Ouvi este conselho aos quinze anos, de um rapaz mais velho da turma, que devia contar seus vinte e um. Eu havia acabado de trocar livros com uma amiga, era um dos nossos hábitos. Na época, comprávamos livros da Agatha Christie, da Coleção Vagalume e muitos, muitos da coleção Julia, Sabrina e Bianca. Os numerosos romances de encadernações vagabundas enchiam uma sacola.
Os livros costumavam ser romances açucarados em lugares paradisíacos. Alguns eram mais picantes, mas aprendíamos a localizá-los pelo nome da autora (geralmente eram mulheres). Havia uma outra coleção, a "Momentos Íntimos" que eram mais apimentados, de fato. Nada escandaloso, nada que se compare ao best seller do momento, a trilogia dos "50 tons".
No entanto, algumas coisas compunham a receita básica dos livros e, incrivelmente, fazem sucesso até hoje entre mulheres de várias idades. O herói do romance é belo, forte e geralmente, rico. A mocinha pode ser destemida e corajosa, ou doce e delicada, mas é sempre magra, bonita e bem educada. Os cenários, invariavelmente, são lugares belos e cheios de luxo.
Lembro-me até hoje da descrição de um herói desses romances. Ele era mais velho (coisa rara, tinha por volta dos quarenta anos, quando a maioria tinha cerca de vinte e tantos). Foi a primeira vez que ri ao ler a descrição (sempre rica em pormenores) e constatei o ridículo do negócio:
"Luke tinha um bronzeado invejável, que contrastava com seus cabelos prateados. Ele a encarava com seus olhos profundos, azuis como os de um husky".
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"Ele era capaz de despí-la apenas com o seu olhar" |
Foi assim que me cansei das Sabrinas. Romances com tramas "românticas" precisam ser muito bons para não ficarem ridículos. Romances eróticos precisam ser extremamente bons para não serem cafonas. A maioria deles você lê e quase chega a ouvir o Kenny G. e o Roberto Carlos ao fundo.
Penso que romances como "50 tons" chegam a ser tão irreais quanto um filme pornô. A mocinha nunca transpira, nunca está cansada e com olheiras, não tem TPM, não tem dor, está sempre com a manicure e a escova em dia. Imagina se ela vai se preocupar como o frizz nos cabelos e se esqueceu de tomar a pílula anticoncepcional! Mas é claro, dirão alguns, os livros são para as mulheres sonharem, se projetarem para lugares que não conhecem, nos braços de homens maravilhosos e super-power-plus. Pode ser.
No entanto, literatura erótica para mim, da boa, não é essa. Há muitos livros bons por aí, de Anaïs Nin a Ana Ferreira. João Ubaldo Ribeiro não conta, pois "A casa dos budas ditosos" não parece ser contado por uma mulher. Se querem um filme, procurem pelo espanhol "Lucía e o sexo"(2001), um belo longa erótico. A protagonista, vivida pela linda Paz Vega, é palpável, real, humana. E Drummond, meu querido Drummond, também escreveu um lindo livro de poemas, "O amor natural".
Tanto em literatura, como nos filmes, é necessária alguma identificação com a (o) protagonista. É preciso sentir-se ali. Há sim uma boa dose de "é ali que eu QUERO estar", especialmente em situações inviáveis na vida cotidiana, mas prefiro poucos devaneios. Hoje eu entendo melhor o conselho do meu antigo amigo, tão jovem ainda em seus vinte e poucos anos. Literatura (mesmo a ruim) não fez mal a mim, nem tão pouco os protagonistas perfeitos. No entanto, a vida real é MUITO diferente da ficção, embora possa ser bem mais interessante também.