiro. Não é à toa que, em  todos os anos, pessoas de diversas idades choram ao vê-lo cantar. Letras simples, melodia fácil, muitas músicas que marcaram a vida de MUITA gente. Você pode até não gostar, mas o poder do homem é grande. A música escolhida foi "Como é grande o meu amor por você" e a atividade, até então, alegre, virou um espaço de catarse, a maioria das mulheres chorou, alguns pacientes saíram da sala, tudo muito, muito triste. Não havia (por um cuidado nosso) pacientes psicóticos no grupo, mas todos eles estavam bastante vulneráveis, obviamente. Menosprezei o efeito que a memória afetiva despertada pela música tivesse naquelas pessoas. O grupo não acabou, mas aquela experiência me marcou profundamente e contribuiu para que eu fosse mais cuidadosa no meu exercício profissional.

Não houve como não lembrar desses tempos ao assistir o belíssimo documentário de Eduardo Coutinho: "As canções".


Coutinho que tem, entre seus trabalhos, o delicioso "Edifício Master", fez um anúncio no Rio de Janeiro pedindo que voluntários comparecessem para cantar músicas que haviam, de alguma forma, marcado suas vidas. Houve bastante procura, entre pessoas muito jovens e idosas. Os melhores depoimentos, entremeados pelas canções, estão no documentário. Há estórias alegres e otimistas, mas algumas pessoas tiveram de interromper sua narrativa entre lágrimas. Muitos delas são tristes. Impressiona o número de canções do onipresente Roberto Carlos. E impressiona mais ainda o número de mulheres abandonadas. E, ao contrário do que possa parecer, essas mulheres não parecem melodramáticas ou até, digamos, chatas, com o drama vivido. É possível, mesmo nos casos aparentemente bizarros, identificar-se com elas e seus amores perdidos, às vezes há mais de quarenta anos.

Penso que o documentarista tem algo do psicanalista. A intervenção deve ser mínima e pontual. O cenário para os depoimentos não tinha como ser mais neutro: uma poltrona preta com uma cortina (preta) atrás. Nenhum instrumento acompanhava as canções. A vontade que tive foi de saber mais sobre cada uma daquelas pessoas, quis fazer perguntas. Certamente, se fosse a psicanalista ali, as faria. E, talvez, se Coutinho tivesse gravado este documentário há doze anos, eu pensaria mais de uma vez antes de fazer a fatídica (e por que não, bela?) "oficina de música". Nunca, jamais menospreze o poder de uma canção.

* este post foi publicado, originalmente, em Fevereiro de 2012. Publico novamente em homenagem a Eduardo Coutinho, um dos maiores cineastas que o Brasil já teve.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

"Um dia", o filme.

“Dr. Jivago”, um dos maiores romances de todos os tempos, ganhou uma versão épica no cinema pela direção de David Lean. Já ouvi de muita gente que a versão cinematográfica consegue ser ainda melhor que o livro, que é uma obra prima. Hoje, não há como pensar no doce médico Yuri Jivago, sem lembrar de Omar Sharif. No entanto, não são raros os casos de leitores decepcionados com adaptações de livros para a tela grande, ou mesmo para a televisão. É muito comum a frase-chavão: “Ah, mas o livro é bem melhor”.

Omar "Dr. Jivago" Sharif
Pensando nisso, foi com uma expectativa pequena que fui assistir a “Um dia”, o filme adaptado do romance de David Nicholls, um dos meus livros preferidos do ano passado e que comentei aqui.

“Um dia” não é um “Dr. Jivago”. Nem o livro, nem o filme. “Dr. Jivago” é grandioso, conta as agruras da vida particular de um homem em meio a um momento histórico que mudaria toda a história do século XX. Jivago é o herói por excelência: o médico sensível, poeta, cheio de esperanças e ideais, mesmo quando tudo parece perdido. Já “Um dia” conta uma história banal, como tantas outras. Poderia ser a minha, a sua, a de qualquer pessoa. Dois amigos, uma garota e um rapaz, compartilham a vida durante vinte anos. Não há um sistema cruel ou um vilão ardiloso que os separa e que os impede de viver uma relação amorosa, mas os desencontros próprios da vida. Eles não conseguem viver juntos por medo, por narcisismo, por insegurança, por nada. Li em algum lugar e concordei. Enquanto na noite de formatura de ambos, um deles (a garota) queria mudar o mundo, o rapaz queria apenas usufruir do que o mundo poderia lhe oferecer.



A história pode ser banal, mas a forma de contar não é. É isso que faz o romance ser bom. Você se apega aos neuróticos protagonistas Emma e Dexter. Poderia ser você, poderia ser um (a) amigo (a) seu. Um livro tijolão de quase 500 páginas e lá está você apegado (a). Aí fica difícil a adaptação para o cinema, MESMO.

Uma boa notícia para quem leu o livro: você reconhece os personagens na tela. Estão lá Emma e Dexter. Anne Hathaway, fofa por excelência e o belo Jim Sturgess têm uma química danada. Você sente, no entanto, que tudo vai muito rápido. No livro, é uma relação construída com nuances ao longo de trocentas páginas e que, no filme, acabam resumidas em duas horas. Alguns detalhes importantes perdem-se e, com isso, os personagens também perdem em riqueza e complexidade. Para quem não leu o livro, o filme acaba sendo outro, entre tantos, daquela categoria tão criticada aqui no blog: um filme de chorar. Isso talvez explique o público abaixo do esperado e as críticas ruins.

Em resumo: lendo ou não o livro, vale a ida ao cinema. Não espere uma obra prima, não é um Dr. Jivago. Dentro do possível, e dentro do que cabe a um enredo aparentemente banal,  Lone Scherfig soube contar a história. “O apanhador do campo de centeio” é outro livro com uma história banal contada de uma forma fantástica. O autor J. D. Salinger nunca autorizou uma adaptação para o cinema, no que fez, acho, muito bem. Conseguem imaginar este livro emblemático transformado em um filme, traduzido em imagens? Eu não consigo. O cinema faz milagres, mas acho dificílimo a transposição de um texto psicologicamente denso para a telona. Mas isso, é claro, é só uma opinião.

Obs: Contardo Calligaris escreveu um dos seus textos mais sensíveis ao discorrer sobre o livro "Um dia". Se não conferiu, vale a leitura.

domingo, 22 de janeiro de 2012

A mulher que não conseguia esquecer...

Coqueluche é  uma gíria antiga, lá dos anos 40, que queria dizer "o assunto do momento". Só que naqueles tempos, provavelmente, as "coqueluches" duravam mais tempo do que hoje. Por exemplo, a coqueluche da semana que passou foi a tal "Luiza que estava no Canadá" e o suposto abuso sexual do BBB. Na semana que vem, com certeza, a coqueluche será outra. As redes sociais, entre outras coisas, tem esta função: nos informar sobre o assunto do momento. A outra é nos conectar com o passado. Aquela  paixonite que você julgava acabada, músicas que há tempos não ouvia, dores adormecidas. Sinceramente, às vezes acho que o "someone you may know" do facebook parece estar de sacanagem comigo.

Entre as lembranças leves, recentemente o "you may know" me trouxe de volta um muso inspirador do final da minha adolescência. Era muso e só. Bom para olhar e achar fofo. Meu e de uma amiga. Era um moleque bicho grilo cheio de cachos nos cabelos. Aliás, era isso que o fazia muso: os cachos de anjinho. O facebook o trouxe de volta. Sem cachos. Um tiozão careca. Se não fosse os olhos e o "you may know", jamais o reconheceria. Em papo com a mesma amiga daqueles tempos, lamentei o ocorrido.

- Fiquei triste agora.
- Por quê?
- Nosso muso inspirador não existe mais. Você não vai acreditar quem eu encontrei no facebook.
- Quem?
- FU-LA-NI-NHO! Acredita que ele não tem mais os cachos? Aquele menino não existe mais, ficou lá em 92.
- Quem é fulaninho? Não sei quem é. Não lembro.
- ....

Mocinho aleatório que poderia ser o fulaninho
Descrevi, dei detalhes. Ela não lembrou. Contei conversas nossas daqueles tempos. Ela não lembrava de jeito nenhum. Minhas lembranças vívidas e o tal fulaninho dos cachos não fazia o menor sentido para ela. Além do muso, tive a sensação de ter  perdido  a amiga daqueles tempos.

Amigos são testemunhos da nossa história, eu li uma vez. Se ninguém se lembra de algo junto com você, há uma estranha sensação de loucura, como se fosse um universo paralelo: afinal, aquilo aconteceu, ou não? Só eu vivi? O youtube e os sites retrô me salvaram um pouco neste sentido. Desenhos animados meio bizarros que ninguém parecia se recordar estão lá só para me provar que não, eu não estou louca.

-Chamando Carro de Perfume, chamando Carro de Perfume...
Pensei em tudo isso ao ler o livro "A mulher que não consegue esquecer", um relato auto biográfico de Jill Price, que sofre de síndrome hipertiméstica, um caso raro de "super memória". A americana Jill lembra os detalhes de todos os dias que viveu desde os oito anos de idade, do programa que passava na televisão, à cor do sofá e o que jantou. Isso aliado a todos os acontecimentos históricos do dia. Ao ler uma data, imediatamente lhe ocorrem sons, cheiros e as lembranças vívidas. Neste caso, aquela expressão clichê "passou um filme na minha cabeça" faz todo o sentido. Situações como aquela que descrevi acima são corriqueiras. A maior parte dos detalhes que são extremamente reais para Jill não existiram para muitos dos seus amigos e familiares.

A conclusão que se tira do livro é que perder a memória é uma verdadeira tragédia, mas lembrar-se de tudo também é. O conto  "Funes, o memorioso" de Jorge Luis Borges, aborda o tema de forma mais cômica, mas a conclusão é a mesma. Viver lembrando do passado pode te impedir de viver o presente e, por que não, de "sonhar" com o futuro. No entanto, "o brilho eterno de uma mente sem lembranças" também é uma ilusão. Algo precisa ser lembrado (e repetido, e elaborado, como diria o tio Freud).

Quanto ao post, que o facebook e derivados sejam mais generosos conosco e nos ajudem a esquecer (e não a lembrar) coisas que não fazem mais o menor sentido hoje. É um verdadeiro pândego este "someone you may know".

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sobre cafajestes e princesas...

Um fio condutor similar une dois filmes aparentemente muito distintos que assisti agora em Dezembro. À procura de leveza em meio aquele estresse comum nos finais de ano, escolhi o brasileiro "Malu de bicicleta" e o americano "Um lugar qualquer" (Somewhere), ambos de 2010. Leveza não foi bem o que encontrei.

Os dois filmes poderiam ser enquadrados naquele tipo de enredo "boy meets girl" tão comum em muitas obras de ficção: menino encontra garota, tem sua vida transformada por ela e blá, blá, blá. E é isso, mas contado de uma forma diferente, o que faz o brilho das duas tramas. "500 dias com ela", filme já citado "ad infinitum" por aqui, no blog, é um exemplo bacana de como a direção faz mágicas com uma  história que já foi contada inúmeras vezes.

Os protagonistas dos dois filmes são homens entre 30 e 40 anos. São aqueles do tipo irresistível, que eu, você, todo mundo já esbarrou um dia por aí. "Irresistível" pela posição social, pelo sex appeal e talvez até pela suposta inacessibilidade. Marcelo Serrado interpreta Luiz, o empresário da noite paulistana que tem a mulher que quer, na hora em que quer, em "Malu de Bicicleta". Stephen Dorff
é o ator bonitão de filmes de ação Johnny Marco que, antes de ter qualquer desejo, já está sendo prontamente atendido. Um recurso usado nos dois filmes é você ter a perspectiva do protagonista que, por onde passa, as mulheres se curvam, oferecem telefone, se jogam, fazem o diabo. Todas elas mulheres lindas, algumas diferentes, exóticas, gostosas e o escambau. Eles se divertem por uma noite e as descartam. Algumas ficam obcecadas. Nos dois filmes há a figura da louca perseguidora e amargurada que, uma vez seduzida, é abandonada pelo homem irresistível.

Aí surge ela, A garota especial. Em "Malu de bicicleta", ela é Malu (Fernanda de Freitas), a garota descolada e analisada que atropela (literalmente) o protagonista Luiz.


Em "Um lugar qualquer", a garota especial é a filha de Johnny Marco, a fofíssima Elle Faning, que faz a Cleo.


Cleo tem onze anos e Malu deve ter seus vinte e poucos. A idade pouco importa. O que fica explícito nos dois filmes é que ambas parecem ser muito mais maduras do que Johnny e Luiz. É no contraste com elas que os dois personagens masculinos apresentados inicialmente como "fodões irresistíveis" começam a parecer patéticos, inseguros e extremamente imaturos. Há algo de "pureza" também nas duas mulheres. Malu, apesar de ser sexy e namoradeira, é equilibrada, doce e cheia de boas intenções. Cleo é uma pré adolescente apresentada sem qualquer malícia, que se dispõe a cuidar do pai.

O desfecho dos dois filmes não deixa de ser romântico (no caso de Malu) e moralista, por assim dizer, em ambos.  A vida de esbórnia, drogas e libertinagem não faz o menor sentido. O que faz sentido é encontrar uma princesa que mudará sua perspectiva de vida (uma namorada, em "Malu", a filha, em "Um lugar qualquer"). Não é à toa, portanto, que ainda existam homens que busquem princesas por aí. E mulheres que sonhem ser o ponto de mudança na vida de conhecidos cafajestes. Marcelo Rubens Paiva e Sofia Coppola merecem minhas humildes reverências.