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domingo, 14 de agosto de 2011

Lerê, lerê...

Embora tenha ouvido e estudado a respeito, eu fui somente ter acesso aos efeitos do comunismo no Leste Europeu quando visitei algumas cidades, há alguns meses atrás. E conheci mulheres jovens que, até a adolescência, nunca tinham ouvido falar dos Beatles ou Elvis Presley, por exemplo.
Qualquer manifestação da subjetividade era reprimida; qualquer adoração religiosa ou cultivo de ídolos que não fossem os seus governantes era proibida. Cabeças de santos foram cortadas, muitas igrejas e templos destruídos. Poesias, canções que não fossem relacionadas à exaltação dos governos ditatoriais não podiam existir. Hoje, mais de vinte anos após a queda do Muro de Berlim, símbolo máximo da Europa comunista, uma certa melancolia  ainda pode ser percebida em cidades como Budapeste e Praga.
No entanto, ainda na década de oitenta, uma novela brasileira conseguiu ultrapassar a cortina de ferro. Ela foi talvez, a novela mais vista no mundo todo: "A escrava Isaura", de 1976. Hoje, talvez eu possa entender melhor o fenômeno.
Arrisco-me a dizer que mais do que  Pelé,  futebol e Carnaval, em Budapeste, os brasileiros são associados a Isaura (Lucélia Santos). Você fala que é do Brasil e eles dizem "Isaura", com aquele sotaque engraçado. Conversando com nossa guia, ela me explicou que a figura de Isaura foi a primeira a despertar paixão nos húngaros depois de muito tempo. "Não somos um povo muito apaixonado", ela disse, "especialmente depois de anos de guerra e repressão, mas a novela brasileira mudou um pouco isso". Devemos lembrar que o romance de Bernardo Guimarães, que deu origem à novela, é a história de uma escrava branca, doce e pura de coração que é vítima de seu senhor, devasso e cruel. O senhor Leôncio (Rubens de Falco) faz, durante a novela, as maiores maldades com Isaura, inclusive assediando-a, mas ela resiste e suporta. Em uma das frases do romance, diz ela que Leôncio é dono do seu corpo, mas não do seu coração:“ Não, por certo, meu senhor; o coração é livre; ninguém pode escravizá-lo, nem o próprio dono.”


A guia de Budapeste contou-me que era comum inclusive pessoas céticas e intelectuais juntarem dinheiro para comprar a liberdade da escrava Isaura enquanto a novela passava por lá. A visita de Lucélia Santos ao país foi um fenômeno. Pessoas saíram de casa com um frio de vinte graus negativos para poder ver a atriz. 

Pensava comigo: o que tem a "Escrava Isaura" como novela para fazer tanto sucesso assim em países tão longínquos como Hungria, Rússia e a China? Parecía-me uma história comum, um folhetim como tantos outros. Entendi, enfim, que uma história abolicionista brasileira tinha, de fato, muito a ver com o desejo de liberdade de muitos povos entregues a seus "senhores", tão cruéis como o assustador Leôncio. Parece que a novela, mais do que entretenimento, trazia um sopro de esperança através da identificação com a escrava. E também eu, depois desta experiência de viagem, passei a ver  a novela (primeira escrita por Gilberto Braga) com outros olhos e outros afetos.