terça-feira, 5 de julho de 2011

Vida deveria ter trilha sonora?

Diana Corso, uma psicanalista de quem gosto muito por tudo o que já escreveu, é agora colaboradora da revista "Vida Simples" (excelente publicação, mas que, a despeito do nome, é bem carinha...rs). No artigo deste mês de Julho, discorreu ela sobre os aspectos inconscientes das músicas que nos invadem a mente sem mais nem menos. Escreveu lindamente sobre uma música que repetidas vezes lhe vinha e que, ao prestar atenção, percebeu que tinha muito a ver com os sentimentos vividos no momento.
No (quase) finado orkut havia uma comunidade muito bacana (aliás, um dia participar de comunidades do orkut já foi bem bacana...rs) chamada "Vida deveria ter trilha sonora". Eu diria, fazendo coro com Diana Corso que, não só deveria, como já tem. No entanto, depois do artigo dela, resolvi ouvir melhor a minha trilha.

As músicas que invadem a minha mente (ao acordar, na clínica, nos momentos mais bizarros) são, invariavelmente, bregas. E como todo brega, são dramáticas.

Há mais ou menos um mês, era uma música do Zezé e Luciano "Muda de vida". Eu nem conhecia a música direito, tive que pesquisar. A música fala de uma pessoa que manda um recado a um alguém: "Muda de vida ou vai me perder, seja comigo o que sou com você. Você está perdida e não sabe o que quer. Muda de vida!!". Não levei ao pé da letra, mas fez sentido no momento em que vivia, ansiosa por uma mudança (inclusive de casa, veja só). A voz de Zezé era imperativa o dia todo e gritava nos meus ouvidos "Muda de vida!!". Detalhe: eu tenho pavor de Zezé di Camargo e Luciano.
MUDA DE VIDAAAAAAA!!!

Ao término de relacionamentos sofridos, a trilha piora. Vai de KLB a Leandro e Leonardo (por que sertanejos, meu Deus, por quê???). A mais recorrente é "que estou morrendo, morrendo por dentro... é tanta saudade morando em meu peito (...)". Às vezes a língua muda e os sucessos são internacionais, mas a breguice continua. Que tal acordar com Bonnie Tyler: "and I need you tonight, and I need you more than ever"? "Total eclipse of the heart" gritada às sete da manhã. E taí uma música para cantar gritando. Assim como "I wanna a hero", variação igualmente gritada da mesma cantora.

Uma conclusão bem grosseira é a óbvia. Sou hiperbólica com os meus afetos, ainda que não os demonstre tanto assim. Minha trilha sonora escolhida inconscientemente a dedo me mostra isso. Não acordo jamais com uma música do Chico Buarque. No entanto, me intriga a última música insistente que me perseguiu dia desses. Estava na melancólica cidade de Praga e de repente:

"Tira a calça jeans, bota um fio dental, morena você é tão sensual"
Recuso-me, terminantemente, a tentar interpretar. E, pelamor de Deus, Zezé di Camargo até vai, mas "Os morenos"?



Escrevi também sobre trilhas sonoras (e o brega) aqui: http://letrasdelets.blogspot.com/2009/09/ja-fui-inumeras-festas-do-cafona-ou.html

domingo, 5 de junho de 2011

Luto e Melancolia na tela grande

Sigmund Freud escreveu dois textos belíssimos que reli dia desses. Mesmo aqueles que não simpatizam muito com a obra do "pai da psicanálise" irão apreciar sua escrita acessível e literária. "Luto e Melancolia" (1917) e "Sobre a transitoriedade" (1915) são textos curtos escritos em um momento de transição da teoria psicanalítica. A grosso modo, ambos versam sobre perdas e a forma como lidamos com elas.

Lembrei dos textos ao assistir um filme recente ("Reencontrando a felicidade"- 2010) que trata de um tema espinhoso: a perda de um filho pequeno em uma morte trágica. Nicole Kidman e Aaron Eckhart interpretam o casal que tem de juntar os pedaços juntos após a dor imensurável da perda de um filho. Nicole foi indicada ao Oscar deste ano como melhor atriz por este papel. No entanto, foi eclipsada por Natalie Portman que acabou levando o prêmio. O ano foi de Natalie e seu "Cisne Negro", sem dúvida. No entanto, Nicole Kidman também merecia. Sem um pingo de botox, todas as expressões foram possíveis em sua interpretação de uma mãe amargurada. Ela, que em outros tempos brilhou com a melancólica Virgínia Woolf no denso "As horas"(2002), faz agora uma mãe em luto. Não assistia a um filme tratar de forma tão realista a dor do luto desde o tristíssimo "O quarto do filho"(2001).

O que é perdido quando se perde um objeto de amor? Além do objeto de afeto, o que se vai? "Reencontrando a felicidade " tangencia essas questões, questões estas que foram aprofundadas nos textos do tio Freud. Há que se estar inspirado para assistir, sem dores muito recentes. No entanto, para quem  aprecia um bom drama e não tem medo de chorar no cinema, vale a pena. Nicole Kidman prova que está em excelente forma. E Sigmund Freud também.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Um tapa na cara da sociedade!

Uma das cenas mais marcantes do cinema é a de Scarlett O´Hara arrancando um rabanete(!) da terra e jurando não mais passar fome novamente.

Ainda que jure por Deus, ela acrescenta que poderia roubar, matar e caluniar para que isto não acontecesse mais. A cena em que ela toma emprestada a cortina verde para fazer um lindo vestido marca o início da reviravolta de Scarlett na trama. Alguns dizem que "E o vento levou" é das histórias de amor mais lindas do cinema. Não é.  O filme é a história de uma mulher linda, forte e egoísta. Scarlett não amava nem Ashley e nem Rett Butler. Scarlett só amava a si mesma e sua terra: Tara.
Lembrei de Scarlett ao assistir a nova história de Norma (Glória Pires) em "Insensato Coração". A novela começou meio capenga mas, ao que parece, começa a reagir. Não há audiência que resista a uma história de vingança e recomeço, especialmente quando envolve humilhação. Embora o brasileiro seja, em sua maioria, criado na religião judaico-cristã, muito pouca gente gosta de oferecer a outra face. O tema da vingança (especialmente a feminina) tem lugar cativo na teledramaturgia nacional. E é legitimada, ainda que seja aos moldes de Scarlett: roubando, matando e caluniando.

Um dos clássicos do terror adaptados para o cinema foi "Carrie, a estranha" (1976). A paranormal Carrie (Sissy Spacek) era uma adolescente atormentada por uma mãe fanática religiosa e seus colegas da escola. Na festa de formatura, ela começa sua vingança. Silvio de Abreu fez sua versão de Carrie com Regina Duarte e seu banho de lixo em "Rainha da Sucata" (1990). A moça pobre se vinga mais tarde tornando-se milionária (a tal rainha do título) e casando-se com sua paixão adolescente que a teria humilhado tanto (Edu Figueroa, de Tony Ramos). Walcyr Carrasco escreveu sua Carrie: a doce Ana Francisca (Mariana Ximenes) de "Chocolate com Pimenta" (2003). Aguinaldo Silva, por sua vez, adaptou a já antológica Tieta (1989).

Ah, que sucesso faz o "tapa na cara da sociedade" ou, mais ainda, no algoz, geralmente um homem (seja o pai, o canalha, o playboy). Incrível como nessas colunas sentimentais apresentadas em vários portais observa-se imenso número de comentaristas que palpitam quando uma leitora sofredora abre seu coração. Se foi enganada e deixada, o conselho vem quase em uníssono: vingue-se, depois siga em frente.
Não, a vingança não é uma característica feminina. No entanto, mulheres ainda assistem muita novela e adoram uma reviravolta, especialmente quando envolvem um banho de loja. É bom ser Cinderela e Tieta de vez em quando, ainda que seja só na ficção. Isso desde Scarlett O´Hara e o vestido verde de cortina.

Scarlett e seu milagre de alta costura

domingo, 15 de maio de 2011

Vida louca, vida breve...

Eu não me lembrava que ele tinha morrido tão jovem. Lauro Corona tinha 32 anos quando faleceu, em 1989, em decorrência de AIDS. Isso foi há mais de vinte anos quando a homossexualidade e AIDS ainda eram temas tabus. Foi no mesmo ano em que a doença levou Cazuza.
Lembrei de Lauro Corona ao ler sobre ele na revista Joyce Pascowitch deste mês. A revista costuma relembrar ídolos de outros tempos. Esquecidos ou nem tanto.
Laurinho, como era conhecido, era presença onipresente na tevê. Era o equivalente, talvez, a um Cauã Reymond ou, pela semelhança física, um Bruno Gagliasso. Foi ídolo teen nos anos 7o e elogiadíssimo por seu talento nos anos 80. Além da pouca idade, chamou-me atenção o pouco tempo que ficou na mídia: 10 anos. A impressão que tinha, talvez por ser eu também muito novinha, era de que Lauro Corona esteve na tevê por muito tempo.
Morrer com AIDS naqueles tempos era algo muito triste. Era uma doença que não se falava o nome. Muitos artistas iam sumindo da mídia e, tempos depois, sabía-se da morte por causas misteriosas. Lauro Corona estava gravando uma novela das seis na época (Vida Nova) e, apesar de ser protagonista, teve de interromper sua participação. Já não tinha mais os cachos que o fizeram famoso e os olhos azuis pareciam muito distantes. A AIDS tinha uma cara. O olhar de quem tinha AIDS, aliado ao emagrecimento e, por vezes, ao efeito do AZT, era inconfundível. Lembro-me da sensação que tive ao assistir Lauro Corona em sua última novela. Eu senti que ele não faria mais nenhuma.
Pensando no ator, tive vontade de revê-lo cantar, junto de uma adolescente Glória Pires, o tema do casal em Dancin´Days. Segundo pessoas próximas, na época, eles eram tão amigos e viviam tão em sintonia que até respiravam no mesmo ritmo. É minha música preferida de Chico Buarque: João e Maria.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sobre príncipes, contos de fadas e estórias de infância

Muito já se escreveu sobre o impacto de grandes acontecimentos na vida de pessoas comuns. É muito frequente a gente se lembrar do que fazíamos em nosso prosaico cotidiano em dias que ficaram memoráveis para o mundo . Por exemplo: onde você estava quando o Senna morreu? Com quem estava no tetracampeonato? E, mais longe: quantos anos tinha quando o homem pisou na lua?

Eu, a despeito da minha memória ridícula para coisas um tanto quanto inúteis me lembro, às vezes, até da roupa que vestia na ocasião. Tenho, por exemplo, a lembrança nítida do impacto que tive ao ver a princesa Diana entrar na igreja. Não, eu não achei cafona aquele vestido que mais parecia um repolho. Eu achei lindo. E a princesa Diana era a mulher mais bonita do universo. Afinal, ela era uma princesa de verdade. E eu, uma criança.

O casamento da Diana aparece em minha memória como uma coisa tão antiga que ela fica lá nas gavetinhas da infância com meu pai. E elas são muito vívidas, embora eu tenha vivido pouco com ele. Já disse em outro post e repito aqui, que meu pai adorava revistas, especialmente a Manchete, que tinha fotos imensas. E era por lá que eu acompanhava a saga de Diana, a primeira princesa de verdade que eu tive notícia. Tá certo que eu achei o príncipe Charles meio feio. No entanto, meu pai me assegurou que ele tinha irmãos mais bonitos (!) e um deles seria o meu príncipe. Péssimo, pai, péssimo. Por alguns anos eu acreditei, até Andrew, o único irmão bonito, se casar com a louca da Sarah Ferguson.


Diana, o fatídico vestido, e o príncipe que virou sapo

                                                          
Algum tempo depois, meu pai se foi de forma trágica e a princesa de verdade, Diana, também. O conto de fadas com Charles, no entanto,  morreu antes dela. Essas lembranças todas aparecem novamente quando sou bombardeada com as notícias do casamento do príncipe William amanhã, com sua "lady Kate". Percebo que sou velha porque a capa da Manchete com o bebezinho loiro de perninhas gordas ainda é bem nítida. E, além disso, não me comovo mais com saga de princesas, nem com príncipes, bonitos ou feios, cabeludos ou carecas. Ainda assim,  certeza que vou dar uma olhadinha no vestido da noiva, anos-luz do repolhudo de 1981.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A saga de João Coragem

Eu conheci o Tarcísio Meira já coroa. No entanto, aos 50 anos, ele estava ainda muito bonito. Foi quando fez o épico Capitão Rodrigo em "O tempo e o vento" e o ambivalente Renato Villar em "Roda de Fogo" em meados dos anos 80.
No entanto, embora eu ainda não fosse nascida na época, o que me fascinava era a imagem de Tarcísio em "Irmãos Coragem", a trama rocambolesca de Janete Clair do início dos anos 70. Quando a tevê Globo fez 25 anos, apresentou uma "versão compacta" da novela e eu, criançona, babava por aquele homem lindo e heróico.
Eis que a novela sai em DVD e eu, mais do que imediatamente adquiro esta trama da era paleozóica da tevê. A trama durou quase um ano. Deu tempo da Regina Duarte engravidar, ter o bebê e a novela ainda estar no ar.
A novela não tinha edição. As cenas iam ao ar praticamente como eram gravadas. A trilha sonora era gravada juntamente com a cena (tipo, o mocinho ia beijar a mocinha ouvindo sua música tema). As externas tinha uma iluminação terrível e as cenas de ação eram toscas (percebía-se que os socos eram de "mentirinha"). Os cortes de uma cena para outra eram abruptos (há que se considerar que no DVD algumas cenas tiveram de ser cortadas), os cenários feios e as roupas pareciam ser de costureira (de fato,deveriam ser). O gerador era tão barulhento que é possível ouvir o barulho nas externas.
No entanto, o texto era bom e os personagens bem construídos, na medida do possível. João Coragem, o personagem de Tarcísio, era o irmão mais velho, justo e ponderado. Jerônimo (Cláudio Cavalcanti), o do meio, era mais esquentado e ligado à política. E Duda (Claudio Marzo), o caçula, era ambicioso e ousado. A trama conta a saga dos três irmãos em busca de justiça contra o coronel do local, o cruel Pedro Barros. Há ainda as paixões dos irmãos: Lara (Glória Menezes), Ritinha (Regina Duarte) e a índia Potira (Lúcia Alves).

A personagem de Glória Menezes enlouquecia o simplório João Coragem pois tinha três personalidades distintas: a recatada Lara, a devassa Diana e a equilibrada Márcia. A trama teria sido inspirada no filme "As três máscaras de Eva" (1957) que deu o Oscar a Joanne Woodward. A resolução da doença da moça é resolvida com uma cirurgia no cérebro (!) nos últimos capítulos.

Passei o domingo assistindo parte da novela e pensando em como o mundo era mais ingênuo e mais simples. No entanto, Tarcísio Meira  enche a tela como o mocinho dos mocinhos. João Coragem continua sendo o meu herói preferido.

terça-feira, 12 de abril de 2011

"Filmes de chorar"

Ah, como é bom chorar no cinema. Todas aquelas lágrimas deslocadas de algum lugar ou momento para  desembocar naquele escurinho "protegido". Ah, agora posso! E dá-lhe olhos inchados.

Sem nenhum rigor, acredito que um dos primeiros filmes "de chorar" foi o "Suplício de uma saudade" nos já longínquos anos 50, com um (ainda) garotão William Holden. Outro que é um clássico da choradeira é "Love Story"(1970), também um representante mór de outra categoria: os "filmes de doença". "Filmes de doença" geralmente também são "filmes de chorar".
Muito se falou a respeito de um sucesso recente do cinema: "P.S. Eu te amo", com Gerald Butler. Não sei se pelo fato das pessoas me avisarem de antemão para preparar o lencinho, eu torci o nariz. Toda cena parecia meticulosamente calculada para ser "a hora do choro". É um legítimo "filme de doença" + "filme de chorar". Clichezão, a gente vê por aqui.

Daí que eu escolhi assistir a um filme novo (deste ano, creio eu), com título de música que toca na rádio AM: "Não me abandone jamais". A escolha se deu pela atriz, a fofa Carey Mulligan. A sinopse, descrita brevemente, era sobre a história da relação de três adolescentes que crescem juntos. Inocentemente, achei que o filme fosse leve. Ledo engano.

Não sei se para qualquer um pode-se dizer que é um "filme de chorar",  nem "um filme de doença", embora envolva hospitais e tudo mais. Há algo de ficção científica, inclusive. O que sei é que devo ter chorado pela vida inteira dentro do cinema. Se você não suporta obviedades, vá conferir. O filme vale pela fofíssima atriz citada acima, mas especialmente pelo rapaz protagonista (Andrew Garfield, de "A rede social"), que tem um olhar de cortar a alma em duas. Há como se falar de amor (além de outros tantos temas no filme) sem parecer um idiota e isso pode, de fato, emocionar.

P.S.: Escrevi um post sobre outro filme bom da "catiguria" aqui: http://letrasdelets.blogspot.com/2008/10/paixo-nos-tempos-do-clera.html: